terça-feira, 25 de dezembro de 2012

89 FM: FICAMOS MENOS EXIGENTES?


O pior estigma do brasileiro é se contentar com pouco. Pode haver exceções, mas a maioria esmagadora dos brasileiros é se conformar com coisas que nem são tão boas assim, e às vezes trazem prejuízos, desvantagens e limitações muito sérias, só porque não é "algo pior" ou traz alguma "vantagem" relativa, mas muito do agrado do indivíduo em questão.

Da busologia ao feminismo, do radialismo aos esportes, essa onda conformista, esse apreço exagerado ao medíocre preocupa muito os analistas, porque vem muitas vezes de gente que não conheceu as referências mais valiosas. E mostra que, para uma boa parcela da sociedade, na falta do melhor, o mais ou menos vira "genial".

É a aplicação do ditado "Em terra de cego, quem tem um olho é rei". E neste caso os súditos são dotados de cegueira pior ainda, porque pensam terem visto a luz quando apenas viram uma lanterninha fraca se acender nas trevas.

A volta da 89 FM como suposta "rádio rock" é um sintoma de um Brasil cujos "heróis" são Luciano Huck, Geisy Arruda, Fernando Collor, Michel Teló e Mr. Catra. A rádio não é exceção a essa mediocridade dominante, antes fosse um produto apenas "um pouco mais arrojado".

NENHUM JOGO DOS ERROS: A 89 FM "roqueira" criou as condições para o surgimento e o sucesso do punk domesticado das bandas "emo", como o NX Zero.

Desde os primeiros minutos da "programação rock" da 89, agora UOL 89 FM, notou-se o perfil popirroque que "queimou" a rádio em 2006. Apenas o playlist parecia mais "cauteloso", mas mesmo assim em alguma linha perdida entre 1992 e 2002.

A locução é bem ao estilo de FM de pop dançante, que contagia até mesmo o Tatola, o "roqueirão" que agora coordena a programação da rádio. Só que ele veio de uma banda furreca, o Não Religião, espécie de imitação fajuta do Ira! e da Plebe Rude com trejeitos que depois seriam claramente identificados em bandas como NX Zero, Fresno e Restart. Daí o Não Religião ser uma espécie de "Los Saicos" do emo.

Portanto, ouvindo os primeiros momentos da tal "trilha sonora do fim do mundo", a locução, embora anunciasse a música "It's The End of The World As We Know It (And I Feel Fine)", do extinto grupo R.E.M., mais parecia os últimos momentos da Play 89 FM do que de qualquer começo de uma "brilhante rádio rock".

ÁGUA DE BICA NO DESERTO

Os comentários de internautas, jornalistas e músicos, mesmo respeitáveis, foram exagerados. Foi como alguém num deserto falando da primeira torneira de água de bica que viu na frente. Afinal, o que se viu na 89 FM não foi uma rádio genial de rock'n'roll, daquelas que vão mais além do mero vitrolão e mergulham fundo numa personalidade rock, num estado de espírito roqueiro.

Eu ouvi a Fluminense FM nos primórdios, entre 1982 e 1985 (de 1982 e 1983, por "carona" de um vizinho que sintonizava a rádio), e sei do que estou falando. Afinal, a Fluminense FM sempre se projetou como uma rádio de rock não apenas porque tocava rock, mas tinha um estilo de locução próprio, uma mentalidade própria, um modo próprio de trabalhar o repertório.

A 89 FM, mesmo nos seus melhores momentos - como a fase 1985-1987, que ainda assim era bem longe de ser genial e mais parecia uma morna imitação da antiga emissora carioca Estácio FM com "pitadas" de 97 Rock - , nunca foi além de um vitrolão "roqueiro". Na melhor das hipóteses, era apenas um jukebox sem alma trabalhado por produtores com um conhecimento apenas mediano de cultura rock.

89 FM VOLTOU "MAIS OU MENOS", MAS SUPERESTIMADA

Mas a rádio sempre tentou se justificar pelo pior. O paradigma dos adeptos da 89 FM é que era muito, muito ruim. Pudera, são pessoas mais jovens, com menos de 40 anos e que foram educados com Xuxa, Gugu Liberato e Fausto Silva. Nunca ouviram falar de Leila Diniz nem de Glauber Rocha e muitos até odeiam ler livros, só o fazendo por obrigação acadêmica ou profissional.

Claro, perto do que significam os Backstreet Boys, João Lucas & Marcelo e Sorriso Maroto, a 89 FM tocando só "sucessos do rock" parece "grande coisa". Mas o problema é quando os adeptos da 89 ficam superestimando isso, exagerando nos elogios à rádio e fazendo vista grossa aos seus piores defeitos que a derrubaram em 2006, mas que voltaram praticamente intatos, salvo pequenas cautelas.

No grosso, a rádio voltou "mais ou menos", tentando, nesse seu lançamento, trazer um repertório musical mais "diversificado", dentro dos limites da rádio em enfatizar somente o rock grunge ou "farofa" dos anos 90 ou os clássicos mainstream mais acessíveis. Nada de muita ousadia ou brilhantismo.

Na verdade, todo mundo sonha com a 89 FM de 1985-1986, que gerou um impacto publicitário enorme, embora, a título de qualidade, fosse bastante inferior à Fluminense FM de 1982. Só que nem a 89 de 1985 voltou, o que se viu foi a programação "fechada" nos anos 90, com uma mentalidade mais pop e uma lógica hit-parade que pouca gente percebeu ou admitiu.

A 89 FM que voltou é aquela que, "elogiadíssima" em 1996, tinha muito medo de tocar um Beck Hansen, só para citar um nome do rock alternativo mais acessível, e portanto bastante inferior ao de uma "decadente" Fluminense FM que tinha coragem de tocar o ótimo Weather Prophets, sem qualquer promessa de lançamento de disco no Brasil até hoje.

Portanto, a grande questão em torno da 89 FM é essa: será que ficamos menos exigentes? Hoje medíocres como Michael Sullivan, Raça Negra, Solange Gomes, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, É O Tchan e Fausto Silva são "geniais".

O saudosismo dos anos 90 e do pior dos anos 80 no Brasil tornou-se algo doentio, em que coisas "mais ou menos" ou até "ruins" agora são vistas como "as melhores coisas do mundo". E num país pretensioso e um tanto hipócrita como o Brasil, se exagera nos elogios, quando se poderia dizer, em vez de "isso é a melhor coisa do mundo", uma frase simples e honesta tipo "isso não é aquela maravilha, mas é o que eu gosto".

O que será de nós no futuro? O Brasil está nivelando as coisas por baixo. O país é o único que acha a disco music, por exemplo, "sofisticada". Prefere medidas paliativas que "funcionam" do que qualidade de vida. Aceitam coisas nem tão boas, justificam seus próprios sofrimentos e limitações com promessas de melhorias que nunca ocorrerão.

A 89 FM não vai fazer o radialismo rock voltar aos tempos áureos. Nem em São Paulo. A rádio apenas vai aquecer o mercado mainstream do gênero, que andou meio parado, para os parâmetros médios de 1992. A emissora não vai promover uma cultura rock de verdade e é bom seus ouvintes pararem de sonhar.

A linguagem e a mentalidade da 89 FM diz muito. Locução poperó - ou "putz-putz", só para utilizar um termo do Tatola - , repertório hit-parade e propaganda enganosa. Hoje tudo parece maravilhoso, mas é só a 89 FM entrar na rotina para seus adeptos mais entusiasmados começarem a cansar. Até atirar o rádio pela janela de seu apartamento.

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