quinta-feira, 29 de novembro de 2012

AS GAFES DAS RÁDIOS DE "ADULTO CONTEMPORÂNEO"

A CANTORA LAURA BRANIGAN FALECEU HÁ OITO ANOS E OS OUVINTES DAS FMS BRASILEIRAS AINDA NÃO SABEM

Nos anos 90, a armação das rádios FM de "adulto contemporâneo" era beneficiada pela supremacia da grande mídia, que nas suas tendenciosas reportagens sobre rádio, exaltava essas emissoras como sinônimo de "sofisticação e bom gosto", e até os gerentes adotavam uma postura ao mesmo tempo esnobe e com muita pose e discurso chique.

Quem no entanto está vacinado contra a memória curta, sabe que tais rádios são a forma deturpada de um projeto que Luiz Antônio Mello, jornalista que idealizou a Fluminense FM, tentou implantar na extinta Globo FM, em sua breve passagem na emissora.

O formato "adulto" era denonimado "classe A". Seu formato incluía uma locução mais contida e um repertório mais suave, envolvendo MPB, blues, jazz e soft rock. O hit-parade (Bee Gees, Lionel Richie, Whitney Houston, Michael Bolton etc), tão supostamente associado a esse perfil hoje, eram barrados na programação, até porque eles já tinham espaço cativo na 98 FM ao lado de Wando e Fábio Jr..

Para se ter uma ideia, não havia baladões românticos nem disco music na programação. O cardápio musical, só para dar alguns exemplos, era composto de Cat Stevens, BB King, Beatles, Tom Jobim, Carole King, Chick Korea, Milton Nascimento, Bob Dylan, Nina Simone, entre outros.

O formato, mal implantado, não tardou a ser empastelado. De repente, Lionel Richie entrava pela porta dos fundos, entre um Tom Jobim e um Bob Dylan. Um A-ha da vida ia na carona. Isso ainda nos anos 80. Mas foi nos anos 90 que o formato de rádio de "boa música" se prostituiu para valer, e a Globo FM de Salvador, por exemplo, já surgia como uma indigesta gororoba onde valia qualquer coisa tida como "suave" e "para toda a família".

O formato descarrilhou tanto que até mesmo a locução "leitor de bula" das rádios dos anos 70 voltou a todo vapor, e as rádios de "boa música" acabaram se tornando um festival de gafes dos quais vários deles se tornaram conhecidos. Fora os casos de algumas rádios do gênero tocarem até mesmo axé-music e Sullivan & Massadas em seu indigesto e nada criterioso cardápio musical.

Além disso, com a Internet, a tão esperada "superioridade" dessas rádios foi derrubada, pois, nos anos 90, elas poderiam ao menos jogar as cartas de protesto ao lixo. Hoje essas cartas são publicadas na Internet, permanecem no ar e repercutem mais do que as cartas enviadas para os estúdios das rádios ou, no caso, para as redações de jornais.

E aqui mostramos as principais gafes dessas rádios, que o amigo Marcelo Delfino de forma coerente chama de "Gagá Contemporâneo":

SELETIVIDADE VAGA E IMPRECISA - Basta a música não ser "radical" nem muito "melosa" para entrar na rádio. Basta ser qualquer música considerada "comportada" e a inclusão na rádio é certa. Ah, desde que ela seja potencialmente um grande sucesso radiofônico. Ou seja, só brega e rock pesado são barrados na gororoba musical de tais emissoras.

INTÉRPRETES DESCONHECIDOS - Pouco importa quem foi aquela cantora daquela balada novelesca "Over You", ou que diabos é o tal de Tim Moore que canta uma tal de "Yes", ou por onde andam os tais de Jon Secada e Haddaway. Se eles seguem aquele modelo de "música de sucesso para toda a família", entra direto, pouco importa se for um androide gravando um pastiche de soul ballad.

DESINFORMAÇÃO SOBRE O PARADEIRO DOS INTÉRPRETES - Uma das aberrações das rádios de "boa música" é esse desprezo por quem é o intérprete tocado e o que ele fez ou faz. E uma das distorções criadas é por exemplo o desconhecimento completo do paradeiro da cantora norte-americana Laura Branigan, bastante tocada nessas rádios. Simples: lamentavelmente, a cantora faleceu precocemente de aneurisma cerebral, em 2004. Até hoje nem os gerentes dessas rádios foram informados de tal óbito.

PRECONCEITO - A programação dita "sem preconceitos" dessas rádios pode tocar uma Whitney Houston problemática e cheia de escândalos, mas com um repertório meloso e burocrático. Mas dificilmente essas rádios tocariam, mesmo de longe, um nome mais adequado como a banda inglesa Durutti Column (de elevada qualidade melódica), até pela aparência de "velho lenhador" de seu músico principal, Vini Reilly, que por ser de Manchester, é tido como "roqueiro malvado". Quando muito, Vini só aparece como músico acompanhante na música "Suedehead" de Morrissey, por sinal a única do ex-Smiths tocada por essas rádios.

QUALQUER UM QUE GRAVA 'BALADAS' ROMÂNTICAS OU POP DANÇANTE MAIS ANTIGO ENTRA - Pode ser o Village People com seus sucessos mais risíveis ou Backstreet Boys e Britney Spears cantando lentinhas. Eles entram e não adianta reclamar, porque se reclamar os programadores só deixam de tocá-los por duas semanas e depois despejam os mesmos sucessos com apetite redobrado.

FALTA DE ACOMPANHAMENTO DE NOVOS TRABALHOS - As rádios tocam sempre os mesmos sucessos, mas são incapazes de tocar trabalhos posteriores que não viraram sucesso estrondoso. Onde, por exemplo, aparece "Closest Thing to Heaven", dos Tears For Fears? E as novas músicas de Chico Buarque e Djavan? Nem sequer para provar se um Tim Moore ou Century existem ou não de verdade as rádios servem. E seu repertório torna-se cada vez mais repetitivo e chato.

Com o desgaste do rádio FM hoje em dia, as rádios de adulto contemporâneo nem de longe representam mais a boa opção que prometiam ser. Acabaram apenas se juntando à mesmice que já tem a chatice do "Aemão de FM" e das rádios popularescas. Sem representar qualquer contribuição à divulgação de cultura que as rádios há muito tempo deixaram de cumprir...

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