domingo, 12 de agosto de 2012

A APROPRIAÇÃO DO FUNK AUTÊNTICO PELO BASTARDO



O funk autêntico surgiu por volta da década de 60, nos Estados Unidos. Ele surgiu de uma evolução da soul music, por volta de 1966, através da criatividade de nomes como James Brown e Silvester Stewart, este comandando a banda Sly and The Family Stone sob o codinome Sly Stone.

O som foi caraterizado também por outros nomes como Jackson Five (que lançou Michael Jackson), Kool & The Gang, Spinners e outros, ganhou a adesão de soulmen diversos como Marvin Gaye e Stevie Wonder, e evoluiu para uma das principais variações da disco music, como o disco funk (de nomes como Chic, Commodores e Sister Sledge), nos anos 70, década de maior destaque no gênero.

No Brasil, o primeiro nome a assimilar as informações da soul music dos anos 60 foi Tim Maia, como músico, e o radialista da Rádio Mundial (RJ - 860 khz do AM), Newton Duarte, o Big Boy, como divulgador. Juntos, Tim e Big Boy difundiram a black music norte-americana no Brasil, criando uma cultura que, infelizmente, acabou sendo deturpada, como toda cultura popular original no nosso país.

Os bailes funk originais eram grandes acontecimentos. Tocava-se funk autêntico, as pessoas se reuniam para curtir realmente as festas, não nessas noitadas de hoje - que recebem o ridículo codinome de "baladas" - onde todos consomem, ninguém curte, e o carinha faz um torpedo para uma paquera que ele transará na noitada seguinte e dará o fora na posterior.

Sim, consumo de álcool e drogas existe em todo tipo de evento, mas a curtição das antigas festas noturnas era muito mais comprometida com o verdadeiro prazer, ouvindo música de qualidade que valia pela sua linguagem musical, e não por "linhas de montagem" sonoras. E os verdadeiros bailes funk tinham essa qualidade, e uma admirável geração de DJs ganhou prestígio, como Messiê Limá, Cidinho Cambalhota, Ademir Lemos e outros.

Todos eles discípulos do Big Boy - que, curiosamente, parecia um sósia mais gordo do ator Jack Black - que, ao falecer precocemente em 1977, deixou uma grande lacuna. Mas outra curiosidade é que o radialista também entendia de rock, e muito antes da Fluminense FM fazer história, havia a Eldo Pop que tocava os clássicos do rock para os ouvintes cariocas e do Grande Rio nos anos 70.

Mas até esses discípulos morreram, enquanto o mercado das equipes de som do funk iniciava uma deturpação grotesca do gênero, substituindo a criatividade original por uma "linha de montagem" de MCs praticamente tutelados e domesticados pelos empresários, a partir de uma sonoridade que substituía o farto arsenal instrumental por um reles tecladinho, e os vocais potentes por vozes de "fuinha" dos tais MCs.

Ou seja, o caminho se perdeu, e mesmo o moderno funk eletrônico de Afrika Bambataa foi reduzido a nada quando "assimilado" pelos empresários-DJs de "funk carioca", que nos anos 90 começaram a criar um império ao lado dos barões da mídia local, investindo num comercialismo cada vez mais grotesco, atroz e cruel que eliminou a antiga cultura funk, jogada para o quase ostracismo.

Nessa época, todo o brega-popularesco desprezava a MPB, ria da decadência do Rock Brasil no mercado e, no caso dos funqueiros, dava gargalhadas quando via que os subúrbios ameaçavam esquecer Tim Maia, Hyldon, Gerson King Combo, Cassiano, Banda Black Rio e outros nomes do verdadeiro funk brasileiro. Tempos em que um Art Popular podia cospir na MPB com o maior esnobismo, porque o Art Popular fazia mais sucesso e a MPB não.

Até mesmo o dito "funk de raiz", a suposta tendência de "protesto" do "funk carioca", era considerado patético em 1990, com aqueles arremedos de cantiga de roda "cantados" com vozes frouxas, mediante uma única batida eletrônica, em que o "protesto" era muito tímido, nem de longe representava uma conscientização social como se alardeia hoje.

