quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O PROBLEMA DO BREGA-POPULARESCO É A FALTA DE OPÇÕES


A princípio, o brega-popularesco nunca me incomodou. Desde quando eu era pequeno, eu nunca me identifiquei com a breguice cultural que começou a crescer durante a ditadura militar.

Já chorei, bebezinho, sempre quando o rádio tocava "Impossível Acreditar que Perdi Você", de Márcio Greyck, um sucesso logo do meu ano de nascimento, 1971, mas que depois foi regravada por Fábio Jr. e está até na novela Cheias de Charme (Rede Globo) na versão do personagem Fabian.

Eu sempre achei o brega uma piada. Com boa vontade, dava para rir. Aos três anos, eu já achava "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Waldick Soriano, ridícula. Nunca a levei a sério.

E quem pensasse que eu era preconceituoso, no sentido de não saber o que era brega, é bom deixar claro que conheci o brega porque vi televisão na minha infância. Nahim, Gretchen, Ângelo Máximo, Wando, Odair José, Benito di Paula, além de coisas assumidamente cômicas, como Sidney Magal e Reginaldo Rossi. E tinha os já falecidos Evaldo Braga, Carlos Alexandre e Mauro Celso (este de sucessos como "Farofa-fá" e "Bilu Teteia", que eram os equivalentes aos "tchu, tchás" de hoje).

Claro que minha praia sempre foi, é e será outra. Preferia a boa MPB dos anos 60 e 70, e no rádio da minha infância pude ouvir "Flor de Liz", de Djavan, "Refazenda", de Gilberto Gil, o sucesso "Meu Limão, Meu Limoeiro", de Wilson Simonal, "Como Nossos Pais", a música de Belchior na gravação de Elis Regina, e coisas vibrantes como "Mestre Jonas", de Zé Rodrix.

Até curtia uma boa MPB, mas a deixei de lado em prol do rock alternativo, porque nos anos 80 MPB era monopolizada por canções de amor melosas e monótonas que, para um adolescente que via as mulheres desejadas terem outros namorados, nada diziam. E não pense que o brega de então seguiu outro caminho, como tanto alardeiam os intelectuais, que a coisa era exatamente a mesma. Guilherme Arantes criava umas baladas, vinha Gilliard, José Augusto e companhia copiando a fórmula feita.

Naqueles tempos dava para escapar do brega. Daí que o brega nunca incomodou muito. Ele passou a incomodar dos dez anos para cá, quando a choradeira intelectual defendia o brega não como ele realmente era, mas como "preciosidades da MPB", na tentativa de levar a música cafona a sério demais.

E entendia-se música cafona até mesmo os arremedos de cultura popular que apareceram dos anos 70 em diante, como a lambada, a axé-music e o "funk carioca". Sem falar do tal breganejo. E tudo isso até tinha seus espaços, mas não incomodava o rock, nem a MPB, nem qualquer outra expressão artística.

Só que a choradeira intelectual de 2002 para cá empurrou o brega-popularesco para cenários, ambientes e redutos que não lhe eram próprios. Na boa, o brega já tinha espaços demais para divulgação e sucesso. Mas de repente, ele invadiu os espaços da MPB e do rock, a pretexto de "diversidade cultural", indo, na vedade, contra essa diversidade.

Isso é que ficou preocupante. Até para arrumar uma pretendente que não curta brega-popularesco ficou mais difícil. E enquanto músicos de MPB e Rock Brasil não tinham mais seus próprios espaços, a ponto de sofrerem dificuldades que culminam no caso da miséria do músico Renato Rocha, ex-Legião Urbana, o brega-popularesco que já tinha suas casas "mega-shows" e quase todos os espaços populares, passou a invadir espaços alheios.

Chega-se ao ponto de ver músicos de MPB e de Rock Brasil "mendigarem" espaço duetando com Zezé di Camargo & Luciano, Mr. Catra e Banda Calypso, ou gravando covers de MC Leozinho, Calcinha Preta e Odair José, tudo para não cair no ostracismo.

