segunda-feira, 1 de outubro de 2012

DJAVAN LANÇA NOVO DISCO. CADÊ AS RÁDIOS?


Para a intelectualidade dominante, a MPB só é "legal" quando pode ser cooptada pelo mercadão brega-popularesco.

Tentando isolar a ala mais sofisticada da MPB autêntica o máximo possível, a intelectualidade que, mesmo de formação neoliberal, faz proselitismo tanto na Globo, Folha e Caras quanto em Caros Amigos e Fórum, busca também afastar o restante da MPB autêntica para que, assim, a turma da Biscoito Fino (mas nem todos os seus contratados, diga-se de passagem) se reduza a um gueto "elitista" da música brasileira.

No entanto, sabemos que o apoio da intelectualidade para a MPB autêntica é tendencioso. Antes, atacava-se a MPB esquerdista de todo jeito, até Sérgio Ricardo, se aparecesse, "apanhava" da crítica musical. E atacava-se a Bossa Nova mais do que José Ramos Tinhorão.

A turma etnocêntrica só aceitava o Tropicalismo e seus derivados, como exceção à breguice dominante. Até que, nos últimos anos, precisa amaciar seu discurso para dar a impressão de que não são contra a MPB. Para justificar a "cultura de massa", até para futuras apropriações tendenciosas dos "ídolos populares", hoje se defendem artistas "malditos" da MPB autêntica ou a ala mais flexível da MPB sofisticada.

No entanto, isso não ajuda a MPB. Ajuda no mimetismo pedante dos ídolos brega-popularescos nos seus sucessivos discos ao vivo ou nos covers que ocupam boa parte de seus álbuns de estúdio, mas impede que a MPB autêntica alcance o grande público nas suas gravações originais.

Djavan é um exemplo. Ele era até uma figura com acesso relativamente fácil nas rádios, mas ultimamente anda restrito, quando muito, a rádios especializadas em MPB, que só existem em pouquíssimas capitais do país. Mas, de repente, a situação do músico alagoano radicado no Rio de Janeiro mudou completamente.

Com um vasto repertório de sucessos, ele virou, para o público mais rasteiro, um falso one-hit wonder, nome dado a cantores de um único sucesso em toda sua carreira. No caso, Djavan é "reconhecido" hoje apenas pela música "Oceano", enquanto outros sucessos autorais se "diluem" em regravações de ídolos brega-popularescos, principalmente do chamado "pagode romântico".

Djavan veio da geração de compositores e cantores dos anos 70, geração influenciada pelos ventos criativos dos anos 60. Como vários desses artistas, Djavan tem um estilo próprio, capaz de harmoniosamente assimilar influências de jazz fusion em vários momentos e, em outros, incorporar elementos da música de Dorival Caymmi.

Nos últimos anos, seu carisma e seu talento não adiantaram para ele ter mais acesso nas programações das rádios. Djavan nem dá mais qualquer sinal nas rádios "populares", a não ser pelos citados covers tendenciosamente gravados pelos "pagodeiros românticos" e cujo crédito de autoria é completamente ignorado pelo locutor que de modo imbecil conduz o cardápio musical do horário.

Antes, pelo menos, a MPB autêntica tinha um acesso maior nas rádios. Entre dois ou três sucessos popularescos, havia uma música de MPB tocando nas paradas de sucesso. Hoje somente em algumas rádios de pop adulto - cada vez mais apáticas, apesar do rótulo, bastante falso, de "rádios sofisticadas" - e nas raras rádios de MPB sintonizáveis no país.

E, o que é pior, aparentemente todo mundo "gosta" de MPB. Mas dá para perceber que a MPB sempre se encontra em plano secundário, como se fosse uma música estrangeira. A prioridade acaba sendo o brega-popularesco, que só "é também MPB" na imaginação fértil e demagoga dos intelectuais etnocêntricos.

Desse modo, a verdadeira música brasileira possui filtros que barram seu acesso ao grande público. Ou, pelo menos, dificultam esse acesso. E Djavan, um dos grandes cantores da nossa música, precisa do intermédio incômodo dos sambregas para que parte de seu vasto repertório seja ouvido pelo povo pobre. Que no entanto continua não tendo a menor ideia de quem é e o que faz Djavan.

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