segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A VELHA GRANDE MÍDIA MERGULHA NO BREGA


Uma reportagem publicada no Segundo Caderno de O Globo, no último dia 21, tenta reforçar, mais uma vez, a habitual choradeira em torno da "música brega de raiz", através do anúncio de documentários, livros, discos e peças. Intitulada "Discos, filmes e musicais mergulham no brega", o texto de Leonardo Lichote tenta reevocar a pretensa divindade do escritor Paulo César Araújo no mesmo jornal que tem o Merval Pereira.

Evidentemente, é a mesma abordagem delirante do texto que entrevista, além do "semideus" Paulo César Araújo, a cineasta Helena Tassara (que aliás classificou o livro Eu Não Sou Cachorro Não como "bíblia", classificação que o neocon enrustido Eugênio Arantes Raggi já havia dado na Internet), o diretor teatral Fernando Bustamante, a escritora Ana Rieper, o escritor Cláudio Brites, o músico Zeca Baleiro e o produtor Vladimir Cunha.

Fala-se em "renascimento do brega" e na hipótese de que ele havia se tornado "cult", algo compreensível num país de crise de valores desde 1964. Cláudio Brites até tentou relativizar o óbvio, alegando, sobre essa onda, que o brega "também tem um potencial comercial". Também? Ora, a música brega é o nosso equivalente exato do "rock comportadinho" de Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin e derivados.

Só que lá nos Estados Unidos esses ídolos nunca se apropriaram da Contracultura para prolongarem sua popularidade. Bobby Darin até se envolveu com drogas, mas não há conhecimento de um cantor comportadinho desses que havia sido cultuado pelos rebeldes de Nova York ou San Francisco ou que suas músicas tenham sido tocadas em passeatas ou movimentos de sit-ins (protestos pacíficos de gente sentada).

Mas aqui o brega é tomado do mais absoluto pretensiosismo. Dizem que ele é "despretensioso", mas o que se vê, na prática, é o contrário. E a tentativa de desvincular ideologicamente do demotucanato, que mais investiu no crescimento da música brega no Brasil de hoje, é notória até no depoimento do próprio Paulo César Araújo.

Araújo seria o símbolo da intelectualidade cultural da era José Serra, não fosse a inesperada derrota eleitoral do candidato tucano, em 2002. Toda a intelectualidade comprometida com o brega-popularesco seria expressão dessa tendência política, até que a vitória de Lula virou o barco furado da intelectualidade festiva e fortemente influenciada pelo guru não assumido dessa patota, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

No entanto, Araújo tenta dizer que a eleição de Lula é "fruto" de uma tendência coroada por esse livro. Independente de Lula gostar ou não de brega, é bom deixar claro que Eu Não Sou Cachorro Não foi lançado ainda na vigência do governo Fernando Henrique Cardoso, e editado pela mesma Record que tem Reinaldo Azevedo e (novamente) Merval Pereira.

É como os cúmplices do navio pirata que afundam e, vendo o líder se afogando, migram para o barco inimigo e se apropriam dele, se passando pelo grupo rival. Hoje esses ideólogos do brega tentam - em vão - se alinhar com as forças progressistas, se apoiando, antes de entrarem no barco inimigo, na tábua que serve de prancha improvisada para suas pregações: o rótulo "popular".

É "popular", então é de "esquerda". Visão puramente equivocada. E, além do mais, Paulo César Araújo volta a superestimar o fato de que os ídolos bregas eram censurados pelo regime militar, como se houvesse um maniqueísmo entre uma ditadura das Forças Armadas e uma sociedade organizada civil, como se todo censor fosse necessariamente um brutamontes como Brilhante Ustra ou Sérgio Paranhos Fleury.

Não vou detalhar isso. Mas sabe-se que tanto entre os oficiais das Forças Armadas quanto entre os funcionários da Censura Federal, havia gente de vários tipos, e havia até mesmo senhoras bondosas entre os censores, que apenas cumpriam o seu trabalho.

E havia censura de todo tipo, que não fazia do censurado em questão necessariamente um herói. Além disso, a imprensa conservadora queria auto-censura, porque a censura militar atrasava a finalização de seus produtos jornalísticos e "esfriava" muitas notícias. Qualquer detalhe é só ler o livro Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir.

O brega é cômico, não é para se levar a sério. Musicalmente, é muito ruim. Mas a obsessão de Paulo César Araújo em ver o brega sendo levado a sério (e a sério demais) é descrita no livro, e me lembro do caso de Pedro Alexandre Sanches com a mesma preocupação, quando citou o caso da Banda Calypso. Em outra ocasião, Sanches também se afirmou influenciado pelo livro de PC Araújo.

O livro Assim Você Me Mata, um dos produtos dessa leva, sendo uma coletânea de contos cafonas cujo título remete ao sucesso de Michel Teló ("neto" artístico de Odair José), dá uma amostra de como é o "maravilhoso universo progressista" do brega, citando puteiros, bares, cantores decadentes, cafajestes e outros universos que o paternalismo cultural deseja que seja a "melhoria de vida" do povo pobre.

Querer que esses ambientes cafonas, essa degradação social, seja o futuro de nossa sociedade, é uma aberração quando seus ideólogos tentam desesperadamente localizar o culto ao brega num contexto supostamente progressista, como se qualquer um que falasse "pelo popular" virasse "socialista" num piscar de olhos. Quanta falta de discernimento...

Mas o pretensiosismo não para por aí. Há citações de que o brega "foi incluído na MPB", com comparações ligeiras de Waldick Soriano e Milton Nascimento (!), o "alívio" de que já não existem mais "conflitos estéticos" e a delirante comparação das letras de Odair José com Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Menos, menos.

Pelo menos lá nos Estados Unidos os fãs de Pat Boone não chegaram a tanto. E ele apenas gravou, nos anos 90, um disco de rock pesado que ele mesmo admitiu não ser feito para levar muito a sério. Mas aqui o pessoal faria uma baita festa com uma "façanha" dessas.

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