domingo, 23 de dezembro de 2012

89 FM E SEUS OUVINTES DE MEMÓRIA CURTA


Em terra de cego, quem tem um olho é rei. O ditado popular é bastante ilustrativo para a histeria coletiva que contagiou muitos ouvintes, músicos e outras celebridades diante do retorno da dita "rádio rock" 89 FM, agora rebatizada de UOL 89 FM.

Nem mesmo o suporte conservador - a retrógrada Folha de São Paulo agora tem participação acionária na 89 FM - fez intimidar os adeptos da emissora, que esqueceram de que a emissora voltou com os mesmos erros e equívocos que derrubaram a emissora em 2006, dando lugar a uma trajetória pop de seis anos.

A memória curta dos bitolados - sim, bitolados - ouvintes da 89 FM faz com que eles achem "genial" até um arroto transmitido pela 89. De repente, bandas que nunca foram legais, como Charlie Brown Jr., Virguloides, Bon Jovi, Mötley Crüe e sobretudo Guns N'Roses agora são considerados "clássicos". Puro sintoma da memória curta de uma juventude pouco exigente.

A REPERCUSSÃO FOI GRANDE OU NÃO?

Dependendo do ponto de vista, a repercussão da "nova" fase da 89 FM pode ter sido além ou aquém das expectativas. Em aspectos comerciais e publicitários, foi além das expectativas. Mas, em aspectos culturais, foi muito além, até porque o que voltou ao ar é justamente aquela emissora medíocre que empastelou a cultura rock desde o final dos anos 80.

Só que, para um público desprovido de referenciais importantes, a 89 FM parece "melhor" do que realmente é. Isso é um resultado de uma ditadura militar que provocou um colapso na Educação brasileira e criou uma mídia cada vez mais decadente.

Por isso os jovens de hoje - entende-se sobretudo um público de 25 a 40 anos, que já sente saudosismo pelas barbaridades que consumiu no rádio e TV de sua infância - não conhecem a verdadeira cultura e desconhecem completamente os verdadeiros valores sócio-culturais do Brasil e do mundo.

Sentem desprezo por figuras como Leila Diniz, Mário de Andrade, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Sílvia Telles, Don Rossé Cavaca, Glauber Rocha e Paulo Freire. No âmbito do rock, já veem os Beatles, os Rolling Stones, Who, Led Zeppelin, Deep Purple e Jimi Hendrix como "coisa da vovó" e apenas fingem respeitá-los e apreciá-los para manter o jogo das aparências.

Os "valores" dos ouvintes da 89 FM são outros. Eles só conheceram a MPB na caricatura mais grotesca dos covers de ídolos neo-bregas dos anos 1990 (Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, É O Tchan, Daniel, Mastruz Com Leite, Ivete Sangalo etc).

Só conheceram o "ativismo social" a partir da forma demagoga do "funk carioca". Cidadania eles só ouviram falar da fala tendenciosa de Luciano Huck. O "feminismo" eles só conhecem do que a mídia entende como tal, através das chamadas "popozudas" e similares. A televisão que lhes "educou" foi a TV de Xuxa, Ratinho, Gugu Liberato, Galvão Bueno, Aqui Agora, Big Brother Brasil, Pânico e CQC.

É um público que é dotado de memória curta e por isso é bitolado. Não se define esse público como "bitolado" pela provocação depreciativa, isso é constatação, mesmo. Daí o deslumbramento, até um tanto cego, deles com uma rádio medíocre como a 89 FM.

Ouvindo um pouco a "nova" programação, ela na verdade é uma repetição do que a emissora tinha feito sobretudo nos anos 90. E não existe qualquer hipótese da rádio escapar dessa conduta medíocre, mas aceita alegremente por seus ouvintes conformistas, e fazer frente às modernas rádios de rock do mundo inteiro.

Isso seria o mesmo que confrontar uma van velha com um trem-bala. As rádios de rock de fora vão muito além do hit-parade roqueiro e a agilidade com que tocam bandas e músicas, enfatizando nomes pouco conhecidos, dando espaço para lados B de compactos e até para canções longas e música instrumental, é de fazer os programadores da 89 FM ficarem roucos de tanto comer poeira.

A 89 FM ficou prisioneira de seu estilo, um tanto caricato e estereotipado, de radialismo rock. Sua locução, já nos primeiros momentos de sua retomada, é igualzinha ao de qualquer rádio de pop dançante mais abobalhada, com aquele timbre enjoado que é difícil manter presa na garganta a frase inevitável: "Parece Jovem Pan 2!".

Por isso a recepção da 89 FM foi bastante exagerada. A rádio nunca foi essa maravilha toda, mas virou clichê para os jovens de hoje achar que uma coisa mediana "não é 100%, mas é cem por cento". E, sob a influência da Folha de São Paulo, sócia da rádio junto à mesma família Camargo (malufista) da breguíssima Nativa FM, já se espera surtos de reacionarismo dos profissionais e até de ouvintes da rádio.

É bom avisar que a cultura rock, como fenômeno comercial, anda em baixa no Brasil e no mundo. E não é pela ausência da 89 FM, cuja conduta permitiu a ascensão dos ídolos brega-popularescos e havia motivado a implantação da recém-encerrada fase pop. Por isso ela também não será reforçada com a volta da emissora, e que isso seja entendido de forma bem clara.

Afinal, não virão novos Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes. O que virão, de novos roqueiros brasileiros, são aquelas bandas de punk comportadinho que só fazem cara de mau e cantam letras contestando o nada de coisa nenhuma, isso quando não vem aquelas bandas emo que parecem terem sido criadas para comerciais de refrigerante.

Portanto, a 89 FM mais pareceu um novo Cavalo de Troia reconstruído para o deslumbre coletivo. Mas, passada a novidade, a emissora deixará ainda mais evidentes seus defeitos, num contexto em que o rock deixou de ser cultura hegemônica e a velha grande mídia, na qual a 89 FM está inserida, já é largamente questionada pela opinião pública na Internet.

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