domingo, 4 de novembro de 2012

A SENSUALIDADE VULGAR COMO UM FIM EM SI MESMO


O universo popularesco, no Brasil, às vezes repercute no exterior. Vide o caso de Michel Teló e seu "sucesso mundial". Agora é a polêmica em torno das fotos "sensuais" de Nana Gouvea tiradas diante das áreas afetadas pelo furacão Sandy, em Nova York.

Nana é de uma geração de "musas" dos anos 90, que se destacaram na Banheira do Gugu, quadro do programa Viva a Noite que Gugu Liberato apresentou no SBT. O mesmo quadro lançou Solange Gomes, Renata Banhara, Mari Alexandre e Helen Ganzarolli, que como Nana eram as "paniquetes" da época.

Elas puxaram toda uma linhagem de musas popularescas cujo ápice se deu recentemente, quando semanalmente nada menos do que 50 musas do gênero - das "mulheres-frutas" do "funk" às "musas do Brasileirão, passando por paniquetes e ex-BBBs - apareciam com algum apelo "sensual" na mídia em geral.

Essas alimentam um mercado machista que fatura às custas de revistas e sítios da Internet e estabelece parcerias com escolas de samba e times de futebol. Em contrapartida, não fazem outra coisa senão mostrar seus "dotes físicos", incapazes de fazer aparições que não tenham algum apelo "sensual".

Quando tentam alguma coisa diferente, causam constrangimento. Como é o caso de Maíra Cardi, "ex-sister" do Big Brother Brasil, que primeiro se passou por "gostosona" em um aeroporto e depois publicou foto mostrando um controle remoto de um vaso sanitário. Outras ex-BBBs também cometeram gafes, uma delas deitada num supermercado na Flórida.

A gafe de Nana Gouvea - que anos atrás havia feito fotos "sensuais" acorrentada em uma árvore - foi fazer fotos "sensuais" nos lugares atingidos pelo furacão Sandy, que matou mais de 150 pessoas nas suas passagens pela América Central e EUA, onde as vítimas fatais foram mais de 100.

A sessão de fotos, divulgada nas redes sociais, causou indignação na imprensa estrangeira. O jornal inglês Daily Mail, em texto escrito pela jornalista Sadie Whitelocks, havia feito duras críticas à modelo, atualmente no segundo casamento, além de ter mostrado fotos montagens que internautas fizeram com as poses de Nana Gouvea com outras tragédias, incluídas no blogue Nana Gouvea em desastres.

A reportagem descreve as fotos de Nana ao lado de árvores caídas e carros danificados como "desastrosas", "sem graça" e "doentias", e cita um comentário jocoso do portal de comportamento Gawker: "O tumulto seguinte ao desastre natural é uma boa oportunidade para chegar lá e tentar poses, ângulos e escolher um vestuário que você normalmente não faria".

O New York Post, em sua reportagem, também citou o comentário da Gawker, e comentou a "terrível falta de senso crítico" de Nana, ao fazer as sessões de fotos, registradas pelo marido, o produtor musical Carlos Reyes. As montagens fotográficas do Nana Gouvea em desastres também foram citadas na reportagem.

Em entrevista ao portal Ego, das Organizações Globo, citada pelas duas reportagens, Nana Gouveia declarou que adora hurricanes (furacões) porque eles são uma oportunidade para ela e o marido passarem mais tempo juntos, definindo a situação como romântica e decidindo, na ocasião, que irá abrir uma garrafa de vinho para beber com o marido.

À onda de protestos, contrapôs-se um comentário solidário da cantora Gretchen - que havia causado polêmica supostamente aparecendo como garconete nos EUA - , que, dentro daqueles clichês das celebridades popularescas, definiu a indignação coletiva contra Nana como "inveja".

A situação, que fez a imprensa internacional fazer comentários como "brasileiros gostam de posar perto de qualquer coisa", faz muito a pensar a respeito da sensualidade vulgar usada pelas "musas" brasileiras como um fim em si mesmo.

Posar em áreas destruídas pelos furacões, ou acorrentada em árvore, ou, em outros casos, posar de "enfermeira sexy" ou "freira sexy", aparecer sentada num vaso sanitário ou fazer "releituras" grotescas de imagens de fadas infantis, de personagens tipo Betty Boop ou ícones da sensualidade autêntica como Marilyn Monroe, em nada contribuem para o diferencial das mulheres que só ficam "mostrando demais".

Pelo contrário, esses pretextos apenas se submetem a esse mercado "sensual", são situações que apenas estão associadas a essa apelação, que pela mesmice da exibição corporal faz com que essas "musas populares" sejam preteridas por atrizes de TV, como Juliana Paes, Deborah Secco e Alinne Moraes, que não expressam a sensualidade a qualquer preço nem a colocam acima de qualquer coisa, podendo aparecer em certas ocasiões sem precisar mostrar suas formas físicas.

O caso de Nana Gouvea só faz agravar a séria crise das chamadas "musas populares" que há um tempo ocorre no Brasil.

Nenhum comentário: