sábado, 1 de setembro de 2012

A GÍRIA "BALADA" FICOU BREGA. E "GALERA" FICOU INÚTIL


A gíria "balada", de propriedade intelectual de Luciano Huck - foi ele seu maior divulgador - , foi o recurso da velha grande mídia para testar seu controle sobre o público juvenil.

Gíria surgida no submundo da vida clubber - como havia citado um internauta que me escreveu para o blogue O Kylocyclo - , ela foi apropriada pela Jovem Pan 2 e pelo apresentador Luciano Huck para ser "a gíria das gírias".

Evidentemente, a intenção de se criar uma gíria "acima dos tempos e das 'tribos'" foi por água abaixo, já que o termo "balada" tornou-se ridículo dentro do empobrecimento do vocabulário juvenil.

Embora oficialmente a gíria "balada" tenha servido para designar uma forma brasileira e um tanto brega de rave - típica festa noturna lançada pelo Reino Unido, em 1988 - , ela era usada até mesmo para uma simples reunião de pessoas  em um bar, durante a noite. Chegou-se a esse ponto do ridiculamente aleatório.

Foi o teste usado pelos barões da grande mídia dentro da perspectiva do "vocabulário de poder" descrito por Robert Fisk para o caso da imprensa norte-americana, dentro dos assuntos geopolíticos. E, como o Brasil ainda se encontra em posição semi-marginal na geopolítica mundial - quando muito, o Brasil faz o papel de "quintal" do G-8, o grupo dos países mais industrializados do planeta - , o "vocabulário de poder" foi aplicado no ramo do entretenimento, para dar a impressão de uma atitude "apolítica" e "sem ideologias".

"GALERA" DISSO E DAQUILO

Testou-se também a generalização da gíria "galera", originalmente uma gíria que surfistas tomaram emprestado dos hippies, que tomaram emprestado dos futebolistas, que tomaram emprestado dos marinheiros. Aí tentou-se abolir palavras como "família", "equipe", "turma", "classe", e qualquer agrupamento, substituindo todos eles pela palavra "galera".

A medida - que inutiliza o nosso esforço, na infância, de decorar os coletivos, nas aulas de Português, num verdadeiro atentado à gramática - , em vez de simplificar, acaba complicando. Em vez de se dizer o coletivo correspondente, com o uso do termo "galera" a pessoa teve que, para não complicar demais, acrescentar ao termo o lugar que define que "galera" é essa.

Por exemplo. Em vez de falar "família', fala-se "a galera lá de casa". Em vez de falar "turma", fala-se "a galera lá da rua" ou "a galera lá da escola", conforme o contexto. Se for "equipe", fala-se "a galera lá do trabalho", "a galera da TV", "a galera do estúdio". Na verdade, ficou bem mais complicado.

Como se não bastasse o uso maior da saliva para pronunciar tantos "l" - "galera" e "balada" - e o risco de pronunciar cacófatos, como o termo "vou pra balada c'a galera", a tentativa de simplificar o vocabulário acaba complicando e empobrecendo ao mesmo tempo. Ficou mais banal, mais preguiçoso e nem por isso mais moderno.

Afinal, nos países de língua inglesa, nenhum jovem passou a trocar o "I'm going to the party with my friends" ("Vou para a festa com meus amigos") ou o "I'll spend the night with my pals" ("Vou passar a noite com meus colegas") pelo "I'm going to the ballad with my crew" ("Vou pra balada com a galera"). E quem tentasse acharia patético.

Mas no Brasil se ser imbecil é a regra na mídia, quem discordar ganha uma trolagem de presente, cortesia dos Reinaldos Azevedos do amanhã, para os quais o estabelecido pela mídia no entretenimento é a única lei social a ser seguida.

USO DA GÍRIA "BALADA" NÃO SE TORNOU UNIVERSAL

 O esforço da grande mídia em transformar a "balada" numa espécie de "gíria do III Reich", de carro-chefe de uma "moderna gramática" ensinada não pelas escolas, mas pela velha grande mídia, não deu certo. No meio do caminho, houve gente que estranhasse as coisas, por diversos motivos.

Primeiro, porque não existe uma gíria que esteja acima dos tempos e dos grupos sociais. Uma gíria nasce, cresce e morre conforme o contexto social. Chegou-se ao ridículo da gíria "balada" ter seu próprio esquema de marketing, ser empurrada até mesmo em noticiários "sérios" da televisão ou da imprensa escrita, na tentativa de atingir até mesmo o público mais adulto.

Segundo, porque estimulava a preguiça gramatical já habitual entre muitos jovens brasileiros, que já escrevem errado nos computadores e, emburrecidos, se acham "inteligentes" por nada, o que é uma burrice pior ainda, porque já não é mais ignorância e sim estupidez. E também não torna a fala ou a escrita mais bonitas.

 Sim, porque existe uma grande diferença em dizer e escrever "vou para uma festa com meus amigos", "vivo com minha família em minha casa", "trabalho no estúdio com minha equipe" do que em dizer e escrever "vou para a balada com a galera", "vivo com a galera lá de casa" e "trabalho com a galera lá do estúdio". O coloquialismo forçado, aliás, das gírias "balada" e "galera" criou algo tão forçado e, de certa forma, formal, dentro do contexto midiático atual.

