segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O SAUDOSISMO DOENTIO DA 89 FM DOS ANOS 80


A 89 FM só foi algo próximo ao de uma rádio de rock decente - mas nem por isso tão ousada quanto parece - no breve período entre o final de 1985, quando a rádio surgiu, e algum momento de 1987, quando se esgotou a fase "alternativa" da emissora, por definitivo.

O que veio depois nem de longe é a tal "rádio admirável" que a grande imprensa - sobretudo os conservadores grupos Abril e Folha - tanto alardeou criando um quase consenso que custou a ser derrubado.

Afinal, a rádio adotava uma linguagem pop e passou a se limitar a um mero vitrolão "roqueiro", ou algo próximo disso, com ênfase apenas aos sucessos musicais mais manjados, aos intérpretes comerciais e a uma grade de programação que nada tinha a ver com o estado de espírito roqueiro.

Pelo contrário, de 1995 até 2006 o que se via era uma grade de programação literalmente "chupada" da Jovem Pan 2, apesar dos ataques forçados dos produtores da 89 FM ao pop convencional e ao brega "popular". Até os Sobrinhos do Ataíde eram claramente calcados no Pânico da Pan (a mesma equipe hoje conhecida como Pânico na Band).

No fundo, essa obsessão dos ouvintes da 89 de que ela seja "definitivamente rock" não passa de um saudosismo doentio sobre o breve período em que a 89 FM era "alternativa", entre 1985 e 1987. Já em 1989 a 89 FM que parecia se ascender como "formato padrão de rádio rock", na verdade, vivia glórias passadas e prometia uma volta aos "bons tempos" que nunca aconteceu nem vai acontecer.

89 FM DUROU MESMO APENAS DOIS ANOS, TALVEZ MENOS QUE ISSO

A 89 FM dos anos 90 viciou os ouvidos de muitos jovens, antes que o despertar da Internet mostrasse que a 89 era muito matuta e caricata no trato da cultura rock. Ela concentrou muito no poser metal e no grunge, nas bandas nacionais "engraçadinhas" - o Restart é um resultado natural e inevitável da "filosofia 89" - e nos locutores mauricinhos.

O marketing da rádio, aos olhos daqueles que ouviram a 89 FM no começo, parecia sinalizar uma esperança que a 89, depois de anos mais jabazeiros, pudesse voltar aos tempos áureos. Nunca voltou. Até mesmo a "fase grunge" da 89, entre 1993 e 1994, não representou isso, além do fracasso dessa postura "college" da 89 ter feito a rádio "indicar" a emissoras não roqueiras a aquisição de rádios de rock autênticas que existiam desde os anos 80 e que hoje não existem mais.

Até o quadro acionário da 89 FM não é lá grande coisa. Seu dono, José Camargo, foi um político malufista, da banda podre da ARENA e, depois, do PDS. Compare isso com o da Fluminense FM, que nos anos 80 era controlada pelo hoje falecido Alberto Francisco Torres, descendente do Visconde de Itaboraí e que havia sido ligado ao PSD de Juscelino Kubitschek, na tendência mais simpática à aliança com o então progressista PTB. Vai uma grande diferença.

A 89 FM, portanto, só durou dois anos. Ou talvez menos que isso. A 89 FM é que se ascendeu, em 1989, sob a sombra saudosista de seus primeiros anos, como se a rádio prometesse que seria mais pop primeiro para depois voltar a ser a rádio quase alternativa que era. Nunca conseguiu.

A emissora decaiu seriamente, já em 1989, contaminada com uma mentalidade pop que foi aumentando, aumentando e aumentando, até beirar à breguice influenciada pela TV aberta em 2005. Por isso, não dá para acreditar que a volta da "89 roqueira" vá dar muito certo. Os tempos são outros.

O público roqueiro autêntico se distanciou do rádio, indo para o MP3 e para os áudios de arquivos do YouTube. Se é difícil um roqueiro autêntico ouvir uma rádio de rock autêntica de hoje, com a desconfiança de ouvir quase sempre bandas posers intercaladas entre um clássico e uma novidade, imagine então uma rádio como a 89, que de "Jovem Pan 2 com guitarras" virou "SBT com guitarras"!

Além do mais, a 89 FM virou prisioneira de seu formato. A sua anunciada volta não trará os primórdios de volta, para sempre desaparecidos, mas apenas aquilo que representou sucesso comercial para a emissora. Vai ter Pressão Total, Rock Bola ou algum herdeiro dos Sobrinhos do Ataíde.

No cardápio musical, algumas coisas mais pop tipo Lenny Kravitz e Cidade Negra, umas bandas posers e grunge, e raramente algum clássico do rock mais manjado. Nada irá muito além disso. E o público de rock autêntico nem está animado com a volta, que só faz a festa dos fanáticos da rádio. Estes, por sinal, demonstraram que preferem ouvir "sertanejo" e "funk" do que ouvir um rockão das antigas.

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