segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

QUANDO CASAIS LIVRES SE SEPARAM E CASAIS NÃO-LIVRES FICAM JUNTOS


HEIDI KLUM E SEAL, VERSUS FRANÇOIS-HENRY PINAULT E SALMA HAYEK - Por incrível que pareça, havia mais cumplicidade no casal recém-separado.

Certamente, os valores mudam e são muito raros os casais que possuem relações duradouras por amor, nos últimos anos. Por outro lado, há, recentemente, relações que duram mais tempo porque são excelentes contratos nupciais, além das elites zelarem muito pelos filhos e as mulheres terem sua independência financeira patrocinada por algum maridão sisudo que mal consegue enxergar o mundo fora da cegueira quase autista de seus escritórios e consultórios.

Na semana passada, foi anunciada a separação do admirável casal Heidi Klum, modelo, e Seal, cantor, músico e compositor. Os dois pareciam viver em grande cumplicidade, o que é verdade, mas de repente a relação acabou. A belíssima modelo alemã e o simpático e talentoso músico inglês já estão preparando os documentos do divórcio.

Enquanto isso, a atriz Salma Hayek, que aparentemente aparecia sozinha durante os eventos do filme de animação O Gato de Botas - de cujo elenco de dublagem a atriz fez parte - incluindo o Brasil, reapareceu com o marido, o mega-empresário François-Henry Pinault (ou Pinaud, ou Pinaut, o que quer que se escreva), pai de sua filha Valentina.

A "estável" relação quase não ocorreu por conta de uma aventura amorosa do sisudo magnata, surpreendentemente mais velho do que seus 50 anos poderiam sugerir. É a mesma idade, por exemplo, do cantor Nazi, ex-vocalista da banda de rock Ira!.

A aparência envelhecida e o comportamento sisudo do empresário francês - cujo vestuário e a obsessão de usar desconfortáveis sapatos de verniz destoa de sua geração - contrastam tanto com a jovialidade de sua esposa que a inexpressiva diferença de idade dele sobre ela, de quatro anos, não o impede que ele seja chamado de sugar daddy ("papa-anjo", numa tradução de sentido), até porque Salma parece bem mais jovem do que é.

Relações assim, por incrível que pareça, perduram menos pela cumplicidade do que pela dúvida de como serão as vidas de solteiros dos cônjuges em questão. Vitrines vivas da alta sociedade, muitos casais de celebridades e maridos profissionais liberais, executivos e empresários nem de longe vivem em cumplicidade, daí a "solteirice" de muitas dessas esposas, que viajam para cidades como Nova York sozinhas, e passam boa parte do tempo falando com as amigas.

O fim dessas relações, muitas vezes, precisa ser feito com muito planejamento. Muitas vezes, o divórcio só é divulgado quando seu processo judicial é finalizado. Os casais ricos que se separam consideram o fim daquela rotina de contatos influentes com figuras importantes da hi-so, do possível trauma de filhos, da decepção de vizinhos que viam no "casal bacana" um "modelo" de "casal feliz".

Mas, por incrível que pareça, o casamento de Salma Hayek não é um casamento livre e espontâneo, mas condicionado pelas circunstâncias de ordem sócio-econômica. O de Heidi Klum é que, como um casamento motivado pela livre vontade do amor, acaba quando a missão amorosa chega ao seu fim.

O que não é o caso de relações por conveniência que, se rompidas, poderão resultar no "desamparo" dos cônjuges separados. Imagine a projeção empresarial de monsieur Pinault sem a visibilidade obtida às custas da bela Salma. Imagine como seria a projeção dela sem o poder sócio-econômico do marido.

Por isso Salma Hayek, se por ventura se separar do marido - talvez seja possível que aconteça em breve, pelo caráter superficial da relação e pelas claras diferenças dos cônjuges em questão - , terá que pensar muito sobre como seria a vida sem os privilégios da atual relação.

Apesar de ser uma excelente atriz e empenhada produtora, além de personalidade influente, o máximo que Salma Hayek terá que fazer é "segurar" alguns anos com o empresário francês porque, para os projetos pessoais dela, voltar à solteirice hoje seria entregar-se à própria sorte, e lidar com certos incômodos que, talvez daqui a cinco anos, ela estaria mais preparada para sofrer.

Já Heidi Klum não tem a temer. Seu casamento foi por amor, e o desgaste da relação, por diferenças pessoais reconhecidas depois, pode até ser doloroso, mas não traz as complicações sociais de relações em que interesses que envolvem visibilidade, contatos influentes, fama, projetos empresariais etc.

Por isso a relação de Heidi Klum com Seal foi uma relação de amor admirável que apenas encontrou seu fim. Já a relação de Salma Hayek com François-Henry Pinault é um verdadeiro consórcio empresarial, com as condições complexas que este tipo de relação exige.

"FORA DO EIXO" E A "PANELINHA" DE INTELECTUAIS E PRODUTORES



Uma "panelinha" de intelectuais, produtores, acadêmicos e ativistas "alternativos" pode criar sérios problemas para o cenário alternativo e independente nacional.

