sábado, 17 de novembro de 2012

A CUMPLICIDADE DO ERRO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Muito antes do bullying tornar-se tema corrente nos debates sobre Educação e Sociedade no mundo, eu já me preocupava com o tema, porque já fui vítima dessa prática, há 30 anos atrás. Só que eu dava outro nome, era "implicância", e lamento que o termo não tenha uma tradução em português. Eu sugiro "valentonismo".

Este é um assunto em outro texto que havia escrito aos 18 anos, em 1989, e que trago a público aqui. Neste texto os valentões que cometem bullying são apenas descritos como "implicantes".

A CUMPLICIDADE DO ERRO

Por Alexandre Figueiredo - Niterói, 13 de outubro de 1989

HOje em dia, as pessoas ainda vivem na passividade. A cumplicidade das pessoas para com os erros e as pessoas malvadas é um grande fator desta passividade.

Num grupo de brigões, por exemplo, o líder é respaldado pelos comparsas não porque eles o adorem nem "tenham peninha" dele, mas apenas pela dependência, pois é através do líder que está em bem estar individual. E isso é explicável: os brigões são egoístas, intransigentes, e isto faz com que não haja solidariedade entre eles, mas sim uma natural possibilidade de atritos violentos, resultante do egoísmo intransigente de cada um dos brigões. 

Mas eles só conseguem se unir solidamente devido às necessidades de todos para se ascenderem socialmente e assim fazem um acordo para que não briguem entre si, mas entre um inimigo comum, se caso possível.

Outro caso que também explicar a cumplicidade das pessoas é em questão da popularidade dos implicantes. Os implicantes, conhecidos indivíduos que, por sua irreverência e pelo tédio de viver, ofendem e agridem aqueles que não correspondem a padrões sociais instaurados, conservadores e seguidos por esses ofensores, que são muito populares e se enturmam com facilidade.

Muitas pessoas convencionais (não são excêntricas nem restritivas, são relativamente boas mas não são cruéis e seguem com naturalidade o sistema estabelecido) defendem os implicantes com submissa compaixão, que não é meramente solidária, como se parece, mas totalmente cúmplice. 

Os convencionais são cúmplices dos atos dos implicantes, mas são sobretudo cúmplices do sistema, e acham natural o que os implicantes fazem com suas vítimas, sejam risos, encrencas simuladas, imposição de nomes cômicos como apelidos depreciativos. É

 uma dependência que os convencionais têm, encarando os implicantes como "mitos" ou apenas como "pessoas legais", e, sem esta cumplicidade, os convencionais temem ser rejeitados pelos implicantes, temem não irem mais a excursões interessantes, temem entediar seus ócios sem uma companhia de alguém dado como "brincalhão" e "animador".

A cumplicidade com as coisas erradas e com os agentes do erro é fruto da alienação. No Brasil, esta cumplicidade foi estimulada pela ditadura militar, que impunha ao povo a alienação social. Mas, na medida em que as pessoas se esclarecem, a cumplicidade acaba, dando lugar ao senso crítico que leva muitas vezes ao repúdio a um agente do erro.

Assim, nenhum rapazinho poderá pensar em violência e não aceitará ser soldado de um ditador, ou membro de um grupo de briga etcetera, ignorando possíveis privilégios, pois estes provém de uma sujeira, e não vale a pena levar vantagem de forma suja, pois isto pode ser até certo ponto excitante e fácil, mas resulta depois num tédio. Um dia, nenhum privilégio, seja status, dinheiro e vantagens irá fazer uma pessoa tolerar ou aplaudir alguém que comete um mal.    

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