sábado, 13 de outubro de 2012

O VELHO DISCURSO DAS "NOVAS MÍDIAS"


Nas esquerdas medianas, há um discurso conhecido que superestima o poder transformador das "novas mídias".

Para esse discurso, as "novas mídias" são vistas como fator determinante em si para as transformações sócio-políticas da humanidade, como se algo revolucionário estivesse necessariamente ligado a essas novas tecnologias.

O discurso é atraente, altamente sedutor e quem adotá-lo em sua palestra seguramente arrancará aplausos entusiasmados e gritos de euforia. No entanto, o discurso é dotado dos seus mais diversos e graves equívocos.

Em primeiro lugar, porque ela superestima uma ideia que foi lançada há 50 anos pelo teórico da Comunicação Marshall McLuhan, que hoje soa muito controversa, a de que o meio é a mensagem. Analisando a tese de que um meio de comunicação não se define em si, mas pelas transformações que provoca na sociedade, Marshall, segundo seus adeptos, acabou prometendo o paraíso terrestre através da "aldeia global" de várias "tribos" se comunicando entre si, tecnologicamente interligadas.

O discurso, que havia sido moda nos anos da Contracultura norte-americana (1960-1969), com reflexos em outros países ao longo dos anos 60 e com leve repercussão no Brasil (1966-1972), voltou a ser evocado, com a devida atualização, através das transformações políticas e tecnológicas ocorridas entre 1989 e 1994.

Os "novos tempos", a "nova ordem mundial", foram anunciados na virada dos anos 80 para os 90 como uma nova era de transformações profundas na sociedade. De repente, pensou-se que uma revolução sem precedentes na humanidade passou a ocorrer através de uma junção de episódios como a queda do Muro de Berlim, a popularização da Internet e a globalização da economia.

O discurso tão atraente e sedutor, que gerou uma perspectiva por demais otimista, acabou ficando aquém das expectativas. O tão sonhado avanço social, político, cultural e econômico através das novas redes não foi além de pequenas transformações pontuais, como algumas facilidades que, de fato, foram obtidas pelas novas tecnologias ou pela mundialização da economia.

Mas aquela revolução social "sem precedentes", que prometia, aos olhos da esquerda mais débil, uma síntese entre a Revolução Francesa, a Revolução Cubana e a Contracultura em tinturas ciberpunks, essa de fato não aconteceu.

QUE "ESQUERDISMO"?

A bronca que aqui se faz à intelectualidade dominante é sobre que "esquerdismo" que elas defendem, um "socialismo" esquizofrênico, influenciado pelas pregações dos professores ligados ao PSDB, de cuja associação a hoje "esquerda média" tenta se desvencilhar a todo custo, ainda que de forma envergonhada.

Afinal, o discurso de "novas mídias" e "nova ordem mundial", essa coisificação das transformações sociais como se as novas tecnologias fossem o emissor, e não o meio, de qualquer mobilização social, cultural e política, é corroborado pelos mais diversos especialistas vinculados claramente à ideologia neoliberal que as "esquerdas médias" dizem abominar seriamente.

Um exemplo disso é o historiador Francis Fukuyama, que quando anunciou o chamado "fim da História", havia superestimado o papel de episódios como a queda do Muro de Berlim e a globalização econômica, sem observar que antigos problemas apenas dão lugar a novos problemas, na sociedade ainda complexa em que vivemos.

Não dava para prever a crise europeia - a União Europeia e, mais tarde, a implantação do Euro como moeda única de quase todos os países européus, eram vistos com o otimismo aparentemente inabalável de soluções tidas como infalíveis - nem o atentado ao World Trade Center, episódios surgidos depois da euforia dos anos 90.

É até gozado ver que intelectuais brasileiros que falam mal de Francis Fukuyama trabalham o mesmo discurso de "transformações sociais". Li o livro O Fim da História e o Último Homem e muitas ideias do historiador norte-americano encaixam no discurso "libertário" da intelectualidade etnocêntrica ou de militantes de organizações como o Coletivo Fora do Eixo.

Se autoproclamando "esquerdistas revolucionários", suas ideias estão muito mais próximas de Fukuyama do que de Ernesto Che Guevara. E a ideia de "novas mídias", como se acreditassem na twitterização do socialismo ou numa "primavera digital", acaba os colocando numa situação bem delicada.

Afinal, eles criam fantasias às custas de seus pontos de vista. E essas fantasias são desmentidas pela realidade, como o fato de que, na Internet brasileira, há uma demanda assustadoramente grande de jovens internautas reacionários, os chamados "troleiros" (trollers, em inglês), em muitos casos defendendo pontos de vista retrógrados vinculados à política e à grande mídia.

Isso sem falar que a tese das "novas mídias", da coisificação dos movimentos sociais em processos robóticos corresponde ao já gasto discurso da Informática, de cunho meramente tecnocrático, que em si não resolve a questão dos movimentos sociais. O velho discurso das "novas mídias" é tão anacrônico quanto o de que a globalização irá unir a humanidade numa multidão de aldeias hiperconectadas.

O próprio Noam Chomsky, renomado linguista e professor universitário, mas atuante cronista político dos nossos dias, adota uma postura muito cética quanto à globalização e vê o cenário político mundial como uma extensão de velhos interesses capitalistas, que não foram superados com os episódios de 1989-1990 nem com a chamada globalização na economia e na tecnologia.

O que devemos levar em conta é que existe uma diferença entre reconhecer as facilidades das novas tecnologias e entregar a elas o poder de transformação social. A tecnologia material, em si, não é o bem nem o mal e por isso não é capaz de causar grandes transformações sociais em si.

Até hoje, e talvez para sempre, são as tecnologias naturais da mente humana as únicas capazes de realizar as transformações sociais. Pouco importa se com o Twitter se poderá dizer muito com poucas palavras para o mundo inteiro. Pouco importam os e-mails, as redes sociais digitais e os fóruns. Se não tivermos a consciência mobilizatória, tudo isso será inútil.

E, infelizmente, é, pois as redes sociais, no Brasil, tornaram-se o reduto dos mais entusiasmados defensores do "estabelecido" previamente pela mídia e pela política dominantes. Há gente ingênua e gente reacionária, os primeiros acreditando em valores retrógrados, os segundos reagindo de forma violenta, como num bullying digital.

Daí que a intelectualidade dominante não precisa viajar para Nova York ou Davos para notar a falência do seu "novo" velho discurso. Basta ter uma conta no Facebook, Twitter, Instagram etc em sua própria casa.

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