domingo, 27 de janeiro de 2013

AS HESITAÇÕES DA UOL 89 FM

TOMA QUE O FILHO É SEU - A UOL 89 FM evita tocar Restart, mas o grupo surgiu a partir de uma abordagem caricata que a 89 FM fazia da divulgação do punk rock.

Não existe coisa mais revoltante do que uma dita "rádio rock" que não ajuda nem deixa de atrapalhar (o popular "não f... nem sai de cima").

Do final dos anos 80 para cá, vieram rádios comerciais ditas "roqueiras" que irritavam até budista por conta de sua programação frouxa e oblíqua. Eram rádios que não podiam ser abertamente comerciais porque se recusavam a tocar pop e não eram rigorosamente roqueiras porque não tinham a menor competência para o rock.

Já ouvi, em Salvador, a rádio 96 FM (ou Aratu 96 FM) e era horrível. Em 1990, a rádio era uma gororoba que tinha até programa de pop dançante e outro de música romântica. Ia de um único hit de Jesus & Mary Chain aos sucessos dos New Kids On The Block (?!), tinha locutores com aquela dicção enjoada de rádio pop, iguaizinhos aos que as rádios de axé-music e brega já tinham. Ah, e eles falavam em cima das músicas!

Em 1992, os equívocos só reduziram um pouco, com uma ênfase no grunge, no Rock Brasil e em alguns sucessos roqueiros ou coisa parecida e algum rock pesado. Já havia o plano de rede da paulista 89 FM e mesmo rádios que não eram profissionalmente vinculadas a ela seguiam sua lógica de programação.

Infelizmente os problemas financeiros da Fluminense FM, nos anos 80, não fizeram que seu formato de rádio de rock de 1982-1985 se projetasse nacionalmente. Em compensação, deturpações primeiro difundidas pelas rádios pop Cidade e Transamérica e depois pela 89 FM de São Paulo acabaram prevalecendo como "paradigmas de rádios de rock".

E aí veio aquela fórmula, definida da seguinte forma:

1) Repertório restrito aos sucessos ditos "roqueiros", geralmente entre os medalhões mais conhecidos do rock, aceitos por um público não roqueiro, e nomes bem comerciais que deturpam o rock ou então fazem um arremedo de rock bastante inexpressivo.

2) Método de programação igualzinho ao das rádios "só sucesso": repertório repetitivo, limitação de divulgação de intérpretes aos chamados "grandes sucessos" ou "músicas de trabalho" e alguns programas que apenas "alimentam" esse cardápio musical, mesmo tocando algo mais "alternativo".

3) Locução de estilo pop convencional, com ênfase naquela figura do "locutor gostosão", com voz de animador de gincanas infantis, que geralmente foi o "astro maior" da programação radiofônica. A chamada programação normal também conta com outros locutores pop, menos exaltados que o "gostosão" mas mesmo assim com a mesma dicção de animador de gincanas infantis.

Há locutores com dicção própria para rádios de rock, mas apenas restritos a alguns programas específicos, geralmente transmitidos no final da noite. Geralmente são jornalistas, produtores ou músicos convidados para apresentar programas específicos, como se vê no caso do rock pesado ou sobre surf ou rock "alternativo" (dentro da ótica da rádio), que não têm a dicção "profissional" dos locutores de FM.


Até 1995, havia uma maior "flexibilidade" na programação dessas rádios comerciais, embora naquela linha "só sucesso". Mas muitos se iludiram com as promessas de que tais rádios comerciais pudessem ser "mais alternativas" ou aproximassem seu perfil das rádios de rock autênticas, porque a promessa, além de tendenciosa, não era de todo cumprida e era sempre um caminho lento de se seguir.

Afinal, o rapaz de 16 anos que ouvia uma rádio dessas esperando ser uma rádio de rock decente, só conseguiria realizar sua expectativa, e olhe lá, quando se tornaria um pai de um outro garoto de 16 anos. Era a lógica Ernesto Geisel de "mudança lenta e gradual". A lógica da rádio era: "me dê uns tais pontos do Ibope que eu melhoro a 'rádio rock'". E as melhoras sempre acabavam sendo poucas e frágeis.

RESTART É UM SUB-PRODUTO DA ATUAL UOL 89 FM

De 1995 para cá, esse formato diluído de "rádio rock" ficou preso a uma conduta radicalizada na imitação pura e simples do perfil Jovem Pan 2. A 89 FM e sua congênere carioca, a Rádio Cidade, usaram e abusaram dessa fórmula que acabaram sendo duramente criticadas até pela imprensa.

Nem mesmo a feroz trolagem dos adeptos das duas rádios, nos fóruns de Internet, com todas suas ofensas e protestos irritados, conseguiu resolver a crise das duas rádios. Só piorou cada vez mais. E as duas rádios recuaram do perfil rock, pressionados pelo amplo questionamento motivado pela Internet e pelo fato de que rádios estrangeiras também passaram a ser ouvidas no Brasil.

Recentemente, a 89 FM voltou ao rótulo de "rádio rock", pelo mesmo motivo de seu surgimento: o Rock In Rio (que terá edição neste ano). A dita "rádio rock", apesar de toda a campanha publicitária conhecida, voltou apenas como alimentadora de um mercado de bandas estrangeiras que não significa, em si, uma recuperação da cultura rock como "nos velhos tempos".

Afinal, a rádio voltou com todos os seus defeitos e quem faz agora o tipo indigesto do "locutor gostosão", com voz de animador de gincanas infantis, é o próprio coordenador da rádio, José Carlos Godas, o Tatola, que, pasmem, havia sido cantor de uma suposta banda punk, o Não Religião, uma fajuta imitação da Plebe Rude e Ira! com pretensões de parecer "mais indie".

A rádio apenas eliminou uns poucos defeitos de 2005, quando a fórmula "Jovem Pan 2 com guitarras" parecia rumar para "SBT com guitarras". Mas os erros principais continuam, que é o repertório "só sucesso", a locução "mauriçola-tatola", o corte brusco das músicas no final, através de vinhetas ou locução, e até mesmo programas como "Hora dos Perdidos" não deixaram de ter o besteirol que "matou" a rádio antes.

E o fato da UOL 89 FM evitar tocar Restart não procede, afinal o grupo é uma tradução até as últimas consequências do punk domesticado que a 89 FM resolveu investir a partir de 1994. O próprio Não Religião está para o Restart assim como Chitãozinho & Xororó está para João Lucas & Marcelo (aquela duplinha do "eu quero tchu, eu quero tchá").

No outro extremo, o fato da rádio evitar tocar muito rock antigo contradiz sua pretensão de ser uma rádio de "rock em geral", como é o seu marketing. Se a rádio assumisse uma postura de tocar só "rock novinho", faria sentido, mas sua imagem publicitária é de uma rádio que diz "tocar todas as tendências do rock".

Portanto, no meu parecer, teria sido melhor que a 89 FM nunca tivesse voltado. A rádio viciou muito seus fãs, e o radialismo rock corre o risco de virar uma cracolândia musical. Eu, que aos 11 anos conheci uma rádio de rock de verdade, nunca poderei ouvir rádios assim depois dos 40 anos.

Não é por eu me achar velho, não, mas é uma questão de coerência: afinal, a UOL 89 FM mais parece rádio de "pestinha". Portanto, a título de rádio de rock continuo não levando a 89 FM muito a sério e se eu tivesse uma banda de rock eu nunca iria divulgar minhas músicas nessa rádio fajuta.

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