segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"PAGODÃO" BAIANO EM MAIS UMA BAIXARIA


Há 16 anos, o professor da UFBA, historiador e sociólogo Milton Moura, havia defendido os grupos de "pagodão" baiano no seu artigo "Esses pagodes impertinentes...", numa edição da revista acadêmica Textos em Comunicação da referida universidade.

Apesar de haver um conselho editorial composto das mais diversas universidades, o artigo de Moura pouco tem de científico, com uma linguagem um tanto jocosa e cheia de inverdades - como medir a criatividade dos conjuntos pela pressa de gravarem discos - , além de usar o termo "sofisticado", associado à MPB de qualidade, de forma um tanto pejorativa em contraposição ao "popular" simbolizado pelo ritmo baiano puxado pelo É O Tchan.

Com o tempo, essa "saudável expressão" do "pagodão", ou porno-pagode, passou a simbolizar manifestações de racismo - trabalhando uma imagem imbecilizada contra o negro baiano, visto como "bobo alegre" e "tarado", isso num Estado capaz de gerar mentes brilhantes na negritude, como o ator Lázaro Ramos e o saudoso Milton Santos - e de machismo explícitos.

Mesmo os grupos que adotam uma postura mais light, como Harmonia do Samba, Terra Samba, Prisico e Parangolé, sem os exageros de atitudes dos conjuntos menos conhecidos, não deixam de exprimir a mediocridade artística do gênero. Mas o É O Tchan já teve música com apologia ao estupro, como o próprio sucesso "Segura o Tchan", e grupos como Companhia do Pagode e Gang do Samba compartilham com as posturas machistas do conjunto liderado pelo empresário Cal Adan.

Ao longo dos últimos dez anos, o que se viu foram letras machistas que aludem à violência contra a mulher, como "toma, toma", "é tapa na cara, mamãe" ("mamãe" é metáfora para a moça desejada), "só na pancadinha", "é na madeirada", entre outras baixarias pornográficas como "tira e bota" (pronunciada rapidamente que parece "tiribó"), "só as cabeças, só as cabecinhas" e balbuciações como "uisminoufay, bonks-bonks-bom".

Recentemente, o grupo Black Style despejou a música "Me dá a Patinha", que trata a mulher como se fosse uma cadela. Mas o último episódio dessa "leva" ocorreu no fim de semana passado, quando membros do grupo New Hit foram acusados de terem estuprado duas adolescentes durante uma micareta na cidade de Rui Barbosa, no interior baiano. Um policial é suspeito de conivência com a atitude dos acusados.

Certamente, a liberdade moral tem limites. E, infelizmente, o "pagodão" baiano estimula mesmo que mulheres "deem mole" e assediem qualquer um ou sejam assediadas por qualquer um. Não há uma educação que previna às baianas pobres sobre o risco da paquera sem controle, sem critério. Nem sequer afinidades pessoais são consideradas.

A acusação de estupro surge como um alerta para esse descontrole, já que é muito fácil até mesmo para cafetões da prostituição na Europa usarem roupas informais e "mais modestas" e assediarem as baianas pobres. Infelizmente, elas acabam seduzidas e caem na armadilha, acreditando que estão sendo paqueradas pelo elegante marginal.

Desse modo, é acertada a atitude de uma deputada, Luíza Maia (PT-BA), de criar uma lei anti-baixaria. O problema é que tem gente que ainda quer que essas baixarias imperem, sob o pretexto da "brincadeira", como o amiguinho do supracitado Milton Moura, Roberto Albergaria.

Para esses dois, o machismo explícito do "pagodão" baiano é "divertido", porque como membros da elite intelectual que domina o país, o povo é "melhor" naquilo que tem de ruim, a mediocridade cultural é glamourizada pela intelligentzia atual, e nós é que somos "moralistas", "elitistas" e "preconceituosos", apenas porque queremos qualidade de vida até para a cultura popular.

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