quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A ILEGAL OMISSÃO DA MÍDIA NA DIFUSÃO DA CULTURA



A grande mídia comete uma grave ilegalidade quanto à missão constitucional de divulgação de cultura para o povo brasileiro. Ela se omite no que deveria ser o justo processo de acesso amplo aos bens culturais, na medida em que impede que o povo desenvolva sólidos referenciais culturais.

O povo pobre é privado de conhecer de forma ampla e abrangente a cultura de seus antepassados. Em vez disso, seus referenciais culturais são ditados pelo poderio das rádios "populares", da imprensa "popular" e dos programas "populares" da TV aberta.

O "popular" aparece aqui de forma estereotipada, caricata, embora a intelectualidade associada, em seu discurso demagogicamente sofisticado, tente negar esse caráter de estereótipo. Mas sabemos muito bem que essa mídia "popular" nem de longe é feita pelo povo, mas por representantes dos barões da grande mídia e integrantes de oligarquias nacionais ou regionais.

É um grande absurdo. No Nordeste, por exemplo, o povo não pode ouvir baiões, maracatus, cocos, maxixes, xadados, ritmos agora apropriados pela juventude mais abastada. No entanto, o povo pobre se limita a ouvir um engodo bastante confuso que oficialmente se chama de "som nordestino", caraterizado sobretudo pelo chamado "forró eletrônico".

Esse engodo mistura elementos caricatos e estereotipados da disco music, da música country e de ritmos caribenhos, com um som de acordeon que nem nordestino é, mas uma sonoridade da música gaúcha, e seus intérpretes misturam roupas de cabarés texanos e quadrilhas de piratas de Hollywood.

Para piorar, um ritmo desses alimenta uma indústria milionária, mas escravista. Seus intérpretes ganham pouco dinheiro para fazer o papel de ridículos nos palcos de todo o país. Já seus empresários, que a intelectualidade tão badalada define como "pobrezinhos bem sucedidos", "gente como a gente", "produtores culturais das periferias", além de explorar os intérpretes, enriquecem em cima.

Esses "tão pobrezinhos" empresários, "humildes produtores culturais", além de serem verdadeiros proprietários dos conjuntos envolvidos, através desse sucesso comercial dos mesmos compram fazendas, apartamentos de luxo e exercem seu poder na mídia e na política regional.

No entanto, sonegam seus impostos e gracejam quando são chamados de empresários. Tentam manter um vínculo com as periferias que não passa de uma relação de domínio. O povo lhes é escravizado com música de péssima qualidade, maquiada por espetáculos superproduzidos mas altamente cafonas. Esses empresários tentam se confundir com o povo, numa falsa cumplicidade, mas as relações de dominação são evidentes.

Isso acontece em todo o brega-popularesco. Do "sertanejo universitário" ao "funk carioca". Música de péssima qualidade, promoção de valores sociais mais retrógrados, exploração profissional de cantores, músicos e até dançarinos, politicagem, jabaculê etc, que simbolizam um processo que não pode ser relativizado pelo discurso intelectual mais sedutor, porque o buraco é mais embaixo.

Essa hegemonia do brega-popularesco regional impede que o povo pobre aprecie a cultura verdadeira das classes populares e seus antepassados. Mesmo o samba, o ritmo que mais sorte possui na divulgação radiofônica, não tem mais que quatro intérpretes tocando no rádio a cada temporada.

A situação é muito cruel, para um ritmo que é considerado legalmente um patrimônio cultural pelo IPHAN. Mesmo a mais ampla divulgação é superficial. Se entra Jorge Aragão, sai Martinho da Vila. Se entra Arlindo Cruz, sai Jorge Aragão. Mas o "pagode romântico" ou "pagode mauricinho" sempre tem seus ídolos com franco acesso às rádios.

O brega-popularesco dilui influências estrangeiras de forma caricata e junta a elas um perfil nacional caricato. Junta-se o perfil estereotipado do povo pobre brasileiro, típico dos piores humorísticos, com os estereótipos trazidos pelos "enlatados" de Hollywood, e produz-se as tais "periferias".

Juntam-se valores machistas, sexistas, violentos, jocosos e outras imoralidades e cria-se um repertório ideológico das classes populares bem ao sabor dos barões da mídia. Por isso, não faz sentido a intelectualidade mais badalada relativizar e achar que esses são os "valores modernos e elevados das periferias" cujo "valor" (sic) nós "não" conseguimos entender.

Enquanto isso, o nosso patrimônio cultural autêntico se perde nos museus ou se confina nas apreciações das classes mais abastadas. O povo só passa a apreciar alguma cultura de qualidade se puxado tendenciosamente pelos modismos da grande mídia, quando a ela interessa que o povo tenha algum "aprimoramento" cultural.

Se a moda é, por exemplo, visitar exposição de Cândido Portinari, a imprensa "popular" vai e puxa o povo feito gado para ir lá ver. Se a moda é copiar frases de Carlos Drummond de Andrade, vai o público médio da "cultura" popularesca para botá-las no Facebook. Se a moda é seguir Leila Diniz, até mesmo as chamadas "boazudas" vão dizer que admiram a saudosa atriz. E se a moda é ouvir Wilson Simonal, vai o povo cantar "Sá Marina" e "Meu Limão, Meu Limoeiro" pelas andanças nas ruas, influenciada pela TV.

Mas nada é espontâneo. Enquanto isso, a intelectualidade se gaba de possuir os segredos do passado cultural do povo brasileiro. Como os sacerdotes da Idade Média que detinham os segredos misteriosos da Antiguidade, enquanto manipulam a opinião pública através da mentira, das meias verdades e da ocultação da realidade.

Pois os atuais sacerdotes da Idade Mídia ainda se acham os juízes máximos da cultura popular, e eles se beneficiam da ampla visibilidade para distorcer e manipular a opinião pública, enquanto se beneficiam com o difícil acesso do povo pobre à sua própria cultura, enquanto toma como "sua" uma pseudo-cultura que não passa de um lixo "reciclado" pelos barões da grande mídia e seus seguidores.

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