segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O "FUNK CARIOCA" É "FEMINISTA"... PARA OS BARÕES DA MÍDIA



Pesquisando textos pela Internet, para colher algum assunto para este blogue, me deparei com um texto intitulado "O funk é feminista", publicado há seis meses atrás, sempre dentro daquela choradeira famosa em prol do ritmo carioca.

E quem publicou o "maravilhoso" texto? A intelectualidade etnocêntrica dá seus palpites: "Caros Amigos. Fórum. Brasil de Fato". Alguns engraçadinhos nas "esquerdas médias" talvez citem o "Voz Operária". Algum ativista social mais pretensioso e subserviente à "cultura de massa" talvez indique alguma publicação acadêmica ou de alguma organização não-governamental.

No entanto, o artigo foi publicado na revista Superinteressante, publicação que tem até suas coisas interessantes, desde que não sejam ligadas a ideologias político-culturais. Para dizer, por exemplo, que existem planetas povoados além do Sistema Solar, a revista é ótima. No entanto, é bom deixar claro que o reaça Leandro Narloch já atuou nesta revista e seus infames livros "politicamente incorretos" são filhos dessa linguagem quase adolescente desta publicação.

Pois o artigo tem esse título, "O funk é feminista", na tentativa de inverter o machismo inerente a esse estilo. E quem escreveu foi uma jornalista, Carla Rodrigues, doutora em Filosofia pela PUC do Rio de Janeiro. Deve ser amiga do Paulo César Araújo, professor de lá e autor do famoso livro sobre a música brega, "ancestral" dos funqueiros de hoje.

Vejamos algumas "pérolas" sobre o referido texto, que a jornalista escreveu para tentar "provar" sua tese. No começo do texto, ela tenta associar a pornografia das letras de Tati Quebra-Barraco, Deise da Injeção (Deise Tigrona) e As Danadinhas (além de outros nomes que já conhecemos, como Gaiola das Popozudas, não citado no texto) à campanha pela liberdade sexual do movimento feminista dos anos 70 (ela se esqueceu que a campanha também ia a todo vapor nos anos 60).

Em outra passagem, ela tenta convencer as pessoas de seu argumento: "Parte das militantes do movimento feminista, porém, prefere não reconhecer o funk e manifestações culturais menos formais como marca da entrada do feminismo na sociedade. No funk, há a crítica de que as músicas apresentam as mulheres como meros objetos sexuais (um lugar de subordinação do qual as feministas lutaram para nos retirar). Mas é preciso admitir os apelos de liberdade sexual da juventude como uma consequência positiva do feminismo".

Típico argumento da intelectualidade etnocêntrica de hoje, a pleno serviço dos barões da grande mídia, mesmo atuando na trincheira oposta (como Pedro Alexandre Sanches). Ela ainda usa a questão sócio-racial para tentar reforçar sua tese absurda, dizendo que as funqueiras "sabem na pele o que é preconceito: são pobres, negras e faveladas".

Essa alegação até piorou. Afinal, as funqueiras acabam fazendo a imagem negativa de suas condições sociais, porque como pobres, negras e faveladas, elas exploram tais imagens de forma paródica e estereotipada.

O "mau gosto", visto como "causa nobre" pela intelectualidade dominante de nosso país, filha direta da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso, no entanto deprecia as classes pobres, da pior maneira possível. Enquanto ideologicamente ela conserva os elementos de degradação cultural associada às classes populares, obriga-nos a aceitá-lo a pretexto da aceitação de uma falsa alteridade, de uma imagem ao mesmo tempo paternalista e glamourizada da miséria alheia.

Para o povo pobre, nada muda em condições sociais, econômicas e educacionais. A degradação sócio-cultural continua na mesma. Nós é que temos que mudar nossa percepção, ou melhor, anulá-las e aceitar a dita "cultura popular" como um vale tudo ao sabor do vento sob qualquer nota.

Carla Rodrigues cometeu o grave equívoco de reduzir o feminismo ao "desejo sexual". Essa desculpa permite-se que até mesmo atos de pedofilia aconteçam nos "bailes funk". E sexo é uma coisa tão banal que ela ocorre até mesmo nos bastidores do catolicismo mais medieval, onde padres severamente moralistas atuavam clandestinamente na mais impulsiva tara gay contra seus pupilos.

Sexo em si não representa engajamento político. O era, nos anos 60 e 70. Mas o pessoal de lá não pensava só em sexo nem em prazer. Pensava em outras necessidades de qualidade de vida. E, além do mais, as funqueiras educadas num ambiente machista e grotesco nem de longe podem ser consideradas feministas.

Ser feminista não é só querer sexo, recusar o papel de dona-de-casa ou falar mal dos homens. É um papel que vai muito além disso, porque a vida é muito complexa para se limitar a essas coisas. E o "funk carioca" não é feminista, mas sim machista, e essa postura machista é deixada clara até mesmo nas intérpretes feminina do gênero.

Se Carla Rodrigues quis agradar alguém com seu discurso, foi para o empresário Roberto Civita, um dos barões da grande mídia que apostam no "funk carioca" para manter as classes populares na mesma miséria de sempre, apenas glamourizada por um discurso intelectual sem qualquer compromisso com a coerência.

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