quarta-feira, 12 de setembro de 2012

POR QUE CINQUENTÕES BRASILEIROS COM ESPOSAS MAIS NOVAS EVITAM A INGLATERRA?


Empresários, executivos e profissionais liberais brasileiros nascidos nos anos 50 e que se casam com mulheres bem mais jovens são umas figuras. O comportamento deles dá até uma análise sociológica e semiológica interessante, até pela sisudez que eles representam, fora do contexto até mesmo de sua geração.

O que é nascer no Brasil dos anos 50? Simples. Nessa época o país saía de sua condição de país agrário, e vivia o conflito entre o nacionalismo desenvolvimentista e o entreguismo que deslumbrava as elites que viam nos EUA um país vitorioso no pós-guerra.

No rádio, haviam ainda marchinhas, sambas-canções, toadas, serestas. O Rio de Janeiro começava a sentir ameaçado com sua anunciada perda - prevista na Constituição de 1946 - do status de capital do Brasil para uma cidade ainda a ser construída (a partir de 1956) no Planalto Central.

A Bossa Nova ainda era um sonho de alguns músicos inspirados no cool jazz norte-americano e nem tinha este nome antes de 1957, anjo do famoso show de "samba-jazz" dos "bossa-novas" do Colégio Israelita-Brasileiro, no Rio.

A geração de homens que se tornaram empresários, profissionais liberais e executivos nascida nos anos 50 encontra uma realidade bem diferente da dos seus similares britânicos, que encontravam um Reino Unido retomando sua imponência, depois de se recuperar dos abalos da Segunda Guerra Mundial do qual saiu um dos vitoriosos.

Só para se ter uma ideia, a geração que fez o rock pré-Beatles, do começo dos anos 60, nasceu entre o final dos anos 30 e meio dos anos 40. Até os Beatles tinham sua fase pré-Beatles, incluindo até mesmo uma composição rara de George Harrison com John Lennon, "Cry For a Shadow", um simpático sarro com a banda mais popular daqueles idos de 1960-1961, The Shadows. E no rádio dos anos 50 da Grã-Bretanha se tocava sobretudo standards, easy listening e o embrião do rock britânico, o skiffle.

A turma que fez a chamada "invasão britânica" também veio mais ou menos dessa geração, mas incluiu gente nascida também depois de 1945. E a turma que fez o punk rock de 1976-1977, então, nasceu de 1945 até mais ou menos 1964 (isso contando as garagens com muitos meninotes formando bandas).

A comparação com a geração brasileira com os britânicos nascidos nos anos 50 é gritante - Malcolm Montgomery (nome britânico!) nasceu no mesmo ano de Joey Ramone, Almir Ghiaroni nasceu no mesmo ano de Adam Ant, Eduardo Menga em relação a David Thomas (Pere Ubu), Roberto Justus em relação a gente como Steve Jones (Sex Pistols) e Mick Jones (The Clash) - nenhum parentesco entre esses dois ingleses, vale lembrar - e agora William Crunfli, na foto ao lado da atriz de carrossel Adriana del Claro, é da idade de John Lydon, por exemplo.

Não que a gente queira que nossos sugar daddies brasileiros sejam punks, mas a comparação é gritante pelo background social que representam. Os nossos "coroas" born in the 50s foram impermeáveis até mesmo à frágil tradução da Contracultura brasileira de 1966-1968 e sua continuidade "marginal" do "desbunde" (a nossa psicodelia tardia de 1969-1978) e, o que é pior, destoam até mesmo dos homens de suas próprias gerações que não decidiram se trancar em escritórios ou consultórios.

Pois Malcolm Montgomery é levemente mais novo que Serginho Groisman, mais velho que todos os sugar daddies citados. Eduardo Menga tem a idade de Lulu Santos e é um ano mais novo que Evandro Mesquita. Se Almir Ghiaroni nasceu em 1954, na esquina do tempo nasceu, em 1956, Roger Rocha Moreira, do Ultraje a Rigor, que é da idade de William Crunfli. E Roberto Justus tem a idade de Kid Vinil e do idealizador da Fluminense FM, Luiz Antônio Mello.

Só esses detalhes mostram o quanto o comportamento "sofisticado" dos empresários, executivos e profissionais liberais é defesado até para o contexto de sua geração. Comportamento que é partilhado também por homens que não são sugar daddies, mas se destacam no colunismo social como o economista Walter Mundell, marido de Ana Paula Padrão, e Walter Zabari, vice-presidente da Rede Record, marido da atriz Angelina Muniz.

