quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A QUEDA DO "AEMÃO DE FM" NO BRASIL E NA BAHIA


Nos resultados eleitorais para a prefeitura de Salvador, divulgados há poucos dias, se destacaram não apenas pela possibilidade do carlismo retornar ao poder na capital baiana, e nem pela ascensão de Nelson Pelegrino nas urnas soteropolitanas.

As eleições marcaram o fim do império midiático da "Aemização de FM", que é a adoção, na programação de rádio FM, de fórmulas desgastadas do rádio AM, como os chamados "programas de locutor" e as "jornadas esportivas", feitas pelos donos de rádio para manipularem a opinião pública.

Decaindo em todo o país, o "Aemão de FM" em Salvador tinha como principal astro o empresário Mário Kertèsz, antigo apadrinhado de Antônio Carlos Magalhães, e que havia, desde o final dos anos 90, se convertido em dublê de radiojornalista de sua própria rádio, a Metrópole FM, rádio surgida através de uma compra de veículos midiáticos de Salvador pelo dinheiro desviado dos cofres públicos.

Na primeira tentativa de voltar ao cenário político, Kertèsz não conseguiu sequer 10% dos votos, e como terceiro colocado no ranking, teve um humilhante índice de 30% a menos em relação ao segundo colocado, Nelson Pelegrino, do PT.

Para um político convertido em barão regional da grande mídia que é Mário Kertèsz, que se achava o Rei do Ibope e dono das esquerdas baianas - apesar de seu perfil ideológico ser claramente de direita - , sua performance nas urnas foi um termômetro para desmascarar a impopularidade que o pseudo-jornalista símbolo do tendenciosismo e do pedantismo da mídia baiana tem entre os baianos.

A Rádio Metrópole dificilmente esteve entre as dez emissoras FM mais ouvidas em Salvador nem entre o rádio em geral. Isso apesar de ser a emissora que mais ostenta sua sintonia nas ruas da Região Metropolitana de Salvador, já que seu principal marketing é a poluição sonora.

Kertèsz fez de tudo. Quando inaugurou a Metrópole - que antes era Rádio Cidade FM - , chegou a comprar parte da equipe da Rádio Sociedade AM, incluive o locutor esportivo Djalma Costa Lino, que não teve a mesma performance de sucesso na emissora AM. A Metrópole se comportava como uma emissora AM de terceira categoria, mas contou com um pesado esquema publicitário e um lobby que incluiu socialites e até professores universitários.

A Metrópole "requentou" a já desgastada fórmula do "Aemão de FM" em Salvador, resultado da politicagem das concessões politiqueiras orquestradas por Antônio Carlos Magalhães,  em 1987. Até 1995, a primeira geração do "Aemão de FM" tentou manipular a opinião pública com "programas de locutor" e "jornadas esportivas" dotadas do mais caricato populismo e de sérios erros de linguagem, de radialismo e até de jornalismo.

O desgaste se deu quando emissoras como a Salvador FM (do ruralista Marcos Medrado), Piatã FM, Transamérica Salvador (que chegou a lançar um clone de Gil Gomes, Estácio Alvarenga), Itaparica FM (então também de Kertèsz) e Bandeirantes Salvador passaram, com seu blablablá eletrônico, a fazerem oposição política à prefeita de Salvador Lídice da Matta, entre 1993 e 1996, por ela fazer parte da esquerda baiana.

PSEUDO-JORNALISMO

A segunda fase do "Aemão de FM" pegou carona quando o formato foi "requentado" em São Paulo, através de rádios como a Rede Transamérica, a Rádio Bandeirantes e a CBN. O "Aemão de FM" ganhou um verniz "jornalístico", e, em que pesem episódios como a Escola Base e o crime de Pimenta Neves, que mancharam o mainstream da grande imprensa, eram os anos em que o jornalismo exercia supremacia quase absoluta na opinião pública, se julgando acima dela e não a serviço da mesma.

Com isso, a Rádio Metrópole criou um novo modismo do "Aemão de FM", carregando dos pretextos de "informação" e "prestação de serviço". O "opinionismo" dos comentaristas era supervalorizado como se fosse a voz inconsciente do "cidadão", um estereótipo vago e politicamente correto que passou a dar lugar ao paradigma "povo" da fase anterior do "Aemão de FM".

Não era ainda a época da ascensão da blogosfera, e até a Folha de São Paulo tinha uma reputação quase divina. Professores universitários "compravam" sua visibilidade aparecendo para dar entrevistas nessas FMs. O mercado jornalístico era refém dessas emissoras. E Mário Kertèsz puxou a moda dos políticos que brincavam de radiojornalismo, recurso feito para camuflar a politicagem evidente.

Até o próprio Marcos Medrado, de ar claramente provinciano e incapaz de entender o que realmente é jornalismo, foi brincar de radiojornalismo na sua Salvador FM, arrumando redatores para fazer todo o trabalho por trás, a exemplo de Kertèsz, embora sem a esperteza e o pedantismo pseudo-intelectual deste.

