sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A QUESTÃO DO MACHISMO COMPORTAMENTAL


Infelizmente, o machismo brasileiro, apesar de decadente, conseguiu, em certos aspectos, se adaptar às leves mudanças ocorridas na sociedade brasileira, baseado no secular cacoete do Brasil adotar mudanças mantendo estruturas de tendências já formalmente superadas.

Temos, por um lado, a emancipação feminina que, em parte, é "bancada" pela associação conjugal a um empresário, profissional liberal ou executivo dotado ainda daqueles clichês de etiqueta e sisudez que os tornam profissionalmente relevantes, mas embaraçados e sem espontaneidade no momento de diversão.

Por outro, temos "musas populares" que, apesar da aparente emancipação financeira, correspondem a expressões "sensuais" defendidas pela ideologia machista, limitadas elas a se comportarem como meros "objetos" sexuais.

Embora os primeiros e as segundas não se cruzem, são como os dois lados de uma mesma moeda. Tanto os homens dotados de liderança profissional e sisudez no comportamento quanto as mulheres que só ficam "mostrando demais" se limitam apenas a desempenhar papéis pré-determinados, diretamente relacionados a seus "ofícios".

Quando vão além, o pedantismo ou a ignorância são notáveis. Empresários que tentam forjar uma sofisticação cultural que não condiz naturalmente a eles, é feito mais para impressionar os outros - sobretudo antigos patrões - do que por uma natural identificação com o passado. Musas que tentam forjar uma modernidade de atitude que não condiz naturalmente a elas, feito mais pelas circunstâncias do mercado do que pela natural identificação com alguma referência arrojada mas conhecida.

A resistência desses dois tipos "opostos" mas equivalentes indica o quanto o Brasil costuma camuflar valores antiquados na assimilação parcial de novidades de fora. Os executivos sisudos não são tão sofisticados quanto tentam ser e as "boazudas" não são tão "modernosas" como tentam ser.

O machismo comportamental resiste. Tanto na supremacia do homem "líder", "bem-sucedido" e "decidido". Do empresário, executivo e profissional liberal cuja obsessão é usar sapatos de verniz e camisetas de gola no máximo de situações informais possível, como uma mera propaganda de seu sucesso profissional. E tanto, também na mulher "corpulenta", "sensual" e "cobiçada", cuja obsessão é usar roupas "sensuais" no máximo de ocasiões possível.

Esses dois tipos surgem para tentar neutralizar a emancipação social de homens e mulheres que não se sentem identificados com os valores remanescentes do machismo em declínio. E as mulheres realmente independentes acabam, pela força da mídia, sendo aconselhadas a se casarem com empresários, economistas, advogados, médicos, engenheiros, diretores de TV etc.

Em contrapartida, homens que não se tornam "líderes" ou "diretores de alguma coisa" acabam sendo "aconselhados", até pelos troleiros - espécie de"Comando de Caça aos Comunistas" das redes sociais - , a cultuar mulheres vulgares, como se ser "cara legal" fosse um defeito que seria "sanado" com mulheres "popularmente desejadas" (pelo menos sob a ótica da imprensa jagunça, tipo Meia Hora, Supernotícia etc).

Ou seja, tais homens sofrem desilusões na vida, leem livros, expressam uma visão analítica da sociedade, desenvolvem bons referenciais culturais de forma espontânea, para tudo terminar no assédio ou na associação forçada a moças que não se interessam, nem de longe, a compartilhar desses referenciais culturais, até porque expressam o grotesco e o cafona.

Em outras palavras, duro é um rapaz que aprecia nomes como Legião Urbana, Durutti Column, Zé Rodrix, vê o cinema de Luís Buñuel, lê livros de Noam Chomsky e assiste ao Big Bang Theory na televisão ser "obrigado" pelos "flanelinhas" cibernéticos a cultuar musas que só se preocupam em se "mostrarem demais" em boates qualquer nota que surgirem na frente.

Mas as moças que querem ser emancipadas e independentes também sofrem. Elas enfrentam limitações por conta do estilo "sofisticado" de seus maridos, que elas precisam ter também seus "momentos de solteira", não, evidentemente, com algum amante (pelo menos, em tese), mas aparecendo sozinhas em passeios ou certas situações formais que não exigem a presença marital, e geralmente no convívio com amigas.

Neste sentido, os homens que seguem os valores remanescentes do machismo são bem sucedidos. Eles conseguem se casar e ter mulheres atraentes. Já as mulheres, não, até porque elas são usadas profissionalmente para forjar também sua "emancipação".

Dessa forma, o mercado impõe à maioria das "boazudas" um celibato estranho, levemente interrompido por namoricos de três semanas, casamentos de três meses, paqueras de poucos minutos, ou longas relações amorosas facilmente rompidas, tudo para forjar notícia feito um fogo de palha.

Elas precisam dar a falsa impressão de que são "independentes", até porque a sombra de algum namorado, noivo ou marido possa intimidar seus fãs, embora várias delas tenham que esconder mesmo a condição afetiva, como várias funqueiras que, falsas solteiras, escondem suas condições de casadas.

São cenários diferentes, mas que mostram a mania do Brasil por transições. Não se rompe com o machismo, apenas o suaviza através de homens "líderes" que tentam minimizar a independência de mulheres inteligentes e batalhadoras através do casamento ou do namoro. Ou através de mulheres que, até por servirem ao entretenimento machista, são "dispensadas" de viverem, pelo menos simbolicamente, associadas a maridos, noivos ou namorados.

Com tudo isso, o machismo brasileiro, em vez de ser definitivamente extinto, apenas morre aos poucos para não assustar a machistada em geral. Até porque muitos machistas, apesar de insensíveis, possuem coração biologicamente frágil, altamente sujeito a um enfarte fulminante.

Nenhum comentário: