segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MUSAS "POPULARES" NÃO ACEITAM OS NOVOS TEMPOS


Uma mensagem publicada pela ex-Big Brother Brasil Maíra Cardi na Internet é bastante ilustrativa de como determinadas pessoas não aceitam as mudanças e as exigências dos novos tempos. No Brasil cafona das mentes de muita gente, as transformações sociais são vistas como algo desprezível à sua vaidade ao mesmo tempo provinciana e narcisista, matuta e falsamente moderna.

Para entendermos a situação, é bom que se reproduza o texto, um tanto indignado e desesperado, mas também politicamente correto e um tanto presunçoso, da ex-BBB, em relação às duras críticas que anda sofrendo. Nada que uma Nana Gouvea ou Geisy Arruda não possam escrever, nada que um internauta metido a convencido não seja capaz de redigir. Vejam:

Nunca me arrependo do que faço... Mas do que deixei de fazer! Porque sou intensa, verdadeira, realista... Se erro é sempre tentando acertar, mas ninguém é perfeito, 'não que eu saiba' quando decido por algo, não tenho meio termo! Decido mesmo, sem olhar para trás, e movo montanhas por isso! Porque eu acredito no que quero... Mesmo que esteja longe, seja difícil, que o mundo discorde, que o mundo critique, que me custe tempo, que me custe saúde, que me dê trabalho, que eu me desdobre, que me tire o ar, que me tire o sono... Mas que minha motivação não me faça chorar e que me faça feliz! Se for capaz de fazer apenas esse item! Eu quero que o mundo se fo... Que qualquer loucura, todo sacrifício, qualquer briga com mundo, qualquer desdobramento , todos os vôos do mundo... tudo será nada se eu estiver feliz! É pedir muito em troca?".

Esta mensagem, até um tanto longa para a disposição que tais pessoas têm a escrever, poderia muito bem ser resumida da seguinte forma: "Que se danem as mudanças e as exigências do mundo, e dá para comparar o "manifesto" de Maíra Cardi com outros textos publicados na semana passada, um por Lya Luft na revista Veja e outro por Danuza Leão na Folha de São Paulo.

MÍDIA CONSERVADORA

Todas elas são vinculadas a um contexto de uma mídia conservadora que perde a cada dia seu poder de influência na sociedade. A grande mídia está velha, mofada, decadente, e por isso muitos analistas da Comunicação, incluindo gente insuspeita como Venício Artur de Lima, sabiamente a definem como "velha mídia".

É uma mídia que não sabe mais a relação entre o tradicional e o moderno, e é antiquada até mesmo quando tenta exercer esta relação. Estimula ao público um exagerado apetite sexual pelas "popozudas", alternando com um obscurantismo religioso histérico e medieval. Defende uma cidadania de fachada, limitada a medidas inócuas ao "sistema", mas apela para um privatismo econômico sem escrúpulos de ser excludente e entreguista.

Nesse contexto, do qual há porta-vozes conhecidos como Merval Pereira, Eliane Cantanhede, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, Marcelo Tas, Otávio Frias Filho e tantos outros - mas não nos esqueçamos de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Ronaldo Lemos também adestrados pela velha mídia - , as três mulheres expressam seu conservadorismo a seu modo.

Danuza Leão, no seu texto "Ser Especial", se inquieta com as transformações que no Brasil ocorrem em benefício às classes populares. Lya Luft, em seu texto "Chega de ser policiado. Chega de politicamente correto. Vamos ser quem somos", se sente incomodada com a necessidade de mudança nos conceitos culturais do Brasil. E a mensagem de Maíra já mostra o incômodo em relação aos papéis que se exige para a mulher moderna brasileira nas classes populares, que a mídia põe a ex-BBB como seu suposto símbolo.

Enquanto lá fora há um cem número de mulheres marcadas pela personalidade e pela capacidade de transmitir ideias interessantes, podendo ser uma Natalie Portman e uma Olivia Wilde, como podem ser estrelas juvenis como Emma Watson e Chloe Moretz, aqui ainda ficamos no mercadão de musas que só se comprometem a mostrar o corpo e, quando tentam fazer algo diferente, só cometem gafes.

Maíra chega ao ponto de mandar o mundo "se fo", e dizer que pouco importam as consequências funestas de seus erros, se ela "estiver feliz". Em seu texto politicamente correto, Maíra disse que nem está aí para as críticas, nem para as cobranças ou críticas que sofre. Acha que ela é "intensa" pelos seus atos, ou melhor, pelos seus erros, e "verdadeira" nas suas gafes e na sua teimosia.

