domingo, 15 de julho de 2012

RÁDIOS "AM EM FM" PODEM ESTAR "COMPRANDO" AUDIÊNCIA NO RJ


As FMs com roupagem de AM no Rio de Janeiro podem estar usando a mesma prática de suas similares em Salvador e outras capitais do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e no interior do país.

Sem poder atingir a grande audiência que marcou as emissoras de rádio AM, as FMs investem em "parcerias" com estabelecimentos comerciais, numa prática que já se constitui num jabaculê não-musical.

De uma hora para outra, estabelecimentos passaram a sintonizar as FMs "AnêMicas", sobretudo durante programas esportivos e transmissões de futebol, mas também em programas estratégicos envolvendo comunicadores de nome. Tudo para empurrar a audiência para o público freguês que nada tem a ver com isso.

A manobra é sutil. Produtores de rádio estariam combinando com determinados estabelecimentos bastante frequentados em certos pontos da cidade, para que estas lojas sintonizem as tais FMs. Oferece-se de tudo, de pagamento de contas de luz e de fornecimento de bebidas, até mesmo a concessão de "brindes", como telefones celulares pré-pagos ou equipamentos de som.

No caso de grandes redes de lojas ou papelarias, o jabaculê estaria sendo feito através do abatimento no espaço publicitário. "Você sintoniza a minha rádio na sua loja e eu dou desconto para ela no intervalo comercial", é o recado dado por representantes do departamento comercial de tais FMs, sobretudo em relação às transmissões esportivas e mesas redondas de futebol.

A medida tornou-se muito conhecida em Salvador, quando FMs do gênero "AeMão" passaram a "alugar" desde botequins até taxistas, porteiros de prédios, frentistas de postos de gasolina etc. Um sindicato de taxistas, durante uma gestão pelega, chegou a ser premiado com um programa na Salvador FM, do político ruralista Marcos Medrado.

Dependendo do caso, variam os "beneficiários". A Rádio Metrópole havia feito uma "barganha" com as Lojas Americanas e a Civilização Brasileira do Iguatemi, "convidados" a sintonizar as transmissões esportivas, e os serviços de transporte escolar, a sintonizar o programa do seu dono Mário Kertèsz (no momento tentando uma volta à política). Por sua vez, a Transamérica FM de Salvador escolheu uma papelaria do Salvador Shopping para a sintonia combinada.

No Rio de Janeiro, a Rádio Globo, a Super Rádio Tupi (AMs que possuem prefixos em FM) e a Band News Fluminense estariam combinando até com barbearias e bancas de jornais para a tendenciosa sintonia. Alguns estabelecimentos são escolhidos para a ocasião, mas isso cria uma prática que puxa estabelecimentos similares a aderir "espontaneamente" para imitar a concorrência.

AUDIÊNCIA ANABOLIZADA

O uso de estabelecimentos comerciais é um artifício para rádios com baixíssimo índice de audiência individual ganhem audiência. A baixa audiência é camuflada por pessoas que estão onde um único indivíduo, ou, quando muito, um pequeno grupo de pessoas sintoniza uma rádio.

Desse modo, cria-se um mecanismo para que a audiência se anabolize. Calcula-se a média de fregueses que um estabelecimento comercial consegue atrair, e usa-se esse número para definir a "audiência" de tal rádio. O que empurra muita gente que nada tem a ver com essa sintonia a "fazer número" nos pontos do Ibope.

É a tática do "fumante", "quem está no meu lado ouve o que eu ouço'. Você não tem a ver com a sintonia de uma Rádio Globo e no entanto você é "ouvinte" da emissora só porque o dono da barbearia sintonizou a rádio.

Esse raciocínio é o mesmo dos chamados "DJs de ônibus", que promovem a poluição sonora contra a vontade dos outros. Esses ouvintes impõem o gosto musical deles para os outros, e quem estiver próximo é obrigado a aguentar tudo isso.

No caso do "Aemão de FM", aguenta-se tanto lero-lero sobre times esportivos, o tendenciosismo de certos comunicadores ou "âncoras", e até nas noites o pessoal é obrigado a dormir com a narração corrida de um locutor esportivo ressoando nos ouvidos que nem voo de marimbondo.

Todo esse jabá é feito visando mais pontos do Ibope. Com a "vantagem" (só para os donos de rádio e seus consortes) de que esse jabaculê não precisa pagar uma parcela para o ECAD e nenhum colunista de rádio vai reconhecer realmente como um jabaculê. Só que esse jabaculê é bem pior do que aquele que só se movia pelas notas musicais.

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