Virou um parnasianismo às avessas, da rigidez "informal" (que expressa, na verdade, um formalismo às avessas, mas bastante rigoroso), do coloquialismo obrigatório que nada teve de coloquial. Não era mais espontâneo, se você era jovem tinha que substituir "festa" e "boate" por "balada", "família" e "turma" por "galera", e se alguém achava que isso faria qualquer um mais moderno, está enganado.

Afinal, as duas gírias acabaram, sim, escondendo os instintos mais reacionários de boa parte dos jovens. Tive um incidente terrível no Orkut só porque questionei a gíria "balada", que era a "máscara" usada para jovens ultrareacionários parecerem modernos. Escondem-se ideias retrógradas com vocabulários "modernos". Tive até que cancelar minha primeira conta diante de ameaças, em janeiro de 2007.

O uso não se tornou universal, apesar da insistência da grande mídia. Empurrou-se as duas gírias até para punks e headbangers mais jovens, sem muito êxito (estes haviam de receber bronca dos amigos mais velhos) e ficou patético pessoas de 30, 35 anos falarem em "tava na balada c'a galera", com cacófato e tudo.

BANALIZAÇÃO

O uso das gírias "balada" e "galera" acabou indo por água abaixo quando passou-se a criticar os problemas resultantes da vida noturna, sobretudo em incidentes policiais, como apreensão de drogas e violência. Só isso fazia com que as gírias, associadas a esse estilo de vida, perdessem sua força totalitária, sobretudo "balada", que seria a "gíria do III Reich", destinada a ultrapassar milênios na história da humanidade.

Além disso, a princípio certas modelos brasileiras usavam e abusavam dessas gírias, até que fenômenos como a agência Victoria's Secret, com suas modelos estrangeiras continuando a falar "I go to the party with my friends" - sem falar que um sucesso do pop eletrônico, do projeto Groove Armada, se chama "My Friends" e não "My Crew" (lê-se "mai cru") - , mudaram completamente a situação.

Desde então nenhum ator ou atriz passava a cuspir saliva para pronunciar aberta e obsessivamente essas gírias. Mas elas continuavam valendo para a "multidão comum" dos internautas que escrevem errado e vão atrás do estabelecido pela mídia do entretenimento sem verificar, deixando o raciocínio para coisas "mais importantes" como saber a diferença entre o sabor da cerveja Antarctica  e o da Brahma Chopp.

A banalização se deu pelo fato de haver, no Brasil, um arremedo tardio de cultura clubber - em moda no país enquanto se desgastava na Europa e nos EUA, conforme atestava a imprensa estrangeira - , que se estendia para o lazer brega-popularesco, sobretudo na axé-music e no dito "sertanejo".

Aliás, o uso da gíria "balada" no chamado "sertanejo pegação" foi o estopim para a bregalização da expressão, já banalizada como gíria da mídia fofoqueira e de celebridades. "Balada" ficou associado a uma versão brega de rave, como já descrevemos, e símbolo de um "ideal de vida" vazio, limitado à curtição, ao narcisismo e à libertinagem mais irresponsável.

Juntando isso à citação da referida gíria através de nomes como Luan Santana, Michel Teló, Gusttavo Lima e João Lucas & Marcelo, aí é que a "gíria do III Reich", que estaria acima dos tempos e dos grupos sociais, caiu de vez.

Afinal, a gíria "balada", em vez de se destinar a "todas as tribos", ficou associada apenas a jovens viciados em festas noturnas, sem qualquer coisa importante para fazer. E, vinculada a tolices breganejas como "tche-tchererê-tchê-tchê", "eu quero tchu, eu quero tchá" e "delícia, delícia, assim você me mata", a gíria "balada" encontra seu inferno astral nesse contexto farrista.

E a gíria "galera", então, de tão banal e tão pobre gramaticalmente - seria um retrocesso substituirmos tantas palavras por uma só, complicando mais a retórica - , tornou-se inútil e associada também a jovens que escrevem e falam errado. Daí que voltou, com toda a força, o uso das "velhas" palavras "família", "turma" e outras, que estavam ameaçadas pela palavra "galera", porque o uso mais plural e diversificado demonstra maior inteligência e bom senso.

Enquanto isso, a outra palavra "balada", aquela que significa música lenta, história dramática ou bater de sinos, continua sobrevivendo e retomou seu voo de fênix porque esses significados sempre estiveram, sim, acima do tempo e das tribos. Porque eram significados construídos não pela imposição midiática e sim pelas realidades sociais vividas em outros tempos.

Resta o consolo de que a gíria "balada" e sua parceira "galera" fizeram seu "passeio" pelos vários veículos da mídia, dia após dia, com muita insistência. E continuam sendo usadas, não mais no sentido de "expressões acima dos tempos e das tribos".

E só pelo uso frequente da gíria "balada", se houvesse a cobrança por parte de Luciano Huck pelos direitos autorais - ele é o divulgador maior da gíria, teria o direito da patente - , ele se tornaria um homem muito mais rico que seu amigo Eike Batista, o maior magnata do Brasil.

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