Como diz minha mãe, "errar é humano, persistir no erro é burrice". E Maíra prefere se arriscar, dentro daquele estilo de "musa" que temos, que fica o tempo todo bancando a "gostosona" sem medir contextos nem situações, além de falar sobre frivolidades. Mas aí é só chegar uma Elle Fanning (a irmã mais nova de Dakota Fanning) nos seus 14 anos ao Brasil, dá uma entrevista e dá um banho nas nossas "marmanjas".

O que Maíra Cardi não quer admitir, na sua personalidade "intensa e verdadeira", é que o mundo mudou e não é mais aquela maresia popularesca que ela viu na televisão de sua infância. Como também o mundo está longe de continuar sendo o fechado circuito hi-so que tanto fascinou Danuza Leão.

É um mundo que Lya Luft não consegue mais entender e ela, na sua incompreensão, ainda ouve o disco do Raça Negra que seus netos lhe apresentam e acha "legal". Um mundo que fez o oftalmologista e aspirante a escritor Almir Ghiaroni, mesmo com uma esposa 16 anos mais nova, deixar o colunismo social depois de ver definitivamente encerrada a "era Jacinto de Thormes" através de jovens atores de bermudão e tênis.

O Brasil resiste às transformações profundas. Isso é mal. O país está em péssimas posições nos rankings da Educação e de desenvolvimento humano, situações muito perigosas para um país emergente que acredita poder ser potência mundial do nada. Quando muito, tenta maquiar com entretenimento e outros aparatos um desenvolvimento que recusa a assumir, criando maneiras míopes e esquizofrênicas de progresso social que nada têm de progressistas, mas do velho "progresso" ditado pelas elites do passado.

As musas "populares" estão nesse contexto. Elas não aceitam os novos tempos. Não aceitam novas responsabilidades, desprezando a luta que as verdadeiras feministas tiveram no passado. Desse modo, Maíra Cardi não parece muito diferente de uma Carla Bruni dizendo que não tem mais compromissos com o feminismo.

Pois, à maneira da sra. Nicolas Sarkozy - um modo Jacinto de Thormes de denominar Carla Bruni - , as musas "populares" não querem assumir qualquer conquista feminista, só querem "viver sem culpa". E, no fundo, não existe muita diferença entre uma Carla Bruni que se sente "mais burguesa" e uma Maíra Cardi que se sente "intensa e verdadeira".

Pena, porque as feministas do passado chegaram, em boa parte, a pagar pela vida para terem direito ao divórcio, às conquistas do trabalho e, principalmente, ao direito de opinar sobre diversos assuntos. As musas "populares" não entendem essas conquistas, acham que basta querer mais sexo e poder engatar um namoro de apenas duas horas.

Por outro lado, suas antecessoras não tinham o conforto que as atuais têm. As "popozudas" do passado eram esposas de policiais truculentos, velhos dirigentes carnavalescos, filhos de banqueiros de bicho, jogadores de futebol de segunda divisão e até jagunços, todos bastante ciumentos. Hoje uma funqueira tem o luxo de esconder seu marido no interior do país, se passar por "solteira" na mídia e até posar ao lado de um galã de TV ao vê-lo num aeroporto.

Neste sentido, o Brasil de oftalmologistas cinquentões e socialites idosas sonhando com o glamour dos tempos da boate Vogue e do Copacabana Palace pré-Contracultura, de "popozudas" que "mostram demais" e ex-BBBs que "só querem ser felizes" e o mundo "se fo", nem de longe foi o Brasil sonhado por Juscelino Kubitschek, quanto mais para o contexto atual em que vivemos.

A choradeira de Maíra Cardi mostra, além disso, sua falta de autocrítica. Ela tentou explicar suas teimosias, dentro daquelas frescuras de ex-BBB. Só que o Brasil não é a casa do BBB, não é a hi-so dos anos 50, não é a cafonice absoluta dos anos 70 e 90 (com o intervalo oitentista do Rock Brasil).

O Brasil se transforma e há muita, muita gente frustrada e desiludida com isso. Muitos têm medo de perder seus privilégios e comodidades se o país assimilar as mudanças e as novas exigências que aparecem no presente, trazidas sobretudo pelas mobilizações sociais da Europa e do Oriente Médio.

E ainda insistem em se isolar do mundo, convictos com suas comodidades antigas. Talvez Maíra Cardi mereça ir ao consultório do dr. Ghiaroni. Daria um ótimo bate-papo, ela triste com o fim do Brasil dos anos 90, ele saudoso com o Brasil dos anos 50.

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