quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

SERVIDOR DO IPHAN NÃO PRECISA ENTENDER DE MATEMÁTICA


O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) está em nova fase, aperfeiçoando seus trabalhos depois que o antropólogo Antônio Augusto Arantes Neto, vindo do Condephaat - instituição ligada ao patrimônio cultural em São Paulo - , assumiu a entidade em 2004.

Era a época em que o IPHAN, depois de promulgado o Decreto-Lei 3551, de 04 de agosto de 2000, que regulamentou o patrimônio cultural imaterial no país, havia até mesmo realizado seu primeiro concurso. Nesse processo todo, Antônio Arantes havia sido destituído por denúncias sobre uso indevido de verbas do Ministério da Cultura e o DEMU (Departamento de Museus e Centros Culturais) se desmembrou do IPHAN, transformando-se no IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), também tutelado pelo MinC.

O sucessor de Arantes, o arquiteto Luiz Fernando de Almeida, ligado ao Programa Monumenta - depois absorvido pelo IPHAN - , já não preside a autarquia há pouco mais de um mês, substituído por sua colega Jurema Machado (foto), a atual titular, também ligada ao Monumenta.

O próprio Ministério da Cultura mudou de titular, saindo a controversa Ana de Hollanda, que foi substituída por Marta Suplicy. Para os leigos, a irmã de Chico Buarque deu lugar à mãe do Supla. Mas isso é um detalhe sem importância. E, controvérsias à parte, Marta mostrou estar disposta ao debate com diversos setores da sociedade, o que anima muito a classe intelectual em torno de sua escolha como ministra da Cultura.

Por isso, o IPHAN deveria repensar os critérios para seu futuro concurso público. Até agora nenhuma notícia a respeito foi divulgada, mas pode ser que o concurso se dê no próximo ano. Por isso, é necessário que se discuta hoje a natureza da próxima seleção para o quadro de servidores, para que o IPHAN não cometa os erros de 2007 e 2009.

SERVIDOR DO IPHAN DEVE ENTENDER DE CULTURA E NÃO DE CÁLCULOS

Os concursos de 2007, especializado para o PAC das Cidades Históricas, e de 2009, para renovação do quadro de servidores, cometeram um sério erro de incluir Matemática e Raciocínio Lógico nas provas de seleção. Um erro injustificável, a não ser pelo velho e obsoleto moralismo acadêmico que valoriza os estudos pela quantidade e dificuldade do saber antigo, e não pela qualidade e prática do saber de hoje.

São erros terríveis, e completamente inúteis diante das novas demandas que o setor da cultura exige para o país. Afinal, o próximo concurso público do IPHAN deveria formar quadros de servidores que entendam de cultura, dentro dos setores apreciados pelo instituto, como Antropologia, História, Arquitetura e Folclore, e não "cobras" em matemática e lógica.

O servidor do IPHAN não precisa calcular, por exemplo, qual o tempo em que dois ônibus com percursos de duração diferente se encontram num mesmo ponto, ou qual é a curva da reta de uma equação. Embora tais conhecimentos agradem ao moralismo estudioso de certas instituições, eles se tornam totalmente sem efeito para o serviço em instituições como o IPHAN.

CONHECIMENTOS DESPERDIÇADOS

O grande problema dessa exigência de Matemática e Raciocínio Lógico é que, quando for aprovado um servidor que "feche" tais questões numa prova, o IPHAN levará gato por lebre, pegando um servidor menos preparado para as necessidades específicas da autarquia.

Afinal, o perfil do servidor, nessas condições, estará mais próximo ao de um advogado ou engenheiro que se torna servidor público, mesmo como um assistente administrativo, do que um servidor integrado ao IPHAN. Isso será bastante problemático, porque será apenas um "atleta de concurso", um "bom fazedor de provas" que encontrará dificuldades de entender espontaneamente a realidade da autarquia.

Os concursos de 2007 e 2009 deram pouca ênfase às especialidades do IPHAN. O de 2007 foi ainda pior, porque a empresa organizadora, a ESAF (Escola de Administração Fazendária), ligada ao Ministério da Fazenda, tem a mania de exigir Matemática em tudo que é concurso.

A mania sugere até mesmo uma piada. Se a ESAF organizasse um concurso de Miss Brasil, teria subvertido todos os critérios de beleza e elegância dessa competição, na medida que só exigiu, para a seleção, mulheres especializadas em Matemática, não necessariamente um atributo da deusa Vênus.

Mas mesmo o concurso de 2009, organizado pela iniciante Universa, também deu pouca ênfase aos assuntos do IPHAN. Mais parecia um concurso para técnico em Contabilidade dos Correios. Isso pode agradar os moralistas do estudo e da "decoreba", mas será um desastre para uma instituição como o IPHAN.

O servidor do IPHAN precisa estar mais preparado para os desafios em torno da Cultura e suas disciplinas associadas, como Antropologia, Sociologia, História e Arquitetura. Sem enrolações do tipo "o primo de João tem o dobro da idade de José que tem o triplo mais um da idade de Luiz, logo quantos anos terá o mais novo quanto o mais velho tiver 45 anos?".

O raciocínio se vai pela análise das informações de pesquisa coletadas por documentos, depoimentos, gravações e outras peças que comporão um inventário de uma manifestação cultural. Já é muita pesquisa, mas que dispensa equações do segundo grau e questões tipo "se isso é aquilo e aquilo não é isto, então isto não é aquilo" que desperdiçam horas de estudo nos dois meses entre a inscrição e a prova.

Portanto, se o IPHAN vive uma nova fase, não tem como repetir os equivocados procedimentos das provas de 2007 e 2009. Não dá para sobrecarregar os estudos dos candidatos com matérias desnecessárias, embora "técnicas". Isso pode até ser bom para a competitividade do concurso em si, mas trará consequências complicadas no cotidiano de trabalho.

Concluindo: quando o IPHAN realizar um novo concurso, é bom que repense seu programa de provas. Que exija apenas o necessário para seu campo de trabalho, evitando a sobrecarga que pode resultar na aprovação de servidores errados, conhecedores profundos de Matemática mas medíocres no trato das especificações da instituição.

Nenhum comentário: