segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A IDEIA DE QUE UM MERCADO FONOGRÁFICO HONESTO CRESCERIA COM A INTERNET SE FOI

STEFANY ABSOLUTA, cantora de forró-brega - Exemplo do jabaculê que rola na Internet.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O texto abaixo derruba de vez a tese de que as "novas mídias digitais" iriam provocar a revolução fonográfica, que eliminaria o jabaculê e tudo o mais. O jabaculê cresceu, as redes sociais se tornaram redutos de muitas bobagens que fazem grande sucesso na Internet e até mesmo o mercado brega-popularesco agora se alimenta primeiro com as execuções no YouTube para depois jogar nas rádios "populares" e na televisão.

A ideia de que um mercado fonográfico honesto cresceria com a internet já se foi

Por Emir Ruivo - Diário do Centro do Mundo

Eis que recebo um e-mail. Um site de música sertaneja vinculado a um portal dos mais populares me oferece reportagens sobre alguns artistas que ficaram sabendo que eu produzi. Sigo a leitura e noto que eles não estão interessados nos artistas de fato – querem é vender as reportagens. Eis um trecho:

“Neste pacote estão inclusos 4 posts mensais sobre seu artista no site X. A notícia pode ser sobre agenda, shows, download de música, foto, divulgação das redes sociais”. (…) “Além de serem publicados no X, sobem automaticamente para o portal Y no canal ‘Últimas Notícias’ dando maior visibilidade ao seu artista”.

Isso é o que se chama “mídia cooperada”. Nos termos populares, “jabá”. Com o crescimento da internet, acreditava-se que isso iria sumir. Está claro agora que não. Os Ratos apenas mudaram de lugar.

Então penso no que aconteceu neste meio tempo, entre a perda de influência do rádio e da MTV, e o crescimento exponencial da internet. Minha conclusão, ao menos por hora, é que este movimento foi fomentado pelo Youtube e pela miserável vaidade humana.

Vamos voltar um pouco para entender o que aconteceu: conhecendo a necessidade de adulação das pessoas, Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, criadores do Youtube, acrescentaram um detalhe em sua página: o número de visualizações dos vídeos.

Por incrível que possa parecer, este número é o provável responsável pelo crescimento do site. A lógica é simples: você colocou um vídeo lá; quer que ele seja visualizado; divulga a página onde ele está – logo, divulga o Youtube. Desta forma, a empresa se beneficiou de publicidade gratuita como nunca na história deste mundo velho sem porteira.

O mercado fonográfico hoje trabalha única e exclusivamente em torno do deste site. Rádio, TV, revista, jornal, e até outros sites, são perfumaria. O assessor de imprensa do artista busca ser notícia neles, claro, mas para aumentar as visualizações no Youtube – e, assim, o valor do cachê do seu artista.

Como nós chegamos ao ponto de deixar um único site monopolizar a música, eu não sei. Sei que geralmente é ruim. Mas não posso afirmar. De qualquer forma, isso é assunto para outra hora.

De volta ao assunto, o ganha-pão dos Ratos é esse: eles estão sob grandes portais (que geralmente os engloba só para, novamente, ter mais números) e têm poder razoável de levar gente ao seu vídeo. E cobram por isso. Normal? Sim, se fosse claramente colocado como publicidade. Isso significa que quem está lá, não está por méritos. Mais que isso – significa que você basicamente está visitando uma página de classificados. “Classificados Espertos”, eu diria.

Por vezes, penso que o Youtube perdeu uma oportunidade fabulosa de ficar calado. Não tivessem os números, poderiam soltar mensalmente um chart com os vídeos mais vistos. Poderia ser semanal, diário, sei lá. Outras vezes, penso que se eles não tivessem feito isso, alguém teria – e teria crescido com isso, de forma que provavelmente tomaria seu lugar.

No fim, a culpa deve ser nossa mesmo – minha, sua e de toda a humanidade. Nós olhamos o número. Nós corrompemos. Nós também somos Ratos.

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