domingo, 21 de outubro de 2012

"AVENIDA BRASIL", INTELECTUAIS E O PODERIO DA REDE GLOBO



Convenhamos uma coisa. Deve-se abandonar a visão ingênua de que o grande público é manipulado pelos cronistas políticos da imprensa.

O "povão" nem de longe se sente influenciado por eles. Para ele, Miriam Leitão soa muito rebuscada. Reinaldo Azevedo nem chega a ser lido, mesmo com exemplares da Veja jogados em consultórios, clínicas, barbearias etc. Arnaldo Jabor, então, fala com as paredes diante de um público que nem chega perto do "sofisticado" Jornal da Globo.

Quando muito, William Bonner estabelece seu poder de influência no grande público. Ele é, talvez, o único representante dos "urubólogos" com segura penetração no grande público, através de seu Jornal Nacional. De resto, são apenas patrícios querendo falar com seus pares, resmungando contra as transformações sociais ocorridas no nosso país.

O que influencia mais na manipulação do grande público é o entretenimento midiático e comercial dito "popular". Mas contestá-lo ainda é um grande tabu, mesmo na intelectualidade e nos setores medianos de esquerda.

Evidentemente, muitos intelectuais frequentam botequins, uns usam drogas, outros se embriagam e boa parte deles fuma. Eles também querem patrocínios para suas atividades acadêmicas, até mesmo de multinacionais, e pagam salários e encargos trabalhistas para empregadas domésticas que assistem à TV paga e ouvem rádio.

Daí um certo castramento na análise dos problemas nacionais, um certo retraimento que se mostrou evidente com o fenômeno de audiência Avenida Brasil, que atingiu um índice de audiência comparável a O Direito de Nascer, novela da TV Tupi de São Paulo levada ao ar em 1964, chegando mesmo a esvaziar as ruas das cidades brasileiras.

Não se contesta a "cultura de massa", no Brasil, porque ela representa, para parte de nossa intelectualidade, uma utopia de "evolução sócio-econômica" que os europeus não têm. Em nome do corporativismo intelectual, que em nome das verbas públicas e privadas não se critica o estabelecido, e de uma certa condescendência paternalista com o povo, apoia-se tudo o que parecer "popular".

A novela Avenida Brasil, da Rede Globo, admite-se, é uma ficção bem feita no sentido da dramaturgia. Mesmo com suas falhas, o enredo funcionou bem e o elenco foi impecável. Teve desde a beleza deslumbrante de Débora Falabella e seu cabelo de corte "joãozinho" até a figura agressivamente bonachona de José de Abreu, na verdade uma figura destacada nos meios progressistas.

No entanto, a novela, dentro do projeto ideológico de entretenimento da Globo, não foge à regra manipulativa da emissora. A chamada "classe C", trabalhada pela novela na carona dos relativos avanços sócio-econômicos da Era Lula, era trabalhada dentro de um estereótipo politicamente correto que a fazia mais próxima dos "pobres emancipados" e dos "novos ricos" da Era FHC.

É de praxe, por exemplo, a inclusão do "núcleo pobre" na novela, sempre associado à alegria e uma certa "auto-suficiência" para resolver os seus problemas. É uma visão que deslumbra os nossos intelectuais mais paternalistas, porque no espetáculo midiático, no qual eles foram educados, sobretudo quando eram crianças nos tempos da ditadura, o papel do povo pobre é ser este, de misturar resignação social com ingenuidade.

Esses intelectuais, embora tentem se julgar "anti-Rede Globo", em muitos momentos assinam embaixo no que a Globo veicula como "cultura popular". E assim reafirmam o poderio das Organizações Globo, sobretudo quando endossa gírias como "balada" (cortesia de Luciano Huck) e "galera" (cortesia de Fausto Silva), quando exalta o "funk carioca", quando "brinca" de odiar Galvão Bueno, mas compartilha de seu fanatismo ao futebol.

Essa intelectualidade até superestima o papel das novelas de "interpretação da realidade". O medo é que façam o mesmo com os reality shows, numa futura blindagem ao Big Brother Brasil. Para piorar, esses intelectuais, dotados de muita visibilidade, não veem diferença entre discurso científico e divagações textuais "pós-modernas", apesar de exigir dos outros a "objetividade científica" que eles mesmos não adotam.

Novelas são apenas entretenimento. Bastante válido, até. Mas elas não substituem a realidade, por mais que sejam influenciadas por elas. No entanto, no Brasil manipulado pela grande mídia, de tal forma que muitos nem percebem essa manipulação, faz sentido a realidade brasileira de hoje ser submetida à influência das novelas, sobretudo as "das nove", vistas pelas diversas camadas sociais.

É apenas a sobremesa de todo um processo de manipulação da grande mídia. Um problema que a intelectualidade brasileira, do contrário à europeia, ainda vê como "solução".

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