terça-feira, 11 de dezembro de 2012

GLOBO "ESQUENTA" A GLAMOURIZAÇÃO DA POBREZA


A entrada da nova temporada do programa Esquenta!, da Rede Globo, mostra a intenção da emissora no processo de glamourização da pobreza e na estereotipação das periferias, agora oficialmente promovidas, pela rede, a "nova classe C".

A julgar pelas estratégias do programa, ele tenta amenizar a crise que, dentro das esquerdas médias, as críticas à blindagem intelectual ao brega-popularesco que se começa a fazer. O programa, além disso, complementa a visão "sensual e poética" que o diretor Luiz Fernando Carvalho e o escritor Paulo Lins fazem com as periferias através da minissérie Suburbia.

Primeiro, porque o programa tenta agora agradar as esquerdas médias tendo como convidada a presidenta Dilma Rousseff. Mas, a julgar pelo que a Dilma faz, com a concessão de privilégios na publicidade do Governo Federal na grande mídia, dá para perceber que não é a Dilma de 2010 que estará no programa, mas aquela que vai para a festa da Folha de São Paulo e permite implantar a nefasta Usina de Belo Monte.

Regina Casé tenta também dar a impressão de que o Esquenta! não aposta na caricatura da periferia. A mesma intenção citada no discurso clichê da minissérie Suburbia. Ela diz "estar cansada" do discurso que se faz com frequência sobre a "nova classe C".

Ela diz que pretende ir além dos estereótipos. Mas aposta na glamourização do brega-popularesco, numa campanha engenhosa das Organizações Globo de "embelezar" a breguice cultural em todos os seus aspectos, sob um pretexto de "diversidade cultural" que possui exata analogia à "liberdade de imprensa" pregada pelos jornalistas da casa, como Merval Pereira, Miriam Leitão e William Bonner.

A apresentadora e atriz - há muito tempo distante da vanguarda provocativa do Asdrubal Trouxe o Trombone - chega ao ponto de enfatizar que funqueiros e "pagodeiros" (sambregas), "ao contrário do que muita gente julga, gostam de literatura da mais alta qualidade", como se os intérpretes do brega-popularesco fossem pessoas "bastante cultas".

Primeiro, esses ídolos brega-popularescos não repassam essa "boa cultura" para seus trabalhos, e, em certos casos, esse "refinamento cultural" é obtido tardiamente, talvez por indicação de algum "bacana". E, quando não é tardia, como no caso de certos bregas que começaram "tocando MPB", como Gaby Amarantos, Grupo Revelação, Anderson do Molejo e Márcio Victor do Psirico, soa superficial e hipócrita, porque no meio do caminho eles decidiram jogar isso fora e mergulhar na breguice mais escancarada.

Segundo, porque, com as facilidades de consumo de bens culturais, todo mundo passou a "gostar" de alta literatura, música de qualidade, belas artes etc. Isso não traz diferencial algum e há claramente um distanciamento e uma falta de identificação natural com a alta cultura que se consome, mas não se aprecia de verdade.

Terceiro, porque, com a Internet e as pressões da sociedade, a mediocridade cultural de hoje tenta se anabolizar com uma série de referências tendenciosamente assimiladas, que apenas fazem seus ídolos serem um pouco "mais informados".

Um funqueiro pode não entender alemão, por exemplo, mas sabe identificar o idioma por alguns maneirismos de pronúncia. Um breganejo sabe quem foram os Byrds e Neil Young & Crazy Horse, e até um MC Leozinho da vida sabe quem foi o Led Zeppelin. Luciano, o irmão de Zezé di Camargo, leu Dostoievski. Mas nada disso os faz mais cultos ou sábios, isso em nada resolve a mediocridade na qual eles estão inseridos.

Afinal, são apenas acúmulo de conhecimentos que pode valer pela quantidade de referenciais aprendidos. Mas, no que diz à qualidade de conhecimentos, isso não resolve. O brega, desde seus primórdios, esteve sempre munido de muitas informações veiculadas pelo rádio e TV, sobretudo estrangeiras, e nem por isso sua estupidez e mediocridade se tornaram "mais amenas".

Pelo contrário, a coisa até piora, mas torna-se suficientemente aceitável para uma sociedade elitista que precisa dar uma de "boa gente" para o povo pobre. São intelectuais, celebridades, artistas que precisam disfarçar seu elitismo doentio - não muito diferente de uma Danuza Leão - com um paternalismo às classes populares que eles tentam desmentir que seja paternalista.

Eles precisam dar a impressão de que sua solidariedade falsa é "autêntica", que "não querem" glamourizar a periferia, que são "sinceros" na apreciação das periferias, mesmo apostando na visão hipócrita de que as favelas são "admiráveis construções pós-modernas".

A glamourização da pobreza, apoiada em metodologias "científicas" ou "técnicas", como monografias, documentários, resenhas, artigos, reportagens, filmes e programas de TV mais elaborados, pode até dar a impressão de que se apoia num discurso "despretensioso" e "transparente", o que aparentemente desestimula um analista médio a acusá-lo de paternalista.

Desse modo, troca-se o "seis" pela meia-dúzia. Ivana Bentes, por exemplo, havia errado ao criticar a "periferia legal" trabalhada pelo Central da Periferia (outro programa da grife Regina Casé / Hermano Vianna, que na ressalva de Ivana foram por ela elogiados) e elogiar o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, que aposta na mesma visão estereotipada da periferia.

Hermano Vianna, por sua vez, havia dito que o Esquenta! seria "o ponto de encontro festivo do melhor do futuro". E Regina afirmou que William Bonner vai deixar a bancada do Jornal Nacional e "descer até o chão" num "baile funk". Seria bom chamar o William Waack junto, porque este é amigo da CIA, que, segundo analistas sérios, tem grande interesse em pasteurizar o samba e enfatizar o "funk carioca" como processos de manipulação das classes populares no Rio de Janeiro.

Mas isso não será a cultura do futuro. Nem pós-classe C, pós-Internet, pós-pós-modernidade, pós-neoliberalismo, pós-esquerdismo ou coisa parecida. O Esquenta! apenas é parte de uma longa estratégia que as Organizações Globo, desde os anos 80, fazem para "embelezar" a breguice cultural.

Essa cosmética do brega apenas busca forçar o apoio das classes mais abastadas à mediocridade cultural dominante, mas nada faz para melhorar a cultura das classes populares. Quando muito, só enche os bolsos dos ídolos popularescos, mas eles acabam virando burgueses do mesmo jeito.

A verdadeira cultura popular, com sua força, com sua expressividade e sua inteligência, ela continua marginalizada e privada do acesso de seu próprio povo. O povo ficou refém dos executivos de rádio e TV, que definem o "mau gosto" como se isso fosse a "cultura popular que deveria ser". Mas não é.

E a Globo, através do Esquenta! e Subúrbia, apenas encobre a miséria popular com uma sofisticada cosmética discursiva que alegra a todos. Só no "funk carioca", por exemplo, a blindagem ideológica foi, por si mesma, uma bela obra de arte. Coisa que o "funk", em si, não é, porque é só tocar o CD para que todas aquelas belezas ditas pelos intelectuais "mais bacanas" caem por terra.

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