O "funk carioca" dos anos 90 desprezava o samba e outros ritmos populares. Competia mercadologicamente com eles, mas nunca conseguia levar vantagem. Nos últimos dez anos, porém, depois de dois grandes modismos fracassados (um em 1990, puxado por sucessos como "Rap da Felicidade", de MC Cidinho & MC Doca, e outro entre 1999 e 2001, incluindo "Cerol na Mão", do Bonde do Tigrão), os empresários do "funk carioca" passaram a financiar intelectuais para elaborar um discurso "positivo" para o gênero.

E foi aí que o funqueiro, como toda tendência brega e neo-brega vigente ou relembrada em 2002, passou a se promover como um "coitadinho", como um "discriminado", suposta vítima de "preconceitos", que era o que se falava da rejeição que os ídolos brega-popularescos recebiam da opinião pública, rejeição descrita de forma negativa e um tanto exagerada.

E aí o "funk carioca" continuou desprezando o funk autêntico, visto como "coisa do passado", até que cobranças que atingiram todo o brega-popularesco fizeram seus ídolos "reverem as posições". Assim, por exemplo, um cantor de "pagode romântico" que nunca se interessou por Wilson Simonal passou a dizer que "sempre admirou o cantor". Um "sertanejo" que só seguia o som de Waldick Soriano e Lindomar Castilho passou a dizer que "adora o Clube da Esquina" e o funqueiro, agora, tenta "comemorar" os 40 anos da introdução do funk autêntico no Brasil.

Claro, essa campanha toda em prol do "funk carioca" atrai as classes mais abastadas que veem nisso uma oportunidade de disfarçar suas inclinações elitistas em prol de um pretenso paternalismo às classes populares. Gente que, no fundo, odeia ver pobre, sobretudo quando faz passeatas pedindo reforma agrária, moradias melhores e urbanização de bairros populares, mas que sorri quando os pobres se limitam a expressar suas vozes de "fuinha" no microfone ou a rebolar de forma patética e grotesca.

É um discurso que não tem sentido verdadeiro. Cria-se um monte de referenciais, dando a falsa impressão de que o "funk carioca" é mais sofisticado até mesmo do que a Bossa Nova. Mas é só botar um CD do gênero que toda essa apelação intelectualoide - puxada por documentários, monografias, reportagens etc - cai por terra.

Isso só serve para enriquecer os empresários de "funk carioca", gente rica, riquíssima. A fortuna de um único DJ de "funk carioca" não consegue ser alcançada, sequer em um quinto, por todo o elenco "burguês" da MPB da Biscoito Fino junto.

E agora a adesão dos "bacanas" ao marketing funqueiro é coroada pela peça Funk Brasil - 40 anos de Funk, que, seguindo o mesmo caminho dos livros O Mundo Funk Carioca, de Hermano Vianna, e Batidão - Uma História do Funk Carioca, de Sílvio Essinger, tenta misturar alhos e bugalhos, representando uma apropriação do funk autêntico de outrora pelo bastardo funk atual.

Recentemente, a campanha tenta manter as popozudas no mercado, além de promover veteranos como Latino e MC Buchecha (remanescente da dupla Claudinho & Buchecha) no mercado, tentar salvar o sucesso de MC Leozinho e promover nomes recentes como MC Naldo e, agora, MC Koringa.

Todo mundo, agora, se apropriando da memória de Tim Maia, embora, pateticamente, um jornal tenha definido o MC Sapão como o "Tim Maia do funk (?!)". Juntando tudo isso, tem a choradeira do dirigente funqueiro MC Leonardo, para o qual o "funk carioca" é o centro do universo, o mundo é que tem que girar em tornos da "nação funqueira".

Enquanto isso, a cultura brasileira sucumbe a esse embuste com muita gente achando que isso trará o progresso social das classes populares. Não vai. Até porque essa campanha pró-funqueira já tem 10 anos e, se tivesse sido séria um dia, a população pobre teria tido alguma melhoria real e a pobreza teria sido eliminada faz tempo.

Nenhum comentário: