sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O IRRITANTE CACOETE DE CHAMAR DE "BANDA" GRUPOS SEM INSTRUMENTISTAS


Há um terrível e irritante cacoete da mídia brasileira, que contagiou o público jovem, de chamar meros conjuntos vocais de "bandas", mesmo aqueles que não constam com qualquer instrumentista.

A medida vem de uns 15 anos para cá, e veio na onda das rádios de pop dançante imitarem burramente os jargões roqueiros, e aí chamam qualquer agrupamento de gente como "banda".

Isso é resultante de uma interpretação caolha do termo boyband, um termo que significa "grupos de garotos" e não "bandas de garotos".

Mas o galo cantou na esquina - provavelmente com outros galos dançando junto - e até o escritor Antônio Carlos Cabrera pegou carona nesse verdadeiro "mico" (feito provavelmente por um mico cantando e outros dançando junto) - , nos seus livros sobre "anos 80" (no sentido Ploc 80 do termo).

A gravadora que lançou o disco desta foto, Up All Night, do grupo vocal inglês One Direction, a Sony Music, colocou no CD uma etiqueta com uma mensagem infeliz: "A 1ª banda (?!) inglesa a entrar em 1º lugar nos EUA".

Mas se até a Roadie Crew, num ato falho, chamou o Menudo de "banda", sem aspas, numa resenha de disco de um grupo de rock (o Menudo era citado numa comparação crítica), quando sabemos que o grupo porto-riquenho não tinha músicos (só depois de saírem alguns integrantes se tornaram de fato músicos), é sinal que a bagunça pegou. Num tempo em que de vez em quando no portal Whiplash baixa o espírito da Candinha (aquela da canção do Roberto Carlos fase Jovem Guarda)...

Poucos têm a ideia do quanto é humilhante chamar grupos vocais de "bandas". Na melhor das hipóteses, um grupo tipo Menudo, ou Backstreet Boys ou, agora mesmo, o inglês One Direction, a sensação do momento, os grupos poderiam ser chamados de "corais". Bandas, de jeito nenhum.

A distorção do termo band foi desmascarada quando foi ao ar na TV paga a minissérie Band of Brothers, co-produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg, que não fala de meninos dançantes, mas de um AGRUPAMENTO de soldados na Segunda Guerra Mundial.

Havia escrito sobre a vinda de Jack Bruce, ex-baixista do Cream, no Brasil, e, dias antes sobre o falecimento do guitarrista brasileiro Celso Blues Boy. São dois exemplos de grandes músicos da História do Rock. Só que nenhum deles tornou-se grande músico por meio de sombra e água fresca. Foi preciso muita dedicação, muitos ensaios, muita criatividade e disciplina.

Afinal, se muitos moleques decidem formar suas bandas, eles arrumam um lugar, geralmente na laje de um sobrado ou na garagem de uma casa, ou no quarto de um apartamento, para ensaiar seus instrumentos. Parece um hobby, mas também é um esforço. Os Beatles são os Beatles porque tocaram muito, os Beach Boys também.

Agora, ver que essas "bandas" (sic) atuais mostram baladas ("balada eh música lenta, flw?") em que um integrante canta e outros ficam de braços cruzados é vergonhoso. Certa vez, escrevi, no sítio Preserve o Rádio AM, que o grupo Pussycat Dolls (que lançou a cantora Nicole Scherzinger), na medida em que era chamado de "banda", era até mais perigoso do que a prepotência do poder, então vitalício, do presidente da Ordem dos Músicos do Brasil, Wilson Sândoli, nomeado durante a ditadura militar e, recentemente, afastado do poder  (foi em 2009).

Isso porque, questionando o pragmatismo brasileiro, ainda condescendente com certas armadilhas e capaz de admirar as ratoeiras armadas contra si  por causa do queijo colocado nela, chamar um grupo vocal de "banda" é tão ou mais perigoso do que um cara autoritário comandando uma associação de músicos.

Afinal, se o presidente autoritário não reconhece os direitos e necessidades dos músicos, por outro lado grupos só de vocalistas, ou não raro de um(a) vocalista e "trocentos(as)" dançarinos(as), desmoraliza os músicos porque tais grupos não passam pelo esforço de se dedicar a um instrumento musical, a uma partitura, a ensaios de arranjos.

E, num contexto de pop dançante, onde os "cantores" usam, e muito, o recurso do vocoder, com a voz robotizada - "novidade" que, no Brasil, é introduzida até no "kuduro" do tema de novela da Globo - , isso se agrava completamente, porque é rir da cara dos verdadeiros músicos creditar grupinhos dançantes como "bandas".

Chega a ser risível, mas é também de chorar. Afinal, antes tínhamos as grandes bandas de jazz. A música pop reduziu a quantidade, mas sempre manteve a condição de bandas como grupos formados por músicos, quando muito com um ou dois integrantes que não tocam instrumentos, ou então com vocalistas de apoio junto a diversos instrumentistas. Hoje, infelizmente, não é assim.

Aí chama-se de "banda" qualquer grupo. Se tem um monte de gente, é "banda". Pode ser um vocalista medíocre - deste cuja voz é tão ruim que se esconde atrás do vocoder e dos pleibeques nos palcos - ao lado de um monte de dançarino, aí virou 'banda". Se deixarmos, qualquer grupo de ginástica aeróbica vai virar "banda". Pobre do adolescente que juntou as mesadas para comprar um baixo, uma guitarra, bateria ou órgão.

O esforço dos instrumentistas acaba sendo desmoralizado. E é irônico que os Beatles e Beach Boys eram considerados conjuntos vocais. De fato eram, mas seus integrantes eram instrumentistas e grandes compositores. Eles fizeram a história do rock porque seus integrantes se esforçaram em tocar e compor arranjos e melodias com muitos ensaios, apresentações e coisa e tal.

Os Beatles chegaram mesmo a deixar os concertos de lado porque queriam se aperfeiçoar como músicos, coisa que, na época, os gritos das fãs não deixaram. E olha que os Beatles e Beach Boys eram ícones teen no começo de carreira, mas tinham talento de sobra para oferecerem algo mais à música, como a História comprova com o passar do tempo.

É vergonhoso ver que "bandas" agora são esses grupinhos vocais de pop dançante. E a mídia que as define assim ainda fica "se achando". Só que os músicos que realmente lutam pelos seus direitos deveriam reagir contra essa mídia como reagiram contra a prepotência de Wilson Sândoli. A coisa foi tão patética no Brasil que se chegou a formar um grupinho vocal chamado Mega Banda, da agência Mega Models, que de "banda" só tinha o nome, nenhuma integrante ali era instrumentista. Felizmente, não deu certo.

Ninguém pode aceitar que grupos como Backstreet Boys, Pussycat Dolls, Girls Aloud e One Direction roubem os créditos dos verdadeiros músicos na medida em são considerados, no Brasil, como "bandas". É preciso protestar diante de um quadro desses que não envolve questões pragmáticas, mas questões que podem se complicar com o tempo.

Afinal, a vida não é feita apenas de lutas por causas imediatas e pragmáticas. As armadilhas podem ser mais sutis, e as ratoeiras não são lindas por causa do queijo colocado nelas. Quem é músico precisa reclamar, afinal seu esforço está sendo desqualificado na medida em que, agora, até dançarino é considerado "músico" e grupos de meninos e meninas dançantes são considerados "bandas".

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