quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

UOL 89 FM: MITOS E PROBLEMAS


Com tanta rádio de rock para voltar ao ar, voltou logo a 89 FM, uma rádio que foi marcada mais pelos erros do que pelos acertos, embora para as gerações recentes vários desses erros sejam vistos como "erros menores" ou até como "acertos".

Rebatizada de UOL 89 FM, a 89 voltou mais como um mito do que como uma rádio dotada de verdadeiras qualidades. Eu pude fazer algumas audições na programação normal da rádio e posso assegurar, com a experiência que eu tenho como pesquisador de rádios de rock, que a 89 está muito abaixo até mesmo do mínimo que se pode esperar de uma rádio de rock decente.

É certo que a 89 eliminou alguns exageros, como a ênfase nos programas humorísticos, nas promoções mirabolantes e no recebimento de celebridades qualquer nota, além de debates esportivos quando nem todo mundo curte futebol, sobretudo o público de rock (ou mesmo de "pop-rock"), e numa cidade como São Paulo, onde cada vez mais surgem pessoas questionando o fanatismo futebolístico.

LOCUÇÃO INCOMPATÍVEL COM O PERFIL DE RÁDIO DE ROCK

No entanto, isso não significa que a 89 voltou acertada. Ela eliminou os defeitos mais extremos, mas o essencial desses defeitos ainda continua. Afinal, reduzir os defeitos não é o mesmo que somar qualidades e o que se vê na programação da 89 está muito abaixo do que sugere a sua mitologia.

Admite-se que a 89 FM tornou-se um mito. A rádio nunca teve uma performance comparável com uma Fluminense FM nos anos 80, pois mesmo as melhores fases da 89 deixavam a desejar para os parâmetros básicos de uma rádio de rock.

A soma de um bom marketing, sobretudo pelo logotipo sedutor criado por Washington Olivetto (com uma fonte gráfica impactuante e a ênfase na expressão "A Rádio Rock"), e um departamento comercial impecável, além de toda a blindagem da grande mídia e das boas relações com os anunciantes e promotores de eventos, é que fizeram a diferença no carisma da 89.

Mas a emissora cometeu erros constrangedores demais para os parâmetros mínimos de radialismo rock. Adotou um estilo de locução pop que, já na dicção, é incompatível com o perfil de rádio de rock, que exige uma locução sóbria e até mesmo um timbre e um vocabulário que sejam diferentes ao das rádios pop convencionais.

Pois a 89 FM fez justamente o contrário, pois, desde 1988, passou a adotar um padrão de locução sempre copiado de uma rádio pop do momento. Estratégias de atingir um público não-roqueiro? Talvez. Mas esse mal tornou-se um vírus perigoso, um câncer que chegou a tirar a 89 FM do segmento roqueiro em 2006, sobretudo pelas pressões que o radialismo rock exercia do exterior, via Internet.

Os paradigmas de locução adotados foram, primeiro, a da antiga Rádio Cidade (quando era uma rede assumidamente pop) e, mais recentemente, o da Jovem Pan 2, cuja linguagem é copiada pela 89 até mesmo nas vinhetas.

Para piorar, o próprio coordenador da 89, João Carlos Godas, o Tatola, adota esse estilo "Jovem Pan 2" de locução que desmoraliza qualquer postura que ele faça contra o pop dançante (que ele apelida de "putz-putz"). Afinal, é das rádios de pop dançante que ele inspira seu estilo de locução. E o pior é que ele foi vocalista da banda Não Religião, que se dizia "punk rock" (embora não fosse lá grande coisa no gênero).

Também pesquiso rádios como Mix FM e a própria Jovem Pan 2 e há dezenas de locutores que falam igualzinho ao Tatola. O texto "roqueiro" nem de longe faz a menor diferença, porque a linguagem e mentalidade continua sendo sempre igual.

REJEIÇÃO AO ROCK CLÁSSICO

Um aspecto grave da UOL 89 FM é o repertório, restrito ao hit-parade aparentemente associado ao rock. Neste sentido, o cardápio musical segue a mesma metodologia das rádios de pop adulto, substituindo a repetição extrema de 60 sucessos do momento com uma alternância permanente de sucessos e músicas de trabalho com flash back na programação diária, o que diversifica um pouquinho o repertório.

No entanto, as bandas tocadas se limitam sempre aos "grandes sucessos". E mesmo no repertório "mais diversificado", as músicas já começam a repetir, como no caso do Oasis, com a música "Wonderwall". Não há liberdade de escolha de repertório, e além disso as restrições chegam ao nível do constrangimento.

Afinal, até agora a UOL 89 não percebeu que o Oasis acabou e que a última formação do grupo se dividiu entre a carreira solo de Noel Gallagher e o novo grupo criado pelo restante da banda, o Beady Eye, todos com repertório próprio e uma considerável trajetória de apresentações ao vivo.

