segunda-feira, 10 de setembro de 2012

JÁ CHEGOU O REVIVAL DOS ANOS 90


O que se temia, há dez anos, se concretizou. Agora temos o revival dos anos 90, a década mais vazia do século XX.

O revival é promovido com entusiasmo pela grande mídia, porque foi uma época em que seus executivos detinham a supremacia no gosto cultural de seus consumidores.

Fenômenos recentes como os filmes Rock Of Ages e Os Mercenários 2, os grupos de garotos como o One Direction, a cantora Lady Gaga, o "sertanejo universitário", as "boazudas" e o "funk carioca" são alguns exemplos de como a mediocridade dos anos 90 se consolidou em fenômenos atuais.

Como numa verdadeira pegadinha - não a do saudoso Don Rossé Cavaca, mas aquela bem "anos 90", tipo Sérgio Mallandro - , o revival dos anos 90 pega desprevenido quem acha que tudo que é antigo é genial, como se estrume quando fica velho se transforma em ouro.

Os anos 90 foram uma década marcada pela mediocridade quase absoluta, na qual pouca coisa escapava. Tínhamos coisas boas nos anos 90, mas elas eram apenas uma minoria admirável, uma ilha de criatividade e coerência diante de um mar de frivolidades e grosserias.

Mas os anos 90 viciaram muita gente que nasceu na década anterior e foi educada, através de babás inexperientes, pelo pior da televisão aberta. E que fez com que muitos achassem preciosidade coisas que nem são tão legais assim, ou talvez não mereçam essa adoração toda, que beira à cegueira.

Algumas coisas são bem sintomáticas. Vejamos:

- Se você acha Michael Jackson, Whitney Houston, Michael Bolton e Bee Gees o supra-sumo da música mais sofisticada (na boa, eles são, quando muito, apenas um razoável pop comercial estrangeiro), isso é um hábito bem "anos 90";

- Se você acha natural que, no período vespertino, com crianças na sala e tudo, haja programas policialescos ou de baixarias glúteas na televisão aberta, isso é uma impressão bem "anos 90";

- Se você acha que o breganejo de nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Daniel (ex-João Paulo & Daniel), Leonardo (ex-Leandro & Leonardo), é sinônimo de "música caipira de raiz", é sinal que você se contagiou com o "espírito dos anos 90";

- Se você acha que filme de qualidade é aquele que mostra dramalhões piegas ou, quando é de ação, mostra muitos efeitos especiais, com os mocinhos voando diante de uma explosão, você pegou o "espírito dos anos 90";

- Se você acha que o metal farofa (Guns N'Roses, Bon Jovi, Poison, Mötley Crüe) é o seu paradigma de rock clássico, então você entrou no clima medíiocre-pragmático dos "anos 90";

- Se você acha que até Trem da Alegria e Balão Mágico são cult e Michael Sullivan & Paulo Massadas são a "sofisticação na MPB", você é bem "anos 90";

- Se você quer que uma rádio de rock toque "de tudo" - reggae, hip-hop, música eletrônica, soul e até algum brega - , e quase nada de rock, você está "bem anos 90";

- Se você valoriza a coisa mais pelo que ela deixa de ser de ruim do que por alguma coisa melhor que seja, você está "bem anos 90";

- Se você acha que boa literatura são livros de auto-ajuda e grandes cantores são aqueles que conseguem berrar e fazer malabarismos vocais - desses que transformam monossílabos em decassílabos (qualquer dúvida procure o professor de Português da escola mais próxima) - , você é um típico sujeito "anos 90";

- Se você se irrita quando alguém contesta seus ídolos medíocres, você também age tipo "anos 90";

- Da mesma forma, quando alguém fala que os jovens se tornaram mais alienados e conservadores nos anos 90 e você responde, mesmo educadamente, que "não é bem assim", querendo negar a hipótese, você também está no "espírito dos anos 90".

Há outras coisas, como a reabilitação de corruptos como Fernando Collor, Paulo Maluf e, em território baiano, Mário Kertèsz, ou na credulidade nas reportagens pseudo-investigativas da decadente revista Veja (quando você é contra a corrupção política), ou o endeusamento de mulheres apenas por conta do "corpão turbinado", ou a glamourização das pessoas "sem conteúdo" através do Big Brother Brasil, que caraterizam bem a herança da mediocridade dos anos 90.

Da mesma forma, é bem "anos 90" ver a década de 1990 se encerrar sem que alguém levasse em conta o seu fim. Era fim de década, próximo ao fim de século e de milênio, mas ninguém na imprensa da época (1999-2000) fez qualquer menção sobre o fim dos anos 90, como se a década seguisse sua natural prorrogação nos anos seguintes. E seguiu.

Se temos a choradeira intelectual pelo brega, a trolagem de internautas reacionários e grotescos, o travestimento de valores retrógrados, como o machismo, em roupagens pseudo-modernas, e a mediocridade cultural tomando até mesmo os espaços antes remanescentes de cultura de qualidade, é porque essa herança da "década que ainda não acabou (mas já devia ter terminado faz tempo" se consolidou nos últimos anos.

E haja uma nostalgia imbecilizada, cafona, de coisas que nem deveriam causar saudade. Um saudosismo vago, que só serve para reafirmar a mesma mesmice, de um presente que, há mais de 20 anos, se recusava a ser passado, mas, já que assim se tornou, agora se vende como pretensa preciosidade.

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