sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ANDRÉ SETARO CRITICA A MISÉRIA CULTURAL NA BAHIA


O crítico de cinema André Setaro, que foi meu professor na UFBA, tem um excelente blogue, chamado Setaro's Blog, no qual escreve sobre cinema e outros assuntos. Recentemente, ele reproduziu um texto que havia feito anos atrás para o Terra Magazine, expressando sua preocupação com o cenário cultural da Bahia.

Sabe-se que a Bahia está numa situação crítica que já nem se pode mais falar em mediocridade cultural, mas na imbecilização cultural mais aberta. Enquanto a axé-music mantém seu império a ferro e a fogo, a cultura baiana sofre seus infortúnios. A cantora Mariene de Castro já se "exilou" no Rio de Janeiro e, recentemente, o Solar Boa Vista, localizado no Engenho Velho de Brotas, sofreu um sério incêndio.

O rádio FM de Salvador, de PÉSSIMA qualidade, virou um acampamento para os chatíssimos "programas de locutor" que não passam de "acampamentos ideológicos" de pseudo-jornalistas e pseudo-radialistas politiqueiros e tendenciosos, apoiados também por jornadas esportivas e transmissões de futebol que mais parecem vindas de AMs perdidas no começo dos anos 70, de tão caquéticas.

Fora isso, temos programações musicais que não vão além do "irrit-pareide" mais comezinho, isso quando não é o lero-lero brega-popularesco em que se privilegia a tirania escravista da axé-music e seus derivados, como o "pagodão" e o "arrocha", que pegam pesado nas baixarias e na glamourização da pobreza e da idiotização social.

Há mais de 55 anos, isso não era assim. A Bahia respirava cultura, sobretudo a partir das mentes futuristas de gente como o reitor da então UBa (Universidade da Bahia, sem o atual nome "Federal"), Edgard Santos, e o crítico de cinema Walter da Silveira, sem falar do impacto causado por Dorival Caymmi bem antes. Dorival já era um gigante da música na Bahia de 1956.

Edgard Santos chamou vários artistas estrangeiros para ensinar na UBa e dialogar com as expressões locais. Foi aí que Tom Zé entrou em contato com a arte concreta, através do professor Hans Joachim Koellreuter. E vários nomes brilhantes da cultura baiana haviam surgido por estímulo a esse cenário cultural fértil.

Glauber Rocha, um repórter policial do Jornal da Bahia (brilhante periódico destruído nos anos 90 pelo Maluf baiano, Mário Kertèsz), havia aperfeiçoado seus conhecimentos sobre cinema como frequentador dos cine-clubes de Walter da Silveira, cujos debates envergonhariam, hoje, os espectadores que pensam que o TeleCine Cult e sua prioridade no "cinemão" de Hollywood é um canal de "cinema alternativo".

Foi aí que Glauber deslanchou e virou cineasta, e por um incidente ele assumiu a direção de Barravento, filme em andamento desde 1958 (época de sua elaboração como argumento) e que foi finalizado em 1961. Um desentendimento com o diretor original, Luís Paulino dos Santos, com a produção do filme fez a direção cair nas mãos de Glauber, inicialmente apenas um de seus produtores.

Várias expressões do teatro, da música, do cinema, da literatura e das artes plásticas, com seus nomes bastante conhecidos nacionalmente, floresceram nessa época, de 1955 a 1964, e quem veio antes dessa época se consagrou. Consta-se que Dorival Caymmi foi um dos patronos da Bossa Nova. E João Gilberto era seu discípulo assumido.

O movimento da Tropicália, em 1967, apenas foi o auge dessa fase produtiva, pois, embora surgida mais tarde, já depois de 1964 - quando a ditadura militar fez muita gente deixar a Bahia, porque o coronelismo local apoiou o golpe e o "governo revolucionário" que se instalou no país - , bebeu nas fontes da Bahia fervilhante daqueles tempos.

No seu artigo, André Setaro critica até mesmo os pseudo-intelectuais e a crítica cultural que elogia a mediocridade cultural e suas "personalidades": "Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias".

É um dedo nas feridas dos jornalistas que apoiam o jabaculê da axé-music ou a mesmice do "irrit-pareide" que alguns bitolados pensam até ser "vanguarda" ou "alternativo", porque nunca ouviram Beyoncé ou Guns N'Roses serem tocados nas rádios "só sucesso". Imagine se a UOL 89 FM entrasse em Salvador. Já se teve experiência parecida, a desastrosa Aratu 96 FM, de triste lembrança para o radialismo rock.

Mas isso também pode doer nas feridas dos tais pseudo-intelectuais, como Roberto Albergaria e Milton Moura - este com seu habitual chapéu, como um Reinaldo Azevedo com dendê - , dotados dos piores valores elitistas e machistas e defendendo a degradação cultural de Salvador sob o pretexto de que "é isso que o povo sabe fazer e gosta".

Também não me esqueço da "urubologia" da jornalista Malu Fontes, que num artigo do jornal A Tarde,  esnobava as reivindicações de melhorias culturais do povo pobre, achando que o arrocha, ritmo calcado no brega dos anos 70, é a "verdadeira cultura" do Recôncavo. A autora, num julgamento bastante elitista, tentou argumentar, sobre o arrocha, que "é isso que o povo sabe fazer".

A mediocridade cultural, portanto, não é apenas defendida pelos pretensos artistas e pelas pretensas celebridades, mas também pelos jornalistas e intelectuais que apoiam esse processo degradativo. A crise cultural não possui só seus agentes ativos, como seus "artistas" e "famosos", mas também seus agentes passivos que são intelectuais e jornalistas complacentes com essa decadência.

Daí a sábia crítica de André Setaro - a exemplo de outro baiano que foi meu professor, o poeta Ruy Espinheira Filho - contra a mediocrização cultural que faz Salvador virar uma terra de ninguém e que faz expulsar da capital baiana os próprios valores da terra.

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