sábado, 22 de setembro de 2012

ERROS DE UMA FESTA ANOS 60


Reviver o passado nem sempre está de acordo com o que realmente ele foi. E se num passado recente como os anos 80 as distorções saudosistas se tornam gritantes, imagine então o que os mais jovens pensam ser "os anos 60".

Vamos supor que uma turminha vá fazer suas festas "anos 60" e os organizadores, confusos, juntem uma salada de referências e procedimentos que distorcem mais do que informam sobre o que realmente ocorreu no passado.

O revival dos anos 60, no Brasil, foi bastante superficial. Houve, nos anos 70, o revival midiático da novela Estúpido Cupido, da Rede Globo, que misturava "alhos com bugalhos", numa visão provinciana dos anos 60 que na verdade era um prolongamento pálido dos anos 50.

Para quem se guiasse desse revival - que era apenas um repertório de referencias contraditórias que constituiu nas primeiras fases da Jovem Guarda, incluindo a fase pré-Jovem Guarda (não tinha esse nome, fruto de um "batismo" do publicitário Carlito Maia, em 1964) de 1959-1963, da mesma forma que o "revival dos anos 80" é apenas "tudo o que passou na TV da infância de alguém nos anos 80" - , a confusão é inevitável, por razões muito óbvias.

Aliás, falando nos anos 80, a revisão histórica do Brasil, depois do fim da ditadura, fez uma relembrança menos caricata dos anos 60, embora supervalorizasse o período 1967-1968, uma vez que a maioria dos seus testemunhos vinha de políticos, acadêmicos e jornalistas que haviam sido líderes estudantis nesse período.

Mas, com a desinformação televisiva dos anos 90 para cá, a coisa piorou e o que era mais confuso ficou ainda mais confuso, repetitivo, viciado. E quem que fosse decidir por organizar uma festa tipo anos 60 que tenha o padrão informativo de péssimos programas televisivos das tardes da TV aberta, é sujeito a vícios que se tornam bastante comuns. Vamos listá-los:

1) CONFUNDIR ANOS 50 COM ANOS 60 - É muito comum quem organiza as festas dos anos 60 usarem figurinos dos anos 50. É certo que boa parte da moda e dos modismos dos anos 50 já prosseguia firme até mais ou menos 1962 e 1963, mas convém não exagerar. Isso causa sérios incômodos, como ter que colocar The Platters sempre numa festa dos anos 60. Corre até mesmo uma piada que a juventude brasileira "viajava" de LSD ao com de "Smoke Gets In Your Eyes".

2) CONFUNDIR AS DUAS METADES DOS ANOS 60 - A década de 60 tem por peculiaridade as diferenças básicas entre uma metade, entre 1960 e 1964, e outra, entre 1965 e 1969. A primeira metade era mais glamour, a outra mais engajamento. Mas cada ano, em si, já é diferenciado. Portanto, não há como agir como certos bobos alegres da Internet, que quando vem uma foto de "meados dos anos 60" sem qualquer discernimento nem se preocupam em saber o ano desta foto. Para eles, não há diferença entre Chubby Checker e os Stooges.

3) REDUZIR O SOM DOS PRIMÓRDIOS DO ROCK'N'ROLL AO JIVE BUNNY - Um hábito bastante preguiçoso é pegar aquela gravação de "That's What I Like", do grupo de DJs Jive Bunny, como desculpa para não garimpar os sucessos da primeira fase do rock norte-americano. Em vez de procurar por músicas originais como "Chantilly Lace", de Big Bopper (cantor que morreu num acidente aéreo com Buddy Holly e Richie Valens em 1959 e do qual foi tirado o sample que deu título à colagem), se acomoada com esse monte de colagens. Em tempo: apesar de ser um grupo da fase pré-Beatles, os Ventures aparecem com uma música de 1968, tema do famoso seriado Hawaii 5-0.

4) USAR A VERSÃO DE LOS LOBOS PARA LA BAMBA - Outro vício da falta de garimpagem. O grupo Los Lobos é uma boa banda, mas a versão deles para a música folclórica eternizada por Richie Valens cansou de tanta execução em rádio. E coitada da banda norte-americana, que só é conhecida no Brasil com essa versão. No entanto, Los Lobos não se insere neste contexto, porque a banda surgiu em 1973 e a gravação de "La Bamba" é de 1987, por isso deixem de preguiça e vão procurar pela versão de Richie Valens, que tem até no YouTube.

5) USAR REGRAVAÇÕES DA JOVEM GUARDA/PRÉ-JOVEM GUARDA - Em certos casos, nem as versões originais são disponíveis no YouTube como um sucesso de Demétrius de 1961, da fase pré-Jovem Guarda. E para uma juventude que prefere cultuar os retardatários (Odair José, Paulo Sérgio) do que os pioneiros (Sérgio Murilo, Ronnie Cord), fica complicado pedir para que o pessoal garimpe os sucessos da Jovem Guarda e dê preferência às versões originais, e não as regravações feitas sobretudo nos anos 80 e 90. A preguiça acaba sendo justificada pela dificuldade, e isso é muito mal.

6) A FALTA DE CRITÉRIO - A festa dos anos 60 deveria verificar se há um critério que se volta para a segunda metade ou para a primeira metade. Se nem o psicodelismo e a cultura hippie podem se confundir - os primeiros eram elegantes mas usavam roupas coloridas, os outros adotavam roupas simplórias - , quanto mais a moda da primeira metade com a da segunda. Será que vai se misturar Doors com Platters? E Pat Boone, só porque como apresentador de TV, entrevistou um Syd Barrett chapado, poderá ser tocado junto aos primeiros clássicos do Pink Floyd? Vale colocar Elvis Presley em qualquer contexto? Certamente, não, a pesquisa é necessária.

É, portanto, prioridade que quem queira realizar festas nostálgicas dos anos 60, que deixe a comodidade do "vale qualquer coisa" de lado e pesquise um pouco. Isso não é frescura nem bobagem, porque a pesquisa pode soar até divertida e instigante. Talvez seja melhor não haver uma "festa anos 60", mas vários tipos de "festa anos 60", com algum critério a ser escolhido.

Pesquisar pode parecer difícil, mas no fundo soa bastante divertido. Se aproximar à fidelidade da época torna-se instigante, desafiador e mais interessante. No fim, a pesquisa já se tornará também uma outra festa.

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