TV E INTERNET

Com o crescimento da TV paga - que já começa a incomodar as rádios em Salvador, com os bares trocando seus aparelhos de rádio por TVs de plasma a exibir partidas de futebol - e da Internet, sobretudo a blogosfera e seu conteúdo mais dinâmico do que qualquer radiojornalismo, o "Aemão de FM" ensaia um desgaste muito rápido e preocupante.

Isso está tirando o sono dos gerentes de rádio FM e sobretudo os donos dessas rádios. Eles sonhavam que o rádio FM poderia ser uma síntese multimidiática a partir da acumulação de ouvintes de FM com a migração de ouvintes AM, e depois a articulação com a Internet, o jornal e a televisão, fato que nunca chegou a ocorrer.

O "FM-centrismo" se desgastou em ritmo mais acelerado que o rádio AM, que sofre uma morte lenta devido ao estrangulamento econômico e à ciranda de arrendamentos, sobretudo com seitas religiosas. O rádio FM, por sua vez, sente o gosto amargo e irônico de viver de forma mais rápida as dores do rádio AM, porque se as FMs queriam "surrar" o rádio AM, são no entanto trucidadas pela TV paga.

Tentativas de "modernizar" o "Aemão de FM" são feitas, como a criação de blogues de seus radialistas e a interação com a televisão e o jornal impresso além de adoção de vinhetas "espaciais" estilo Jovem Pan 2, para tentar recuperar a audiência. Não deu certo. Mesmo as rádios mais famosas, em São Paulo, não vão acima do 16º lugar do ranking de FMs e do 20º do ranking geral.

DECADÊNCIA MIDIÁTICA

A supremacia da imprensa sobre a opinião pública, a glamourização do jornalismo e seus pretensos "heróis" e a supervalorização das virtudes naturais da imprensa, tudo isso foi posto em xeque quando, nos últimos dez anos, comentaristas políticos se destacaram pelo seu reacionarismo.

Isso refletiu pelas performances de colunistas como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede, Merval Pereira, Bóris Casoy e outros, o que refletiu, no âmbito baiano, na figura de Mário Kertész. E esse reacionarismo não apenas envolveu a mídia abertamente reacionária, como Globo e Estadão no âmbito nacional e a Rede Bahia no caso baiano, mas também a chamada "mídia boazinha".

A Folha de São Paulo deixou cair a máscara de "boazinha", enquanto o Grupo Bandeirantes e a Isto É mostraram-se a cada dia conservadores, e o mesmo ocorreu com a Rádio Metrópole, famosa pela suposta receptividade à diversidade de opiniões. Depois que Mário Kertèsz, em 2008, atacou as esquerdas baianas e foi denunciado como aliado de dirigentes esportivos (denúncia que quase matou o apresentador, que sofreu ataque cardíaco), sua reputação não se tornou diferente da de um Bóris Casoy no âmbito nacional.

Com as recentes revelações de que Mário Kertèsz foi o "assassino" do Jornal da Bahia - ícone da imprensa de esquerda baiana - , algo feito na Internet já que os fundadores do JBa, João Falcão (falecido) e Teixeira Gomes, haviam minimizado em seus livros a culpa de Kertèsz por um acordo de visibilidade, a coisa mudou.

Kertèsz havia feito, sob encomenda de Antônio Carlos Magalhães, o mesmo que os Frias fizeram com o jornal Última Hora, se apropriando da marca para impedir a circulação do seu veículo, pelo menos, da maneira criativa e atuante como antes se fazia, pois o JBa nas mãos de Kertèsz sucumbiu a ser um jornaleco popularesco da pior espécie.

Fracassando na sua valentia pseudo-jornalística, que quase ludibriou a intelectualidade baiana e por pouco não seduziu o Observatório da Imprensa - que chegou a divulgar certas bravatas de Kertèsz com desafetos políticos, que gerou processos judiciais, um deles tirando a Rádio Metrópole do ar por um dia - , Kertèsz, que jurava "nunca voltar à vida política", viu seu fracasso confirmar-se ontem nas urnas soteropolitanas.

A resposta dos eleitores é reflexo do baixo carisma do astro-rei da Rádio Metrópole, como se os 9,43% registrados na figura acima fossem o reflexo da audiência da emissora. Afinal, Kertèsz tentava, com seu culto à personalidade, se confundir com a emissora, como se a rádio e seu dono fossem uma coisa só. O fracasso das urnas o recoloca no estúdio da rádio, mas será mais outro fracasso.

Afinal, não serão os postos de gasolina, as vans escolares, os táxis, botequins e portarias de prédios, com sua poluição sonora sobretudo durante as transmissões esportivas - com direito às irritantes vinhetas da Metrópole, com seus "pim-pim-pim" e "pi-piririm-pim-pim" - que irão recuperar o Ibope decadente da emissora.

Pelo contrário, vivemos em outros tempos e o "Aemão de FM", massacrado pela TV paga e pela Internet, mostra que os diretores de FM começam a admitir que a Frequência Modulada sofre hoje a agonia pior do que a que tentou impor para a Amplitude Modulada, na sua concorrência predatória.

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