quarta-feira, 17 de outubro de 2012

REVISTA BRAVO E O DESLUMBRAMENTO COM A "CULTURA DE MASSA"


A intelectualidade dominante, sorospositiva - recebe uma boa gorjeta de George Soros e asseclas - , aproveitou a comemoração de 15 anos da revista Bravo, da Editora Abril, para reafirmar seu conceito de "cultura brasileira", dentro de paradigmas tecnocráticos e mercantis.

Teve direito a glorificação do "cinema de ação" por José Geraldo Couto, animado com o sucesso de Tropa de Elite 1 e 2, e mais animado ainda porque o cinema brasileiro assimilou os paradigmas de Hollywood.

Há também o deslumbramento ao que o establishment pensante brasileiro entende por "cultura independente", superestimando a crise das grandes gravadoras e achando que tudo o que está fora dela é "indie", quando vemos nelas o mesmo padrão de trabalho e lucro das grandes gravadoras.

O deslumbrado, neste caso, é José Flávio Júnior, que havia feito sua choradeira pelo "funk carioca" e pelo tecnobrega, que por sinal simbolizam a tal "cultura da periferia" que outro jornalista, Marcelo Rezende - não é o policialesco e ex-Globo, mas outro que trabalha na Bravo - , glorificou em outro texto que, no caso, investe na glamourização da pobreza tão conhecido por nós.

Rezende evitou citar o "funk carioca", hoje muito criticado pela opinião pública (inspirou até mesmo a campanha pelos fones de ouvido), mas investiu em clichês como elogiar até mesmo os sucessos tocados todos os dias nas rádios, esquecendo que essas emissoras "populares" são muitas vezes controladas por poderosas oligarquias, aliadas do latifúndio e do conservadorismo político.

Mas em outros tempos a mesma Bravo havia exaltado o "funk carioca", sobretudo nos tempos do "fenômeno" Deise Tigrona, com direito a uma reportagem que usa e abusa dos clichês narrativos do New Journalism de Tom Wolfe e da Teoria das Mentalidades de Marc Bloch. Só que Bravo não é Realidade e o "funk carioca" não é a Tropicália.

Há outros textos, aparentemente corretos, mas que se inserem na gororoba retórica que a intelectualidade dominante desenvolve, defendendo a mercantilização da cultura brasileira com um discurso pós-moderno e pseudo-vanguardista, usando como pretextos "as novas mídias" e "os novos valores". Um discurso que, em 1994, encaixaria perfeitamente no programa do PSDB.

Ronaldo Lemos fez a introdução, reforçando esse discurso deslumbrado, feliz porque o "real" na cultura brasileira se mistura com o "virtual", bem de acordo de uma perspectiva intelectual que contraria, e muito, com o senso de desconfiômetro que anima os círculos intelectuais europeus, onde não há o menor medo de contestar fenômenos estabelecidos.

Aqui há a dependência de verbas estatais e de investimentos privados - sobretudo de multinacionais e principalmente de "fundações" estrangeiras financiadas pela CIA, fato visto com galhofa por esses mesmos intelectuais - e isso faz com que nossos "pensadores" da cultura troquem a capacidade de análise crítica das coisas pelo deslumbramento apoiado numa verborragia academicista.

O Brasil mergulha num processo de mercantilização da cultura que irá sufocar, a longo prazo, as manifestações artísticas autênticas, na medida em que se glorifica e glamouriza a mediocrização cultural, eleva-se a vaia pública como se fosse um atestado de reconhecimento artístico e mistura alhos com bugalhos além de equiparar os ricos barões do entretenimento em gente tão pobre quanto um engraxate de rua.

E, embora esse ponto de vista seja usado no proselitismo na mídia esquerdista e figuras ou instituições como Ronaldo Lemos e o Coletivo Fora do Eixo sejam paparicados pelas esquerdas medianas, ele aparece aqui livre, leve e solto num veículo da Editora Abril.

Pois é a mesma editora cuja edição recente de Veja havia publicado um texto grosseiro de Eurípedes Alcântara sobre Eric Hobsbawm, intitulado "Foi-se o Martelo", já que a revista fez violentos ataques ao falecido historiador.

Aqui não se vê uma diferença essencial entre um jornalista depreciar as personalidades de esquerda e um outro glorificar ídolos do brega-popularesco. Dá no mesmo, embora o primeiro adote um discurso "negativista" e outro um discurso mais "otimista". Isso porque ambos defendem o poderio do "deus mercado" de qualquer maneira. Apenas mudam a maneira de expressar essa defesa.

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