Isso é que tornou o brega-popularesco mais repugnante. Sua ganância de invadir espaços alheios como se isso fosse "fim dos preconceitos". Não é. O brega é que sempre foi preconceituoso contra a MPB, vista como "música de doutor", e quem apoia o brega é que não sabe verificar as coisas. Preconceituosamente, "rompem-se preconceitos" para manter o status quo do entretenmento popularesco.

Por isso, acabamos sofrendo uma falta de opções. Antes, havia o brega, mas ele não era hegemônico, ele tinha seus espaços e as outras tendências tinham os seus. Isso é que era, de certa forma, uma diversidade. Mas hoje praticamente não temos opções. Há brega até nos redutos e festas que antes rolavam MPB e Rock Brasil.

Daí a bronca dos críticos menos tendenciosos como Ruy Castro, Mauro Dias e Dioclécio Luz. Hoje não há opções fora da pasmaceira brega-popularesca. Que, por sinal, gerou cantores e conjuntos demais, todos eles medíocres e sem criatividade. E nossa cultura morre à mercê desse hit-parade à brasileira, megalomaníaco e prepotente, que impede que as pessoas comuns tenham outras escolhas. Isso aborrece.

QUANDO ELEGÂNCIA DEMAIS GERA DESELEGÂNCIA


Elegância requer contexto. De que adianta caprichar em paradigmas de elegância de forma obsessiva, se, ao desrespeitar contextos e situações específicas, essa elegância se converte em deselegância e o chique vira brega?

François Henri-Pinault, mega-empresário francês que, pasmem, é dono até de marca de tênis - calçado que parece só aprender a usar nas situações de lazer nos últimos meses - é um exemplo dessa elegância fora de contexto.

Da mesma forma que, no âmbito da sensualidade feminina, vimos a ex-Big Brother Brasil Maíra Cardi se comportar, num aeroporto do Rio de Janeiro, como se estivesse num vestuário feminino de uma escola de ensino médio - e a ex-BBB faz 29 anos hoje (desculpem, pesquisei o Wikipedia e a data é hoje mesmo, a culpa não é minha e nem sou fã dela) - o milionário francês se comporta em situações de passeio como se estivesse em algum intervalo de almoço no seu trabalho empresarial.

Sim, meus amigos, a foto em questão indica, pelo menos é o que diz o sítio Just Jared, que François, aqui com a esposa Salma Hayek e a filha Valentina (que não aparece na foto), está apenas a passeio na cidade italiana de Veneza.

E mais. Se trata de um dia de verão, embora num clima ameno e de um céu em nuvens brancas, sem chuva. Ver que François Henri-Pinault, que só entrou nos 50 anos este ano, mas adota um padrão de vestuário de um homem bem mais velho, se veste assim para um simples passeio, é algo que não dá para entender. Sobretudo tendo a atriz mexicana, jovial nos seus 46 anos (completos ontem), como esposa.

Eu, por exemplo, numa ocasião destas, usaria uma camiseta e uma bermuda, com meia esporte e tênis. Dá para ser elegante assim. Mas mousieur Pinault, forçando a barra na elegância - tal qual, no Brasil, as "boazudas" forçam a barra na sensualidade - , prefere usar um terno e sapatos de verniz que, numa reunião de negócios, caem muito bem, mas, num passeio de rua, é péssimo e sugere desconforto.

Sabe o que o empresário quis dizer para a sociedade com essa roupa? Que ele acabou de sair, às pressas, de seu trabalho de negócios, voltou para casa só para tirar a gravata e colocar o perfume, e depois foi sair com a família.

Evidentemente não é assim que ocorre, mas simbolicamente, François Henri-Pinault quis dizer, para as pessoas em sua volta, que gosta mesmo de não se sentir à vontade e não passa de um escravo das rígidas regras de etiqueta que só estavam em alta até por volta de 1975.

E pensar que tem muito mega empresário de Internet que fez o oposto disso, fazendo negócios até com trajes de skatista. Quem te viu, quem te vê.