domingo, 19 de agosto de 2012

É MUITO FÁCIL JOGAR O RÁDIO AM VELHO PARA AS FMS. DIFÍCIL É RENOVAR O AM


Infelizmente, o rádio mundial, e sobretudo o brasileiro, está indo pelo mau caminho de eliminar o rádio AM e as ondas curtas, além de extinguir boa parte de sua história e de suas tradições em nome do comercialismo fácil das ondas de FM.

Desse modo, torna-se muito fácil jogar velhas fórmulas de rádio AM para o rádio FM do que renovar o rádio AM. Possíveis alternativas para a renovação da Amplitude Modulada que poderiam revitalizar o setor e compensar os caros investimentos com retorno financeiro estável, foram descartadas ou diluídas na Frequência Modulada.

Hoje, enquanto comemoramos os 30 anos da Fluminense FM, os 94,9 mhz hoje estão entregues a uma equipe esportiva comandada por José Carlos Araújo, que andou fazendo uns comentários tecnocráticos de um rádio "interativo" que está mais para interpassivo. Só falta ele querer que o rádio FM seja transmitido em 3-D, com direito ao cheiro dos sovacos dos jogadores suados nas partidas.

Dizem que a Band News Fluminense "não está mal" na audiência. Mito. Vou para as ruas, em qualquer parte do Rio de Janeiro ou de Niterói e, fora umas pouquíssimas bancas de jornais ali, uns poucos pescadores acola, quase ninguém está ouvindo a emissora, que, na prática, não sai do desempenho comparável ao que a Fluminense FM teve entre 1991 e 1994, uma audiência que variava entre o baixo e o baixíssimo índice.

A entrada do "garotinho" - não o Anthony, mas o JC Araújo - não vai melhorar a situação da rádio ounius, que terá menos espaço para notícias. Primeiro, porque o mercado das FMs com roupagem de AM não é tão próspero quanto se imagina, embora haja a preocupação de não "arranhar" a imagem das estrelas do radialismo envolvidas. Ninguém quer ser o "lanternão" do Ibope.

Segundo, porque hoje em dia a palavra "jornalismo" não tem mais o sentido mágico de há mais de cinco anos atrás. É certo que a imprensa ajuda em muitos momentos a resolver os problemas, e não se fala da anulação do valor do jornalismo, mas as ilusões antigas de que o jornalista era uma espécie de "herói" da humanidade, um ente acima da opinião pública, se desfizeram. O jornalismo não está acima da opinião pública, mas a serviço dela.

Além do mais, as pessoas andam muito ocupadas em suas vidas. Nisso a "aemização" das FMs teve seu prejuízo. Com rádios musicais, poderíamos fazer outras coisas e manter o rádio ligado. Com rádios noticiosas o tempo inteiro - não se está aqui reprovando o noticiário em rádio, mas toda hora é um exagero - , ou as pessoas deixam de fazer suas atividades, ou desligam o rádio. E, não raro, apelam para a segunda opção.

Numa época em que os escândalos envolvendo Policarpo Júnior, editor de sucursal da revista Veja, além do reacionarismo de nomes como Merval Pereira, Miriam Leitão e Eliane Cantanhede e até de Bóris Casoy, põem a antiga mitificação do jornalismo em xeque, as pessoas hoje começam a depender menos da imprensa para formar suas opiniões.

É certo que ainda há o poder da "mídia boazinha", da "imprensa jagunça" e mesmo de blogues pouco confiáveis, que fazem as pessoas apenas desconfiarem da Globo, Veja, Folha e Estadão, mas não de veículos similares pouco badalados. E ainda são capazes de endeusar um Fernando Collor da vida, antes glorificado como um suposto "caçador de marajás", agora tido como um festejado "caçador dos marajás de Veja".

SE GRANDES TIMES ENFRENTAM DERROTAS, POR QUE LOCUTORES ESPORTIVOS NUNCA ADMITEM ENFRENTAR "TRAÇOS" NO IBOPE?

No radialismo esportivo - entretenimento que também embarca nos louros do jornalismo - , a coisa é ainda pior, pelo frequente sensacionalismo e pedantismo de suas equipes, e pela prática de jabaculê que superou, e muitíssimo, à tradicional prática de jabaculê nas rádios musicais.

No rádio FM, o radialismo esportivo soa deslocado - nunca deveria ter saído das AMs - e datado, com as transmissões esportivas em FM soando velhas até na qualidade sonora. Em linguagem, não mudaram muito, pois ultimamente o que se fez foi "costurar" a linguagem do rádio com a linguagem da TV aberta, na esperança vã de competir com a TV paga, que rouba grandes fatias de audiência das FMs "aemizadas".

A derrota é humilhante, mas atenuada pela propriedade cruzada. Afinal, pouco importa se a "Rádio Globo AM" FM leva surra, no Ibope, do canal Sportv, se o dono é o mesmo. Mas até mesmo diferentes donos mas midiaticamente solidários, a situação também é a mesma, quando uma Band News FM leva surra do ESPN Brasil ou do Premiere Sports.

É uma realidade difícil de admitir. Quando se fala que grandes locutores esportivos, quando entram em FM, amargam "traços" de audiência de tal forma que a emissora precisa "alugar" audiência em estabelecimentos comerciais para "anabolizar" o Ibope, muitos radiófilos ficam em pânico. "Como? O locutor tal tem baixa audiência? Você está inventando, idiota!", é a reação mais provável.

Vamos pensar um pouco. Se os maiores times de futebol eventualmente enfrentam derrotas, às vezes humilhantes, e chegam a baixar divisões nos campeonatos, por que um locutor esportivo de nome nunca iria enfrentar um Ibope baixo? Em Salvador, o locutor Djalma Costa Lino, um dos mais prestigiados no ramo, enfrentou violentas quedas de audiência quando passou por algumas FMs. Djalma não é DJ.

Portanto, não há como inventar que o locutor esporitvo tal é "campeão de audiência" até quando fala pras paredes. Com a decadência do rádio FM, sobretudo pela "aemização" que descarateriza o meio e derruba antigas emissoras segmentadas de referência, não há como dizer que a Frequência Modulada vive seus áureos momentos.

Pelo contrário, a ciranda empresarial das grandes redes transforma o mercado radiofônico num grande cassino, e a concentração de poder midiático também faz afastar muitos ouvintes. Mas mesmo o cotidiano, com pessoas trabalhando, estudando e se ocupando em seus diversos compromissos, tira muitos ouvintes do rádio FM.

São muitos problemas que passam a Frequência Modulada, mas que os radiófilos estão surdos em assumir. E o rádio FM, transformado tendenciosamente num "novo rádio AM", sofre ainda mais com os infortúnios sofridos pelas emissoras AM, com audiência declinante que nenhum artifício de sintonizar uma FM em estabelecimentos comerciais consegue garantir.

Pois, se antigamente, um único aparelho de rádio poderia ser ouvido por até seis pessoas, hoje a rádio que é sintonizada num restaurante, loja ou botequim, por exemplo, só é ouvida mesmo pelo gerente que decidiu sintonizá-la. As centenas de fregueses nada tem a ver com essa sintonia. Vamos deixar de malandragem.

E a TV paga tornou-se o "novo rádio FM", no que se diz à concorrência no mercado. E, o que é mais curioso, possui canais de áudio com a segmentação musical que as emissoras FM se recusaram a assumir.

Nenhum comentário: