segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ROQUEIROS CARNEIRINHOS ACEITAM A VOLTA DA 89 FM


É preocupante o deslumbramento que gira em torno da dita "rádio rock" 89 FM. A programação que voltou é a mesma programação medíocre que resultou em violentas críticas e no entanto o que vejo na Internet é um deslumbramento cego, ingênuo e infantil, que beira o fanatismo.

Mas que esse deslumbramento se limite a ouvintes em geral, vá lá. Sobretudo para uma juventude que não está profundamente informada das coisas, está bitolada dentro daqueles valores medíocres que eles sempre acreditaram na sua infância feliz nos anos 90, de Alexandre Pires a Ratinho, de É O Tchan a Mamonas Assassinas, de Fernando Collor a Luciano Huck, de Geisy Arruda a Michael Sullivan.

A rádio que voltou é apenas uma reles emissora de hit-parade roqueiro com seus locutores que adotam a linguagem típica de FMs "putz-putz", que não dá para acreditar que até mesmo músicos de Rock Brasil, antes tão respeitáveis, caiam nessa armadilha toda de endeusar a 89 FM.

Fico estarrecido, por exemplo, com o caso do Clemente, o músico dos Inocentes, que antes desafiava Gilberto Gil com toda a visibilidade deste num programa de TV. Ou que escrevia que sua geração queria pintar de negro a asa branca da MPB. Um cara que peitava os monstros sagrados da MPB adotou, ultimamente, posturas que o fazem equivaler àqueles que ele combatia outrora.

A acomodação de um Clemente que peitava Gilberto Gil mas foi cordial com Gaby Amarantos faz sentido quando ele diz que a 89 FM é "essencial para manter o rock forte". Mas a postura de bom cordeiro do inocente (ou ingênuo) cantor acaba ganhando a solidariedade de outros, independente de suas posturas causarem surpresa ou não.

A de João Gordo, por exemplo, não surpreende. Apesar de ser o vocalista do grupo de hardcore Ratos do Porão, ele havia se tornado um ídolo da massa ao participar de programas da MTV e Rede Record. E, como entrevistador, já recebeu tudo quanto é ídolo brega, que faz sentido ele fazer altos elogios à 89 FM que deu visibilidade e permitiu que ele encontre o "povão" da grande mídia.

Mas até mesmo Andreas Kisser, de um Sepultura que chamava o Clube da Esquina de acomodado, mas que recentemente tocou para Chitãozinho & Xororó (bem mais piegas que os mineiros, por sinal com seu cancioneiro parasitado pela dupla breganeja paranaense), não surpreende pela sua postura pró-89, ganhando até programinha para ele e seu filho apresentarem.

Quanto ao Supla, ele sempre foi mais pop-rock, como um Billy Idol dos trópicos, mas ele também deu altos elogios à 89 FM. Há poucos dias, vi no Canal Brasil um documentário sobre a extinta companhia aérea Panair (de um empresário de esquerda) e confronto a tristeza melancólica do depoimento do senador Eduardo Suplicy com o otimismo exagerado do filho em relação à 89 FM.

A 89 é uma rádio "só sucesso" como qualquer outra. Apenas se volta para o que ela entende como "cultura rock". E dá para perceber que o deslumbramento dos músicos de Rock Brasil - de Chorão a Guilherme Isnard (Zero e ex-Voluntários da Pátria) - com a volta da rádio, tem claros objetivos mercadológicos.

Afinal, esse pessoal todo quer é mercado para se apresentarem ao vivo. Querem vender discos e camisetas. Até fazem boa música, mas precisam também se vender. E a 89 FM é jabazeira de carteirinha, seu jabaculê é algo que salta aos olhos.

Ultimamente, os roqueiros estavam dependendo de nomes como Banda Calypso, Asa de Águia e até Mr. Catra para continuarem em evidência. Mas precisam da 89 FM para isso? Por que ninguém lutou, por exemplo, pela volta da 97 Rock? E o suporte conservador da Folha de São Paulo, dona do UOL, pode criar uma rádio bem reaça.

A única coisa positiva que vai ocorrer para esses músicos é que eles não precisarão de Joelma, Chimbinha, Mr. Catra, Chitãozinho & Xororó, Michael Sullivan, Durval Lélis, Gaby Amarantos nem de outros para se manterem no mercado. Mas de toda forma se venderão a essa "Jovem Pan com guitarras" com locutores "putz-putz" cujo envolvimento com rock é tão falso quanto o visual feminino de uma drag queen.

Eu, se tivesse uma banda de rock, estaria fora. Não queria ter minhas músicas tocadas na 89. E nem vou depender de cantor brega para entrar no mercado. Eu, nesta ocasião, contaria apenas com minha confiança e minha criatividade, mandaria meus vídeos para o YouTube, mandaria CD demo para a BBC, e só. Ainda que eu faça mais sucesso para meus amigos e alguns poucos interessados

Isso pode não trazer para mim o sucesso imediato que uma 89 FM traria. Mas mantendo meus princípios, eu iria no caso fazer diferença com essa postura insubmissa e, ainda por cima, não viraria um astro da noite para o dia, para aparecer no Caldeirão do Huck ou namorar uma ex-BBB. Eu continuaria sendo eu mesmo, sem me vender para o jabaculê.

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