O "coletivo" Fora do Eixo - conhecido pela sigla FdE - , à primeira vista, parece um louvável projeto de aglutinação de vários festivais culturais, de movimentos sociais e de críticos e intelectuais considerados influentes. No entanto, a entidade, que pretende "representar" a cultura independente do Brasil, corre o risco de sucumbir ao corporativismo da "panelinha" intelectual envolvida.

Entre os que apoiam a entidade, destacam-se críticos musicais que fizeram parte da fase sombria da revista Bizz, nos anos 90. Dois deles foram notórios seguidores da linha de André Forastieri, Camilo Rocha (ligado à dance music) e Carlos Eduardo Miranda (foto), conhecido produtor musical, jornalista e músico que havia feito parte do júri do programa Ídolos, do SBT.

A geração de Forastieri, Rocha e Miranda estabeleceu as condições para uma "cultura rock" dos anos 90 que culminou, nos últimos anos, no cenário "emo" de grupos como Restart, Fresno e NX Zero.

Junto a eles, está o jornalista Pedro Alexandre Sanches, criado pelo "Projeto Folha" da Folha de São Paulo, o mesmo duramente criticado por José Arbex Jr., um dos editores de Caros Amigos que, talvez pela pressão do mercado distribuidor (ligado a entidades conservadoras, em parte o próprio Grupo Abril), contratou Sanches para escrever uma coluna lá.

Pedro Sanches é conhecido por sua visão complacente com o mercado brega-popularesco. Possui um discurso engenhoso que continua lembrando o dos "calunistas" da velha mídia, se estivessem falando sobre cultura popular. É um dos defensores de ídolos brega-popularescos à beira do ostracismo, diante da competitividade que existe no setor.

Junta-se um Carlos Eduardo Miranda, que criou um mercado pseudo-independente sustentado por uma gravadora multinacional, com um Pedro Alexandre Sanches que sutilmente insere conceitos neoliberais nas suas abordagens sobre a "cultura popular", para vermos o que será uma ideia como o Coletivo Fora do Eixo através de suas influências de de outros que compactuam com o mercado com o qual dizem romper.

A vocação "anti-mídia" do último congresso Fora do Eixo, realizado em São Paulo, em dezembro passado, é contradita pela presença da cantora Gaby Amarantos, principal ícone do tecnobrega paraense. Afinal, a cantora foi cortejada por quase toda a mídia, inclusive a revista Veja, famosa por condenar os movimentos sociais e só elogiar magnatas, e recentemente esteve na Rede Globo participando de um especial com Zezé di Camargo & Luciano.

Se a geração de jornalistas "alternativos" em torno de Carlos Eduardo Miranda e André Forastieri - que, depois de "arrasarem" a Bizz, fizeram a "genérica" General, de curta duração - , defenderam uma "cultura rock" asséptica, um "alternativo" limpinho, sem consciência crítica e de relativa criatividade, da qual são exemplos os lamentáveis Virgulóides, Baba Cósmica, Ostheobaldo e similares, o FdE, nas mãos deles, poderá fazer o mesmo, agora no âmbito mais ambicioso, o da Música Popular Brasileira.

Afinal, o cenário "roqueiro" lançado por veículos como a revista Trip e a rádio 89 FM abriram o caminho para o fenômeno Mamonas Assassinas, cuja tragédia soou como uma "caixa de pandora" abrindo, para o público juvenil, referenciais diversos que incluem dos grupos emo aos "sertanejos" e "pagodeiros", passando pelo Pânico na TV e Big Brother Brasil.

Portanto, uma geração que influiu no inconsciente coletivo juvenil tirando-lhe a consciência crítica e criativa, deixando apenas as aparências formais de "rebeldia" e "modernidade", como falar gírias, vestir-se de forma arrojada ou mesmo adotar posturas "progressistas" que existem até no Instituto Millenium.

Em seu sítio, o FdE aparentemente privilegia a cultura alternativa. Mas sinaliza futuros apoios a eventos de "funk carioca" e tecnobrega. Como inclui vários Estados brasileiros, isso significa priorizar o apoio a brega-popularescos menos projetados no apertado mainstream "popular".

O temor é que artistas realmente alternativos sejam preteridos em razão de "artistas injustiçados" como Gaby Amarantos, Leandro Lehart, Benito di Paula, É O Tchan e Luiz Caldas. O ex-Sheik Tosado China já reclamou da discriminação que muitos grupos independentes sofrem, enquanto o Fora do Eixo faz seu nome e seu marketing para obter recursos públicos e privados.

China já foi espinafrado por Pedro Sanches, no artigo deste publicado na revista Fórum deste mês. Arrogante, Sanches teria descrito China como um "fascista", como é de praxe do badalado jornalista, discípulo enrustido de Otávio Frias Filho. Para Sanches, "senso crítico" é sinônimo de "preconceito", "moralismo" e "higienismo".

Não será surpresa se, dentro de um ano, Michel Teló apareça cortejado pelo FdE abraçado a um cantor ciber-performático. O FdE possui ideais pós-tropicalistas, dentro da visão caetânica, dominante, sobre "cultura de massa". O caso cabe uma análise mais cautelosa. O underground brasileiro pode virar refém do mercado, agora de forma mais intensa e articulada.