quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A "MPB FEIJÃO COM ARROZ"



Diante da hegemonia quase absoluta do brega-popularesco, a grande mídia só permite ao gosto musical do grande público a apreciação de uma ala da MPB de um repertório mais acessível e quase banalizado, que possui acesso relativo nas programações de rádio e TV.

É a chamada "MPB feijão com arroz", que geralmente reproduz apenas os estilos dos medalhões da MPB autêntica dos anos 60 e 70 em fórmulas mais "digestíveis", sendo praticamente uma tradução brasileira do pop adulto estrangeiro mais trivial, já tocado largamente nas chamadas FMs de "adulto contemporâneo".

O elenco não é lá muito grande, mas é divulgado ao lado dos pouquíssimos nomes da MPB autêntica que possuem acesso nas rádios, como Maria Rita Mariano e Marisa Monte. Os nomes da "MPB feijão com arroz" são muito conhecidos e até são considerados uma espécie de "versões de bolso" ou "genéricos" de artistas da MPB considerados "menos radiofônicos".

Dessa feita, temos Ana Carolina, que é um "genérico" da Ângela Ro Ro, Jorge Vercilo, em relação a Djavan, e Maria Gadu, em relação a Nana Caymmi. Todos eles nem de longe representam uma renovação para o gênero, sendo apenas uma versão "simplificada" da MPB dos anos 70, apenas um bando de bons alunos fazendo a tarefa de aula corretamente.

Nos anos 90, até tivemos "genéricos" como Chico César, que emulava Caetano, ou alguns nomes mais afeitos a uma estética "pop", como Zeca Baleiro. Mas nomes como Zélia Duncan, Marisa Monte, Lenine e Adriana Calcanhoto ainda ofereceram um pouco mais de informações musicais, tentando suprir o raquitismo artístico trazido pelos neo-bregas.

ISSO É BOM OU RUIM?

A "MPB feijão com arroz" é boa ou ruim? Dependendo do ponto de vista, pode ser boa ou ruim. Boa, porque permite ao grande público o conhecimento básico da MPB autêntica que as grandes plateias são desestimuladas pelo poder midiático a adotarem como seu gosto musical geral. É uma forma de introduzir o grande público à MPB autêntica, de certa forma.

No entanto, isso é ruim, quando o gosto musical acaba se estacionando nesses nomes. Quando curtir Ana Carolina torna-se o máximo que o grande público, ou mesmo pessoas de classe média, conseguem atingir, isso é negativo. Afinal, se uma Ana Carolina ou Jorge Vercilo não estimulam o grande público a largar o brega-popularesco, isso se torna bastante preguiçoso e ineficaz.

É como se, nos EUA dos anos 50, o pessoal que só curte Pat Boone e The Platters se encoraje a curtir Bing Crosby e Perry Como. Ou, no âmbito do rock pesado, a patota que gosta de poser metal só curtir algum rock-chavão como Scorpions e Whitesnake fase anos 80 ou bandas tipo Nazareth e Quiet Riot.

Sendo esse hábito, a preguiça impede que o gosto musical das pessoas se torne mais aprimorado, porque para o público de brega-popularesco, não existe diferença real entre a "MPB feijão com arroz" dos artistas medianos e a "MPB de mentirinha" dos da geração neo-brega de Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Belo, Leonardo, Daniel, Thiaguinho, Péricles e Ivete Sangalo.

Isso acaba tornando o gosto musical viciado, sem falar que os clichês da MPB dão uma noção falsamente elitista da música brasileira de qualidade, e qualquer um que vista paletó e grave disco com orquestra vira "sofisticado".

A "MPB feijão com arroz" existe como um processo de introdução do grande público à MPB. É até um bom atalho para o "povão" conhecer coisas melhores e reencontrar os ritmos de seus antepassados hoje erroneamente vistos como "patrimônio das elites". É bom não ficar parado no meio do caminho, a MPB mais básica não é o fim, mas um meio das classes populares reconheceram a MPB que a mídia lhes tirou do acesso.

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