segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O PIOR PRECONCEITO É ACEITAR SEM VERIFICAR


O pior preconceito não é a rejeição aparentemente incondicionada de coisas medíocres, mas a aceitação feita sem qualquer verificação.

Duas situações recentes mostram o quanto não se resolve a aliança entre o brega-popularesco e a MPB, dentro daquele espírito de "transição" que até o general Ernesto Geisel, um dos mentores do golpe de 1964, adorava fazer.

Não por acaso, foi durante o governo Geisel que o brega-popularesco deslanchou de vez, com o crescimento de ídolos apoiados por rádios controladas por oligarquias, ainda que não seja da forma dominante que se deu nos anos 90.

Agora, como forma de "tentar resolver" a hegemonia do brega-popularesco - durante anos isolado de tudo o que a MPB fazia e pensava, até chegar a Internet que fez os bregas correrem atrás do prejuízo (entenda-se isso como quiserem, leitores) - , tenta-se "ensinar MPB" para os bregas, neo-bregas e pós-bregas e de "abrir" a MPB para os bregas.

O fisiologismo cultural inclui até mesmo uma "aliança" entre performáticos e pós-bregas - a geração mais recente da música brega, que, depois dos "sofisticados" neo-bregas dos anos 90, gerou os "arrojados" pós-bregas de hoje - , como se criasse uma ponte entre os extremos, como se fosse possível juntar Paulo Sérgio e Itamar Assumpção no mesmo balaio.

Dias atrás, lendo a coluna de Joaquim Ferreira dos Santos, intitulada Gente Boa e publicada no Segundo Caderno de O Globo, há a notícia de que o funqueiro Mr. Catra, já querido da grande mídia quando ainda vendia a imagem de "sem mídia", vai gravar um "disco de MPB". Outros rumores diziam que ele gravaria um "disco de samba".

Entenda "samba" o engodo sambrega que rola em rádios como Nativa FM, FM O Dia, Beat 98, Transcontinental e Band FM, só para citar as do eixo Rio-São Paulo. Mas Mr. Catra promete o "impossível": gravar Chico Buarque, repetindo a bajulação que havia sido feita por MC Leozinho, que se disse "fã" do cantor, e Inimigos da HP, que teve de gravar até "Apesar de Você" para agradar a ministra (e, quem sabe, arrancar umas verbas do MinC).

Enquanto isso, eu vi no portal G1 a notícia que a cantora Tiê, cantora de MPB eclética, foi cantar num churrasco caseiro de domingo as músicas da trilha sonora da novela Avenida Brasil, que inclui sucessos de Michel Teló, Sorriso Maroto, João Lucas & Marcelo e MC Koringa, para um público de "descolados" (espécie de "alternativos" de boutique, claramente estereotipados).

Tiê já havia gravado, em arranjos "pós-modernos", a música "Você Não Vale Nada", que um obscuro forrozeiro compôs e vendeu para o empresário do Calcinha Preta ordenar a este grupo gravá-la e que virou sucesso nacional na Rede Globo, promovendo esse grupo de nome infeliz para tocar até nas rádios de Florianópolis. E eu, bebezinho, sempre chorava, na minha terrinha, quando rolava "É Impossível Acreditar que Perdi Você" de Márcio Greick, em 1971, sem dar conta de coisas piores que viriam no futuro...

A jornalista Olívia Henriques, vendo a situação, escreveu um comentário infeliz: "Preconceito zero". Mal sabe ela que preconceito não é "rejeitar a esmo" a mediocridade cultural mas sim aceitar as coisas sem verificar. E isso acontece com o brega-popularesco, onde se aceita tudo sem verificação, basta ter o rótulo "popular" junto. Serve até para disfarçar o elitismo doentio de muitos "bacanas".

Imagine se isso pega na culinária. Aceitaríamos moscas pousando nas sopas, almoçaríamos qualquer coisa que tenha um pouco de fezes no molho, ou comeríamos pastéis, coxinhas e risoles fritos com as mãos sujas de pano de chão, e acharíamos que aceitar tudo isso é "perder o preconceito". Se passamos mal e vamos vomitar no banheiro é porque "ainda somos preconceituosos, elitistas e intolerantes". Vá entender.

Nada disso fará a MPB se renovar, ficar mais criativa. A aliança apenas tem fins mercadológicos, num pacto de colocar a MPB nas trilhas de novela da Globo e o brega para tocar em casas noturnas antes exclusivas à MPB. Nada que faça os bregas ficarem mais criativos e a MPB mais dignamente reconhecida.

Isso porque os bregas começam medíocres e fizeram seu sucesso às custas de sua própria mediocridade. "Ensinar MPB" para eles não os fará mais criativos. Eles só gravarão covers, imitarão os clichês do ídolo a ser copiado, e tudo ficará na paz na mídia. Mas, artisticamente, os resultados ficam longe de serem espontâneos, não indo além do tendencioso.

Dessa forma, Mr. Catra não virará um novo Seu Jorge e nem sequer entrará na disputa de quem vai ser o "novo Simonal", competição que sabemos já ganha por Wilson Simoninha (que acompanhou o pai no auge da carreira), apesar das insistências de Thiaguinho, Péricles e Alexandre Pires.

Por outro lado, Tiê também não se destacará na MPB com sua adesão à música brega. Até porque ela já concorre com outra cantora parecida, Céu, que também trocou a segurança da MPB vanguardista por concessões ao brega-popularesco. Assim, as duas não deixarão marca, serão confundidas uma com a outra, e assim perde-se a chance de aparecer uma nova Marisa Monte.

E, com isso, a mesmice brega-popularesca não muda, porque neste caso a MPB apenas assume o papel secundário de alimentar a vaidade dos chamados "ídolos populares". Enquanto isso, a nossa cultura continua indo para o ralo...

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