sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A ELITE "PROGRESSISTA" E SUA IDEIA DE CIDADANIA




Sabemos de uma boa parte da sociedade que se diz "sem preconceitos", mas é bastante preconceituosa. E cujos preconceitos chegam a ser piores do que aqueles que dizem condenar dos outros. Sabemos também que, desde o Brasil colônia, temos esse "progressismo de fachada", que durante a fase imperial tornou-se uma espécie de "iluminismo escravista".

É a mania de querer apenas os progressos sociais relativos. Todos querem a regulação da mídia, desde que ela se limite à domar apenas alguns comentaristas jornalísticos mais ferozes e uma meia-dúzia de humoristas mais reacionários.

Para essas pessoas, se o modelo de telejornalismo, por exemplo, se tornar um misto de noticiário policialesco com telejornal de TV educativa, tudo bem. Se houver um cruzamento meio caricato de Caros Amigos com Meia Hora, para eles será melhor ainda.

É a "boa sociedade" vestindo a capa de "progressista", engrossando em quantidade, mas não em qualidade, as fileiras esquerdistas. É um pessoal que louvava cegamente a Folha de São Paulo, votou com entusiasmo em Fernando Henrique Cardoso duas vezes, mas depois pegou carona na indignação de amigos e colegas quando, por causa da Era Lula, virou moda ser "de esquerda".

Seguindo as neuroses de seus antepassados, que apenas parcialmente assimilaram os valores do Iluminismo francês, sem romper com os valores escravagistas vigentes no Brasil, essa "boa sociedade" defende valores do socialismo sem romper com as estruturas de dominação político e midiática que promovem a breguice cultural que degrada o povo pobre.

Seus indivíduos adotam uma visão elitista de cidadania, defendendo os valores nobres só da entrada de seus condomínios para dentro, desde que excluam o quarto de empregados (as). Para o povo pobre, vale qualquer depravação, qualquer degradação, porque os intelectuais, na sua forma corrompida da "aceitação do outro", consideram isso "valores positivos que não (sic) conseguimos entender".

Para essas pessoas, o que é retrógrado para a sociedade mais abastada, é "moderno" para o povo pobre. Se para os abastados é "doentio", para os pobres idealizados por essa sociedade torna-se "saudável". Dessa feita, as broncas e cobranças só existem dentro dos limites das elites. Fora delas, a degradação é defendida até com o pretexto da "liberdade".

Os problemas sociais não sensibilizam as elites "progressistas". Mas elas dão um jeitinho para parecerem simpáticas e dizem que tais problemas são "soluções" e a pobreza é vista por elas como "uma admirável pureza transcendental das periferias". Acham que o povo pobre é "feliz" e "sabe resolver essa pobreza".

No que diz à questão das mulheres-objeto, por exemplo, isso é sintomático. Se a modelo Gisele Bündchen aparece vestida de empregada doméstica, ou talvez de enfermeira sexy, a "boa sociedade" reage com fúria. Mas se é uma musa mais vulgar, seja uma funqueira, uma ex-BBB, abrigada pelo pretexto do "popular", a reação é outra.

Aí a musa vulgar, quando veste de enfermeira sexy, é considerada "divertida", "hilária" e, pasmem, até "feminista". A "boa sociedade" fica feliz porque, para ela, é o povo pobre fazendo o papel de "bobo da corte" das elites, o pitoresco lhes é "divertido", e tentam argumentar até de que "ninguém precisa ser sério o tempo todo". Logo estas elites, tão sisudas consigo mesmas no dia a dia...

Mesmo as críticas contra a mídia machista acabam se limitando a uma exploração machista da mulher feita por veículos e fenômenos da mídia mais "elitistas". Comerciais de automóveis, de serviços de TV por assinatura, de grandes grifes de moda, de seriados de TV estrangeiros. Aí a bronca mais comum é a reprovação da imagem da mulher como objeto de consumo ou como pessoa de qualidade inferior.

Só que, quando a situação muda quando a questão é no "popular". Se uma ex-BBB mostra fotos de banheiro, banca a "gostosona" até em bailes de gala e se veste mal o tempo todo, a "boa sociedade" até sente pena quando ela é criticada. "Meu Deus, estão pegando pesado demais na coitadinha!", é o que costumam dizer.

No "funk carioca", a "boa sociedade" já deu todos os louvores alegando que a degradação social associada ao ritmo era "uma forma diferente de valores modernos para o povo pobre". Trocando as bolas, a "boa sociedade" tomava a estupidez funqueira como "sabedoria" e nossos questionamentos sérios como "preconceitos".

Através desse discurso, vemos que a "boa sociedade" se incomoda quando o estupro atinge a vítima mais abastada, como por exemplo uma universitária. Mas se ele ocorre dentro de um "baile funk", é "liberdade sexual das moças pobres". Se a pedofilia envolve homens abastados, ela é depravação, mas quando ocorre dentro de "bailes funk", é visto como uma "iniciação sexual das moças das periferias".

Dessa feita, a cidadania, quando é fora dos redutos das elites, tem que ser o vale tudo dos valores caóticos, da ignorância moral, das degradações diversas. E a "boa sociedade", alarmista, condena nossos questionamentos como se estes fossem "alarmismo", como se fossem um "horror moralista".

Assim, a "boa sociedade" trata as classes populares conforme um conhecido ditado popular adaptado a seu contexto. Para ela, pimenta nos olhos do povo pobre é refresco. E, pasmem, isso é visto como "ruptura de preconceitos". Não há preconceito pior do que isso.

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