sexta-feira, 28 de setembro de 2012

SOM LIVRE E SEU PODERIO MIDIÁTICO NA MÚSICA


Certa vez, Pedro Alexandre Sanches afirmou, em entrevista, seu horror em saber que a gravadora de MPB autêntica, a Biscoito Fino, tem na sua participação acionária executivos de um banco privado, que sabemos ser o Banco Icatu, do setor de investimentos.

No entanto, Sanches ignora que a gravadora Som Livre, que contratou muitos dos "heróis" do colonista-paçoca, como Gaby Amarantos e Michel Teló, além de um Thiaguinho que "descobriu" Wilson Simonal há pouco tempo, tem a participação acionária de ninguém menos que os irmãos Marinho.

Sim, até o reino mineral sabe que as Organizações Globo são donas da Som Livre, que é só muita ingenuidade para tratar a gravadora como se fosse uma "gravadora independente". Surgida em 1969, a Som Livre pode até ter se inspirado nos hippies para adotar este nome, mas com o tempo a gravadora, que se alimentou no mercado de trilhas sonoras de novelas, tornou-se um paradigma do que é a indústria fonográfica brasileira.

Só por ser uma gravadora brasileira, a Som Livre não está fora do contexto do comercialismo que transforma as grandes gravadoras em "vilãs" do meio artístico. A diferença é que o mercado brasileiro possui caraterísticas próprias, como a estranha ênfase no lançamento de CDs e DVDs ao vivo, mas nem de longe isso significa uma ruptura com as regras mercantilistas ditadas pelas grandes gravadoras mundiais.

Pelo contrário, a Som Livre - cuja razão social havia sido SIGLA (Sistema Globo de Gravações Audiovisuais Ltda.) e hoje é Globo Comunicações e Participações S/A - atua como "alimentadora" do mercado fonográfico dominante, tanto em caráter nacional/internacional quanto em caráter regional. Em muitos momentos, a Som Livre lança discos de carreira em parceria com outras gravadoras, numa espécie de "pool" fonográfico.

A Som Livre "alimenta" o hit-parade veiculado no Brasil, através de canções nacionais e estrangeiras que precisam emplacar nas trilhas sonoras de novelas para virarem sucessos radiofônicos. É a alma do negócio. E, independente da qualidade musical, a Som Livre exerce seu poder comercial como qualquer gravadora estrangeira instalada no Brasil.

Ultimamente, a Som Livre também atua como "alimentadora" do mercado regional do brega-popularesco, estabelecendo parcerias com mercados regionais, seja para lançar ídolos esquecidos, seja para promover nacionalmente modismos regionais, como o arrocha baiano e o tecnobrega paraense.

E, é claro, a Som Livre não deixaria de estar na "receita do bolo" da aliança entre o "funk carioca" e as Organizações Globo. Pois é sabido que, enquanto o "funk carioca" mentia para os esquerdistas medianos ao dizer que "era discriminado pela grande mídia", ele estabeleceu verdadeiras parcerias contratuais nos mais variados veículos e programas ligados às Organizações Globo, até de forma bastante explícita.

Atualmente, a Som Livre canaliza os atuais sucessos do brega-popularesco, como as gerações pós-bregas do "sertanejo universitário" (como Michel Teló, Luan Santana, Jorge & Mateus), tecnobrega (Gaby Amarantos), axé-music (Cláudia Leitte), "funk carioca" (DJ Marlboro) e outros. E, curiosamente, existe até mesmo um setor "gospel" de cantores e conjuntos contratados pela Som Livre, a despeito da rivalidade entre a Globo e a Record de Edir Macedo, por sinal dono da Line Records.

Portanto, só mesmo desinformados, ingênuos ou aqueles que querem mesmo enganar a opinião pública para tratar a Som Livre como se fosse uma gravadora independente. Isso seria localizar, no âmbito cultural, as Organizações Globo num contexto de mídia alternativa que nada tem a ver com seus interesses e sua realidade.

A cultura não está fora do contexto sócio-político e midiático em que vivemos, e se as Organizações Globo exercem um poderio midiático estensivo ao âmbito político, no âmbito cultural esse poder não está ausente. E o comercialismo da Som Livre é parte integrante do projeto de poder da Globo, não pode ser vendido separadamente.

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