terça-feira, 24 de julho de 2012

O MAU GOSTO DESUMANO DA IMPRENSA JAGUNÇA


Infelizmente, temos uma intelectualidade, que praticamente monopoliza a visibilidade e o privilégio de pretensos formadores de opinião, que acha que a chamada "cultura do mau gosto" é uma causa nobre e revolucionária, supostamente atribuída a uma "rebelião popular" cujo público, na verdade, não é mais do que fantoche de um modelo de "cultura popular" imposto pela mídia.

O "mau gosto", assim, em vez de ser reconhecido, como deveria ser, como um processo de degradação sócio-cultural das classes populares, claramente amestradas pela velha mídia, é tido como algo "revolucionário", "corajoso" e "desafiador", como uma "causa moderna" que nós supostamente somos "incapazes de entender".

Falácias à parte, o que se nota é que a chamada "imprensa popular" - tida como "divertida" por parte da intelectualidade - , aquela que não sabe se quer ser reconhecida como "jornalismo investigativo" ou como "humorismo jornalístico", pega pesado no sensacionalismo, além de possuir um perfil ideológico que esconde todo um sistema retrógrado de valores imposto para as classes populares.

Um exemplo ilustrativo disso é a obsessão por trocadilhos maldosos desse tipo de imprensa, que pode ser seguramente denominado de "imprensa jagunça" porque ela, no fundo, é cúmplice do reacionarismo midiático da grande imprensa. É como se a revista Veja fosse o "coronel", e o jornal Meia Hora o capataz. Mas as próprias Organizações Globo (Rede Globo, O Globo, Época etc) tem seu similar, o também carioca Expresso, o verdadeiro equivalente brasileiro do News Of The World.

Se a revista Veja condena os movimentos sociais e dispara sua "metralhadora giratória" até contra as tribos indígenas, o Meia Hora (ou o Expresso, Supernotícia, Massa e similares) explora uma imagem ridícula das classes populares, atribuindo sempre a elas a obsessão pelo pitoresco, pelo grotesco, pelo piegas e pelo macabro.

E para quem acha "injusta" a comparação do "divertido" Meia Hora com a decadente Veja - envolvida, a partir de seu editor de sucursal Policarpo Jr., no esquema de corrupção do bicheiro Carlinhos Cachoeira - , é bom deixar claro que o dono do Meia Hora, que também edita o jornal O Dia, faz parcerias promocionais com o Grupo Abril, que edita Veja.

Um exemplo do caráter abjeto de Meia Hora e seu eventual bullying jornalístico é a exploração leviana e grotesca da memória do saudoso ator Heath Ledger - que, meses antes de falecer, eu pude vê-lo na TV paga no filme Honra e Coragem (The Four Feathers) - , só por conta do papel de Coringa que ele fez no filme O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight).

Isso se deu porque houve, na última sexta-feira, um atentado na cidade de Denver, no Colorado, com a sequência do citado filme com Ledger (lançado postumamente, meses após o falecimento do ator, que foi em janeiro de 2008), lançada no cinema na ocasião, intitulada O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises).

A vilã, Mulher-Gato, é interpretada por Anne Hathaway, que havia participado de outro filme com Ledger, O Segredo de Brokeback Mountain, e contracenou com Kate Hudson (par romântico de Ledger em Honra e Coragem) - na comédia Noivas em Guerra (Bride Wars). Anne, como outros envolvidos no filme, se sentiram chocados e tristes com o trágico incidente.

Nesse incidente, um rapaz chamado James Holmes invadiu o cinema e disparou vários tiros contra quem estivesse na frente. Doze pessoas morreram e várias outras ficaram feridas. O atirador foi preso e havia afirmado que "era o Coringa", ao anunciar o crime que acabou cometendo.

O Meia Hora, por sua vez, usou de forma leviana a memória do grande e simpático Heath Ledger, cujo talento promissor o fez interpretar brilhantemente o sádico e violento Coringa. Mas isso não significa que se coloque sobre o ator a "responsabilidade" de se posicionar contra ou a favor do atentado. Heath nada tem a ver com isso. Seria mais coerente dizer que os falecidos atiradores do Massacre de Columbine, de 1999, tenham inspirado o atirador do cinema a fazer sua carnificina.

Dessa maneira, o jornal Meia Hora mostra o lado macabro da imprensa "popular". E mostra o quanto seu péssimo jornalismo, tão "divertido" quanto qualquer prática de bullying, não mede escrúpulos com suas gracinhas. Em nome do sensacionalismo, faz se qualquer coisa para vender jornal.

Além disso, conclui-se que o "mau gosto" nada tem a ver com qualquer "causa nobre revolucionária". A "cultura do mau gosto" deprecia, degrada, humilha. Por isso o "mau gosto" é puramente desumano, idiotizante, alienante e imbecilizante. E isso não é bom.

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