É aquela coisa. O primeiro cabelo grisalho faz o homem "de sucesso" passar a só usar sapatos de verniz no cotidiano, a só ouvir música lenta e a adotar apressadamente uma bagagem de conhecimentos mais antiga que sua idade pode sugerir, menos por uma identificação com o passado não vivido e mais por uma associação forçada a ele, talvez para impressionar antigos patrões e professores dos tempos da Faculdade.

Eles se comportam como se fossem o "rabo da geração" dos homens nascidos nos anos 30 e 40. Tentam dar a impressão de que conheceram a fundo a Lojas Murray (loja de discos e eletrodomésticos que havia no centro carioca e que, apesar do nome em plural, não tinha filiais) ou a Boate Vogue, aquela boate do Barão Von Stuckhart em Copacabana destruída num trágico incêndio.

Tentam nos fazer crer que ouviam na adolescência não o rockão ripongo que escutaram, mas os standards de Hollywood safra 1943-1952 e seu pedantismo tenta fazê-los tão "contemporâneos" quanto Millôr Fernandes e Norman Mailer, só para citar os mais modernos. E, quando alguém fala em nomes como Glenn Miller, o "coroa" nascido nos 50 solta logo um suspiro pedante: "Ah, Glenn Miller...", como se tivesse ido a alguma apresentação do músico e maestro desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial em 1944.

Tudo bem que eles possam se comportar assim, se o contexto permitisse. Mas eles estão casados com moças que viveram outras coisas, ouvindo rock brasileiro, vendo a MTV Brasil, e, como trintonas, estariam mais para uma visão atualizada das "Garôtas" de Alceu Penna do que das balzaquianas cantadas pelo sambista Miltinho.

Fica um quê de insatisfação. "Já que não posso ter uma mulher da minha idade, já que as que sobraram não são atraentes e me acham um imaturo, então vou pegar uma mulher mais jovem e me comportar como se fosse mais velho até do que eu mesmo", é o que sugerem esses homens para nós.

E nada como viagens para a Itália, sobretudo Roma, paradigma do que há de antigo e precioso na Europa, para afirmar esse comportamento, acrescido a um certo desprezo à cultura dos anos 80 apreciada por suas jovens esposas, mas que era sinônimo de "ralação" para os maridos, trintões e yuppies na época.

Por isso eles evitam a Inglaterra, onde os homens de sua geração são associados a um comportamento mais arrojado e rebelde. Se têm que viajar para Londres, o fazem sem qualquer alarde, quando muito só para mostrar aos amigos que foi para lá, sem tanto orgulho como se viajassem para Roma.

Eles preferem se espelhar num repertório caduco de Perry Como (o Pat Boone dos standards de Hollywood) do que numa única música de Leoni e Roberto Frejat, "moleques" um pouco mais novos (nascidos em 1961) do que os "sofisticados coroas" brasileiros.

Mal sabem esses senhores que essa "sofisticação" é apenas um mimetismo aos valores "elegantes" e "chiques" que eles aprenderam nos anos 70. E que só estavam em alta até 1975, quando seus contemporâneos ingleses chutaram o pau da barraca e deram um terceiro banho de "rejuvenescimento" comportamental da humanidade, depois dos hippies e dos roqueiros dos anos 50 (sim, o tempo em que os nossos "coroas" nasceram ou eram bebês).

Hoje os homens podem passear usando tênis e bermudão, quem tem mais de 55 anos não precisa se prostar com músicas lentas e ninguém é obrigado a expressar um pedantismo intelectual nas festinhas adultas dos fins de semana. A regra hoje é arejar a mente, sem se apegar por normas caducas de etiqueta que nossos "coroas" aprenderam quando eram calouros de faculdade há cerca de 40 anos.

Se estão casados com moças mais jovens, aprendam o que elas ouvem e apreciam. Vão ouvir um pouco de Rock Brasil. Deixem de falar de política para agradar antigos professores de faculdade ou ex-patrões. Se fossem pesquisadores, pelo menos havia razão de algum apego ao que é mais antigo, mas quase sempre isso não passa de um pseudo-saudosismo para simular maturidade.

Relaxem, homens. Não adianta a maturidade forçada, a elegância obsessiva. Não é à toa que Serginho Groisman é mais velho do que todos eles. Mas que, espiritualmente, amadurece em paz com a juventude de espírito. Deixemos a juventude amadurecer também.

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