quarta-feira, 3 de outubro de 2012

89 FM SAIRÁ DO AR EM SÃO PAULO E VIRAR FM EVANGÉLICA


A notícia em si não afeta muito a rotina radiofônica, mesmo de longe. Mas, sendo notícia, vamos lá.

Fortes rumores dão conta de que uma rede de FMs evangélicas, a Rede do Bem FM, que já tem um prefixo na Grande São Paulo, irá tomar conta do prefixo 89,1 mhz.

O prefixo corresponde, por enquanto, à rádio 89 FM, que desde 2006 era uma assumida rádio pop (mas lembrando uma versão atualizada da antecessora Pool FM).

A 89 FM, sabemos, é aquela rádio que aqueles marmanjos que ainda não tiraram fraldas - e que, por isso, acham que Guns N'Roses e Bon Jovi são "rock clássico", ignorando quase que completamente o verdadeiro rock clássico (a não ser que o Led Zeppelin apareça na trilha de um filme com Tom Cruise ou no próximo filme dos Mercenários) - conheciam como "A Rádio Rock" (fazemos questão de enfatizar as aspas).

Evidentemente, perto do que era a 97 Rock entre 1983 e 1990, ou mesmo a Brasil 2000 FM entre 1986 e 1994, a 89 FM era uma Barbie em FM. Ou talvez uma Madonna em forma de rádio. A 89 FM só foi boa entre 1985 e 1987, quando pelo menos seu formato se aproximava ao da Estácio FM carioca, meio de rock alternativo, meio de tecnopop, meio de soft rock.

Mas depois, entre 1988 e 2006, a coisa descarrilou aos poucos. Claro, os mais jovens, que acham Whitney Houston o máximo da sofisticação, Fernando Collor o máximo de estadista, Fausto Silva o máximo de comunicador e aceita qualquer rock farofa como se fosse "clássico do rock", vão achar a 89 FM o máximo de radialismo rock.

No entanto, a 89 FM quase sempre foi um simples vitrolão roqueiro, na melhor das hipóteses ou nos melhores momentos. Mas é covardia compará-la com a antiga 97 Rock dos áureos tempos, porque seria como comparar o Village People com os Rolling Stones. Imagine então comparar a 89 FM, mesmo nos melhores momentos, com a Fluminense FM de 1982-1985. Seria como comparar o NX Zero aos Mutantes.

Comecei a ficar chocado com a 89 FM quando, em 1990, no programa Matéria Prima da TV Cultura - apresentado por Serginho Groisman - , uma reportagem sobre a rádio 89, com um locutor em ação. O locutor fazia aquele estilo "alô dona de casa" que nada tinha a ver com rádio de rock.

Dificil as pessoas não se lembrarem do Gentil Soares da novela Cheias de Charme: "Alô, alô, Brasil!! Está no ar o programa do Gentil!". Quanta palhaçada. Uma cópia meio brega do Fernando Mansur da antiga Rádio Cidade (quando era pop) que anunciava Killing Joke, Ira!, Clash, Ramones e Lloyd Cole & The Commotions. Francamente, nada, nadica a ver!!

Mas isso era a 89 FM na "boa fase" dos anos 1988-1994, quando pelo menos a rádio parecia verossímil em alguns aspectos. Só que era a época mais ou menos do grunge, do "funk metal" e aí a mídia brasileira tentou um simulacro de "cultura udigrudi" que incluía no pacote muitas rádios de brega e de pop dançante que foram se fantasiar de "rádios rock" sem qualquer intimidade com o ramo.

Depois, quando a 89 FM radicalizou a deturpação do radialismo rock, a coisa piorou e gerou até aquela experiência fascistoide da Rádio Cidade do Rio de Janeiro, antes uma despretensiosa e inteligente rádio pop, depois uma paródia burra e arrogante de rádio de rock.

Aí veio a tal "Jovem Pan 2 com guitarras", de triste lembrança, mais preocupada em jogar programas de debates de futebol, besteirol, programas de jogos e entrevistas com celebridades que nada tinha a ver com o perfil rock. Falam que os Sobrinhos do Ataíde eram "rock'n'roll". Nada disso. Eles eram apenas humoristas, os Sobrinhos do Ataíde eram tão "roqueiros" quanto uma esponja de cozinha.

E o Zé Luiz? Aquele é locutor de rock? Se fosse assim, então os Backstreet Boys são um grupo de heavy metal!! O cara fazia aquele estilo Jovem Pan 2 escancarado, era o Luciano Huck da 89, que a essas alturas tinha como coordenador o Alexandre Hovoruski ("Horroruski" para os roqueiros autênticos), o mesmo cara que bolou aqueles CDs de poperó da JP2.

Bom, sabe-se a história da 89. Quer dizer, a história não-oficial porque oficialmente a 89 FM foi uma "genial e revolucionária rádio rock". Num país em que Collor foi o máximo de estadista, que ninguém precisa ler livros nem pensar para se dar bem na vida, e até o "funk carioca" é "genial". Claro, em terra de cego, quem tem um olho é rei. Faz parte.

A 89 FM foi o maior consulado dos posers no Brasil, foi uma escola de emos, responsável por toda uma deturpação da cultura rock feita no país. Tenho saudades dos tempos em que não precisava gostar de futebol para ser roqueiro. Bastava gostar de rock. Hoje é o inverso: "roqueiros" que curtem futebol e odeiam rock, a não ser aquela indigência poser-emo dos anos 90 para cá (não só os Restarts, mas os Bloodhound Gangs, Virguiloides, Ostheobaldos e outras baboseiras felizmente fracassadas).

Talvez a entrada de uma rádio evangélica possa fazer os roqueirinhos de boutique que tanto endeusaram a 89 FM pararem para pensar. Ou melhor, para começarem a pensar.

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