terça-feira, 22 de janeiro de 2013

TV PAGA E O DESPERDÍCIO DOS PACOTES BÁSICOS

QUEM É QUE, NAS ZONAS URBANAS, TEM INTERESSE EM VER LEILÕES DE GADO NA TV PAGA?

Os serviços de TV por assinatura precisam aprender a separar o supérfluo do necessário. Mas as próprias emissoras também não ajudam, vide a degradação que se vê na programação da TV paga, que outrora havia sido um oásis de qualidade diante da decadência brutal da TV aberta.

E mesmo a TV aberta foi boa um dia. Até 1964, ela gozava de uma plena qualidade de programação, onde ideias experimentais apareciam até mesmo num canal como a TV Paulista, antiga emissora de televisão de São Paulo, pertencente às Organizações Victor Costa e que em 1966 se transformou na atual TV Globo São Paulo.

E o que era a TV Paulista? Era mais ou menos a CNT da época, em termos de estrutura financeira. A emissora até tinha um certo destaque e um bom sucesso de audiência, além de programas interessantes, mas ela se enquadrava mais ou menos numa emissora de porte médio, apesar de ter lançado o famosíssimo apresentador, e depois empresário de TV, Sílvio Santos, no distante ano de 1961.

Mas na TV Paulista, houve um programa chamado Móbile, que, se feito hoje, mal conseguiria entrar sequer na TV Cultura, apesar de seu idealizador, Fernando Faro, ter criado programas na emissora (como o musical Ensaio). O programa alternava entrevistas, clipes, curtas metragens e até performances de dança e poesia, dentro de uma edição de imagens numa estética bastante vanguardista. E isso era em 1962!

E o que vemos hoje? Até a TV paga começa a entrar em decadência, e mesmo ideias comezinhas de TV de qualidade, que facilmente entrariam na TV Record há 50 anos atrás, hoje só entram, com muito sacrifício, numa TV educativa.

Pois o que se vê agora, quando muito, é a banalização de fórmulas pós-modernas, como programas de jornalistas maluquetes entrevistando a esmo qualquer transeunte ou alguém em um estabelecimento qualquer. Isso quando há algum programa roteirizado. Mas o que se vê hoje é a multiplicação de reality shows, não só no Brasil mas também no exterior.

Os "riélites" estrangeiros não deixam de ser chatos, embora no Brasil a coisa é bem pior. Aqui temos uma câmera mostrando pessoas no ócio ou fazendo qualquer frivolidade ou baixaria. Mas no exterior aqueles simulacros de documentários são uma coisa terrível!

São sempre cenas de alguém fazendo alguma coisa sem muita importância. E aí há o depoimento dessa mesma pessoa, falando coisas também sem muita importância. Volta a cena e vai a pessoa pagando alguma pequena gafe e rindo para a câmera. Muito entediante.

Mas o pior é que as melhores atrações, que já estão se tornando raras na TV paga, tornam-se agora privativas de pacotes avançados de assinatura. Se você comprar um pacote básico, não terá filmes de qualidade nem seriados como Parker Lewis Can't Lose, um seriado dos anos 90 que adoro bastante.

Em compensação, temos, nos pacotes básicos, grandes desperdícios que na prática significam dinheiro jogado fora. Um exemplo bastante ilustrativo são os leilões de gado dos canais rurais, que sempre estão abertos nos pacotes mais básicos da TV paga, liberados até mesmo para as áreas urbanas (?!).

É dinheiro jogado nas janelas das operadoras de TV paga. Quem é que assiste a uma atração dessas, feita apenas para fazendeiros? Quem é que vai comprar gado vivendo uma vida de classe média numa zona urbana? Quem é que tem dinheiro para comprar um boi desses? E que interesse tem em ver pessoas insignificantes vencendo um leilão?

O ideal era que os canais rurais fossem bloqueados para os assinantes de pacotes básicos,  sendo liberados apenas a uma escala maior dos pacotes avançados. Isso porque a programação desses canais só interessa mesmo a um público rico e conservador, que se identifique com o universo das elites rurais dos grandes proprietários de terras.

Será que somos induzidos a idolatrar pessoas insignificantes, sejam sub-famosos de "riélites" estrangeiros, sejam os "astros" de um Big Brother Brasil, sejam os fazendeiros que nem conhecemos direito que adquirem gado bovino e similares? Ou então os tediosos programas de vendas de joias, que acontecem de madrugada?

Além do mais, a TV paga sofreu uma invasão de filmes dublados, de comerciais longos, de programas popularescos, de música brega-popularesca que o Multishow tenta projetar como se fosse "cult", principalmente os chatíssimos cantores de axé-music, "sertanejo" e "pagode romântico" que fazem sucesso fácil nas rádios FM mais comerciais.

Enquanto isso, não podemos crescer muito culturalmente. É claro que dá para ver um Big Bang Theory, uma música instrumental num canal público ou um filme brasileiro antigo na TV paga, e a liberação do Canal Brasil para o pacote básico melhorou bastante. Mas ainda é pouco para evitar que zapeemos a televisão de forma insistente, nesse semi-árido de programação que se tornou a TV paga.

Francamente, os estragos que a "gatonet" de milicianos fizeram foram muito mais graves do que a simples ação criminal desses grupos em si. Acabaram também fazendo nivelar por baixo a TV por assinatura, da mesma forma que o AI-5 fez declinar a TV aberta brasileira.

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