sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SUBÚRBIA E A GLAMOURIZAÇÃO DA PERIFERIA


A minissérie Subúrbia, anunciada deste o início do ano para entrar no ar na Rede Globo, é promovida como uma construção "mais realista" da realidade das periferias. Certamente é uma produção dramática sofisticada na linguagem e na escolha de atores de teatro das comunidades populares, vários deles com talento já reconhecido e admirado em outros trabalhos.

No entanto, a minissérie pode ter seu mérito no âmbito da ficção, já que como realismo a produção segue a exigência ideológica de tratar as periferias de uma forma quase "realista", mas ainda assim um tanto glamourizada, como é a cartilha da intelectualidade "sorospositiva" que domina o Brasil.

A relação com a religiosidade da jovem e uma estranha ênfase da mulher no êxodo do interior para as capitais - mito apoiado pelo Censo do IBGE mas muito raro na realidade - são trabalhados dentro de uma mitificação conservadora, mas "progressista" na forma, de maneira a adocicar as imagens dos movimentos sociais.

Evidentemente, existe o lado da denúncia da violência e da tragédia vivida nas classes populares. Conceição tem um irmão morto em um acidente de trabalho e conhece um amigo Cleiton, que tem outro irmão morto por assassinato. Cleiton tem outros amigos que acabam formando um grupo de "funk carioca".

A glamourização da pobreza aparece não na ausência da violência, da miséria ou de outros problemas vividos nas periferias, mas num certo romantismo das transformações pessoais sem que haja uma ruptura real das estruturas do poder dominante.

O próprio "funk carioca", menina dos olhos dos barões da grande mídia para dominar as classes populares, é incluído no "recheio" da minissérie, embora a chamada tenha resgatado um funk autêntico, a excelente música "Pra Swingar", do pouco conhecido grupo brasileiro Nosso Som, gravada em 1977.

Aí é que está o problema. O próprio "funk carioca", que sempre desprezou a música soul brasileira original - sobretudo pela ausência de instrumentistas - , na tentativa desesperada de evitar seu desgaste, tenta se apoiar não só numa minissérie de linguagem poética, lembrando as velhas apologias sentimentais ao ritmo carioca, como quer recorrer justamente a quem sempre manteve seu desdém.

E sobretudo numa época em que os ideólogos do brega-popularesco precisam evocar a MPB autêntica dos anos 60 e 70, dentro daquela tese de que a cultura brasileira "nasceu" em 1967, para justificar a hegemonia brega-popularesca de hoje numa associação forçada com a vanguarda cultural brasileira.

O soul brasileiro, por exemplo, incluindo também nomes híbridos como Wilson Simonal e Banda Black Rio, em sua redescoberta pela crítica, é revalorizado de forma justa e merecida, mas como em todos os casos do gênero também sofre a bajulação e apropriação de oportunistas, penetras nessa verdadeira festa black brasileira, como os funqueiros e os sambregas.

Subúrbia não vai mudar o mundo.Será ousado como produção de dramaturgia, pelo enredo bem construído (a título de ficção) e pelo ótimo elenco. Mas ninguém deve esperar dali uma concepção socialista das classes populares ou algum exemplo de ativismo social de seus personagens. No sentido ideológico, as periferias são mostradas de forma mais conservadora que transformadora.

Além disso, com o "funk carioca" incluído no "recheio", o caráter transformador se anula cada vez mais. Na ficção, o "funk carioca" é "libertário" e "progressista". Mas, na realidade, o mesmo ritmo mostra-se reacionário, mercantilista, transformando as favelas nos seus reféns culturais e ainda por cima está associado a valores retrógrados ligados ao machismo e até à criminalidade.

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