sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

VALE TUDO EM TORNO DO "POPULAR"?

A DEGRADAÇÃO SOCIAL TAMBÉM É UM "PATRIMÔNIO CULTURAL"?


Fomos tapeados, durante muitos anos, por uma intelectualidade que exaltava o "popular" nas expressões do pitoresco, do grotesco, do piegas, do cafona e do retrógrado quando associadas às classes populares. Fechamos nossos ouvidos para os críticos da mediocridade cultural, no final dos anos 90, quando, pouco depois, fomos surpreendidos por uma campanha inédita em prol dessa mediocridade.

Éramos acusados de "preconceituosos", "elitistas", "higienistas", de promover o "apartheid cultural". Tínhamos que aceitar tudo que era aberrante, grotesco, piegas e pitoresco nas classes pobres a título de "apreciarmos a 'rica cultura' (sic) das periferias" que "não conseguimos (sic) entender".

Pouco importa se o mendigo embriagado sofre seus dramas pessoais, sobretudo com a pobreza e a falta de perspectivas. Para o intelectual da moda, ovacionado, aplaudido e badalado por plateias lotadas e seguido por milhares de internautas, o mendigo não é um problema social, é um "ícone pop", um "sábio performático", "intuitivo" na sua "livre expressão" da "tragédia humana" (no sentido teatrólogo do termo).

O rótulo "popular" é usado para inocentar qualquer pecado, qualquer aberração que tenha as classes populares como sujeito vivenciador ou contemplador. Qualquer coisa que fosse ideologicamente associada às classes populares, ainda que reduza elas a meras caricaturas e estereótipos preconceituosos, é endeusada pela intelectualidade e pela mídia como algo "divertido" e "saudável".

É o "bom" preconceito da intelectualidade "sem preconceitos". O povo é "melhor" naquilo que tem de ruim. A ignorância, a miséria e a degradação social deixam de serem considerados problemas pelo discurso intelectual vigente e passam a expressar a "admirável pureza" atribuída às periferias.

Qualquer um que propusesse alguma solução firme para dar fim a esses problemas é considerado "higienista". Isso quando se fala em combater a mediocrização cultural, a alienação, o grotesco, a pornografia e tudo o mais. Se deixarmos, a intelectualidade festiva condenaria até mesmo a luta contra o analfabetismo.

A palavra "popular" virou um pretexto para a permissividade sem qualquer critério. Para a vulgaridade das musas "populares" e suas gafes, para a breguice artística, para a exploração do pitoresco, para a banalização do sexo e da violência, para o endeusamento de pseudo-celebridades sem valor algum.

A intelectualidade dá um jeitinho para justificar "com categoria" certas aberrações sociais. Principalmente aqueles que exaltam a música brega e o "funk carioca". E que tentam, dentro de uma retórica engenhosa, promover a degradação social das classes pobres como algo "positivo" e "inquestionável". Vejamos:

1) PORNOGRAFIA E PEDOFILIA - Se o "funk carioca", por exemplo, está muito pornográfico e nos seus eventos, os ditos "bailes funk", há muita prática de pedofilia, a intelectualidade dá logo um jeitinho de argumentar que isso é "liberdade sexual", usando como pretexto a Contracultura (como se pudesse haver ali um novo Woodstock), ou a "iniciação sexual da juventude pobre".

2) "PROIBIDÕES" - Se as letras dos "proibidões" do "funk carioca" exaltam a criminalidade, então a intelectualidade tenta, sutilmente, dizer que isso é um "retrato nu e cru da dura realidade do subúrbio". Qualquer coisa, é só acusar os críticos dessa "vertente" funqueira de "moralistas" ou "politicamente corretos".

3) ALCOOLISMO - O que é um drama social para quem entende os problemas reais da nossa sociedade, o alcoolismo é visto pela intelectualidade festiva que defende a breguice cultural como um "saudável divertimento das classes pobres". Os velhos bêbados se tornam "admiráveis ícones pop", desculpa para permitir as risadas jocosas da intelectualidade (que também toma "umas"). Os dramas sociais só são reconhecidos quando viram letras tragicômicas do cancioneiro cafona.

4) DEGRADAÇÃO SOCIAL - A degradação social, seja o apego dos pobres a valores morais retrógrados, ao domínio dos instintos, à apreciação do pitoresco, do grosseiro e do aberrante, é visto pela intelectualidade festiva como "valores modernos que não conseguimos (sic) entender". A intelectualidade condena procedimentos errados quando feitos pelas elites, mas se os pobres fazem o mesmo, tudo bem.

Com isso, a intelectualidade quer que as classes populares permaneçam num processo de "vale tudo". Os pretextos que seus cientistas sociais e jornalistas culturais usam é que assim o povo "tem mais liberdade", permanece na sua "pureza", numa "natural beleza" (?!) que "não nos é possível" (sic) entender.

Isso corrompe a compreensão e mesmo a aceitação do outro. Se seguirmos esse ponto de vista, corremos o risco de nos tornarmos subservientes à forma com que a grande mídia, o mercado e a política conservadora sempre trabalharam a respeito da vida das classes populares, mantendo uma imagem domesticada, caricata e estereotipada do povo pobre.

E essa manobra toda, que permaneceu durante dez anos sem que uma grande crítica a tais procedimentos fosse feita em larga escala, tirou muitos acadêmicos e jornalistas a responsabilidade de investigar qualquer problema social. O problema, para eles, virou uma "solução". E ganharam muito cartaz com suas monografias, documentários, reportagens que, em vez de criticar os problemas, os defendiam.

E assim tivemos problemáticas sem problemas, debates que nunca debatiam, provocações que nunca provocavam, reflexões críticas que desestimulavam qualquer reflexão crítica, falsas polêmicas e microfones abertos onde se podia falar tudo, menos qualquer análise crítica da sociedade.

E toda essa blindagem intelectual só fez com que o povo pobre continuasse pobre, se não economicamente, mas sempre em qualidade de vida.

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