O preconceito ao rock mais antigo da UOL 89 e seus ouvintes também não procede, porque, na postura assumida no mercado, a emissora se define não como uma emissora de "rock contemporâneo", mas como uma emissora de "rock em geral".

Isso significa que, para o anunciante que vende seu produto na UOL 89 FM, o compromisso presumido é que a emissora toque tudo o que for de rock, inclusive o mais antigo. Pelo menos na sua postura publicitária, a emissora afirma tocar "todas as tendências do rock", e não apenas o rock "mais novinho".

CONTINUA "COMENDO POEIRA"

A performance da UOL 89 FM só se tornou bem sucedida porque o Brasil, desde os anos 90, passou por uma degradação midiática que fez o país, do Oiapoque ao Chuí, se tornar um tanto cafona e provinciano. Se os "heróis" brasileiros de hoje são Luciano Huck, Thiaguinho, Solange Gomes, Michel Teló e outros e um MC Leonardo se acha ao luxo de posar de militante, a UOL 89 parece "genial" neste contexto.

Só que a UOL 89 ainda apresenta problemas graves se comparada às antigas rádios de rock dos anos 80, como a Fluminense FM de Niterói e a antiga 97 FM ou 97 Rock, esta última tendo chegado a concorrer com a 89.

Isso porque essas rádios adotavam uma linguagem que diferia, e muito, da mentalidade abobalhada das rádios de pop dançante, e tocavam um repertório musical que fugia e muito das limitações do hit-parade, a mesmo os espaços de humor valorizavam o humor e não sucumbiam ao besteirol mais patético, desses onde gritos e falsetes prevaleciam sobre piadas sem graça.

Neste caso, a UOL 89 FM se torna até mais fraca do que mesmo a fase 1985-1986 da Fluminense FM, já que a Fluminense, nessa época, já nem estava no auge, mas continuava tendo coragem de colocar até mesmo raridades e bandas inéditas no Brasil na programação normal. Até hoje, grupos como Weather Prophets e Rose of Avalanche nunca foram lançados no Brasil e já rolaram no cardápio diário da Flu FM.

Já a UOL 89, como foi de praxe na 89, só tocava o óbvio do óbvio. E, do contrário que seu mito sugere, a rádio nunca foi de rolar adoidado Frank Zappa, Violent Femmes, Fellini, Violeta de Outono e Les Rita Mitsouko na programação diária. Isso falando em nomes nacionais ou estrangeiros com discos lançados aqui.

Mesmo nos momentos mais "alternativos", o carro-chefe da UOL 89 FM foi apenas através de nomes com Eurythmics, Titãs, Kid Abelha e U2, nos anos 80, e o rock de Seattle e o funk metal, no começo dos anos 90. Mas, no país culturalmente indigente de hoje, até o "sucesso do sucesso" parece "alternativo".

Quanto às rádios de rock do exterior, a UOL 89 FM então tem sua situação piorada, "comendo a poeira" do que as rádios de fora rolam. Afinal, o que a UOL 89 vende como "novidade" e como "alternativo" é risível, onde até mesmo um inexpressivo Smash Mouth tem maior ênfase. E mesmo nomes como Black Keys, Muse e Artic Monkeys já são considerados veteranos e mainstream lá fora.

E isso quando a UOL 89 não vende como "novo" bandas clones de Limp Biskit e Evanescence que são lançadas nas suas sessões de "novidades". E já existe um programa de rock brasileiro, o "Temos Vagas", que pelo jeito, irá priorizar clones de Raimundos e CPM 22 ou o que vier na moda. Nada que acrescente muito à mesmice que fez a cultura rock perder espaço até para o brega-popularesco mais rasteiro.

CONCLUSÃO

Só mesmo um país provinciano como o Brasil, que supervaloriza até mesmo as inutilidades do Big Brother Brasil e vive no atoleiro da mediocridade cultural para achar a UOL 89 FM o máximo. Não bastasse o controle acionário da ultraconservadora Folha de São Paulo - que, no auge da 89, era tido com sinônimo de "imprensa moderna", mas hoje soa antiquada - , a emissora soa datada, superficial e equivocada.

Se até o coordenador fala igual aos locutores das rádios pop mais tolas, mesmo fazendo o estilo do "locutor engraçadinho que evita fazer muitas gracinhas" (mas que continua fazendo num momento ou em outro) e se o repertório se limita aos "grandes sucessos" e um preconceito contra o rock mais antigo mesmo dentro de uma postura vinculada ao "rock em geral", então a UOL 89 FM está muito, muito problemática.

As antigas rádios de rock que tocavam até raridades na programação normal e cujos locutores falavam que nem gente ainda continuam deixando muitas saudades.

Nenhum comentário: