terça-feira, 10 de julho de 2012

O DILEMA DA MPB: A ABL OU A "CASA DA SOGRA"


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Eu escrevi este texto há quatro anos atrás, mas as questões continuam as mesmas de hoje. Pouca coisa mudou, a não ser para pior, quando a MPB autêntica perde seus próprios espaços por causa da hegemonia do brega-popularesco e sua mania de vender seus ídolos, apoiados pelo poder midiático, como "vítimas de preconceitos". Eu comento o texto escrito por um notório músico e arranjador de MPB, Frederico Mendonça de Oliveira, o Fredera, sobre a crise da Música Popular Brasileira.

O DILEMA DA MPB: A ABL OU A "CASA DA SOGRA"
Artigo de Caros Amigos lança questões novas sobra a crise em que passa a Música Popular Brasileira

Por Alexandre Figueiredo - Preserve o Rádio AM (julho de 2008)

A edição de Caros Amigos de julho de 2008 publicou um texto do músico Frederico Mendonça de Oliveira, conhecido como Fredera, que ajuda no debate sobre a crise da MPB. Intitulado "A canção que parou o Brasil", ele vê na exploração da mídia aos artistas de MPB surgidos entre os anos 60 e o final dos anos 80 um motivo para a crise da cultura popular do país.

Em um texto sensato, Fredera pode não ter colocado mais questões, e aparentemente não deixa claro do que vitimou a MPB. Mas reconhece a qualidade elevada de seus compositores ou intérpretes, como Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento, Ivan Lins, entre outros. Ele cita que esses cantores passaram a ser explorados pela mídia, inclusive a Rede Globo, e que durante a ditadura militar eles significavam o que havia de mais sofisticado na música brasileira, além de representarem a resistência à própria ditadura. Mas, passada a ditadura, a MPB dessa geração deu lugar a tendências de baixo nível artístico, que constituem no brega-popularesco, expressão não utilizada pelo autor.

Podemos inferir a seguinte interpretação para o texto de Fredera, para enriquecermos o debate em torno da música brasileira. Quem entende a situação sabe do que o texto "A canção que parou o Brasil" quer dizer, mas os leigos simplesmente não vêem com clareza o sentido da mensagem, e, numa leitura desatenta pode significar uma interpretação equivocada de que a MPB é ruim e apenas o brega mais "lapidado" (seja o brega "cancioneiro" de Waldick Soriano, sejam os pedantes popularescos tipo Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires) é que presta.

Fredera quis falar que a MPB virou algo parecido com o de uma Academia Brasileira de Letras musical. Ele compara a MPB com um olimpo, endeusado pela indústria fonográfica e pela televisão, a partir dos festivais de música. Vamos explicar melhor esta realidade.

A questão da MPB se deve ao fato de que a geração de 1962, que chegou à fama em 1965, foi influenciada tanto pela Bossa Nova quanto pela militância dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE). A sofisticação musical da BN e o engajamento social dos CPC's era a combinação perfeita para a juventude universitária nos primórdios da ditadura militar.

Veio o AI-5, os festivais da canção ficaram mais burocráticos, sem os principais artistas de MPB que, salvo exceções, foram para o exílio. Veio uma outra geração de cantores e compositores, mas depois a MPB foi cooptada pelas trilhas sonoras de novelas da Rede Globo, o que se tornou ambíguo e perigoso. Afinal, com o tempo, a Rede Globo, com a nata da MPB nas mãos, com o tempo acabou por pasteurizá-la. Isolada do povo, a MPB virou um clube restrito, um monastério, mesmo contra a vontade de seus artistas.

Enquanto isso, os rincões mais conservadores do país, ou seja, as regiões interioranas dominadas por proprietários de terras, empurravam a música brega como "calmante" para as explosões sociais dos trabalhadores rurais. E essa música brega ganhou espaço nas redes de televisão concorrentes da Globo, e nesse percurso veio, nos anos 80, a fusão entre a MPB pasteurizada e a música brega, primeiro com Michael Sullivan & Paulo Massadas, comparsas de Lincoln Olivetti & Robson Jorge na transformação da música brasileira em um engodo comercial. Olivetti e Jorge pasteurizavam a MPB, enquanto Sullivan & Massadas davam um verniz nobre ao brega vigente no establishment rural e suburbano dos anos 70.

A MPB, na boa-fé, permitiu que o brega-popularesco crescesse sob seu apoio, vendo nos ídolos cafonas uma multidão de "filhos" dóceis e simpáticos. Não viram a armadilha que havia por trás, onde interesses latifundiários e político-conservadores usavam da cafonice musical - um engodo que traduzia muito mal as influências estrangeiras num confuso e inexpressivo pop provinciano - um meio de promover o conformismo do povo pobre e miserável.

Com isso, a MPB, que através dos CPC's sonhava numa aliança, sincera e não apenas "consumerista", com as classes populares, foi deixada para segundo plano, mais para "alimentar" as investidas oportunistas de pedantes da música brega, como breganejos e sambregas. A pasteurização da MPB a encheu de pompa, de luxo, daí a gradual perda de diálogo com o povo. A MPB acabou confinada nas trilhas de novelas da Rede Globo, que se tornaram único (e cruel) meio para artistas de qualidade divulgarem seu trabalho para mais pessoas.

O povo, por outro lado, desaprendeu a apreciar música de qualidade. A verdadeira música popular nunca foi cafona, não tem a ver com a breguice reinante de hoje. A história da música brasileira era marcada pela inteligência, mesmo na mais modesta das simplicidades. Porque era uma música que transmitia conhecimento, era arte, era verdade, não era um simples entretenimento lisonjeado pela mídia. Até porque a grande mídia era ainda incipiente, as elites ainda não decidiram a manipular a cultura popular.

Hoje a MPB vive um sério dilema. Terá que continuar sendo uma Academia Brasileira de Letras musical ou terá que virar uma "casa da sogra", um PMDB musical marcado pelo fisiologismo, onde vale tudo, dos berros breganejos, dos passinhos pagodeiros e do rebolado funkeiro. Se a cultura brasileira anda fraca com tanto baixo nível - onde o "menos ruim" é tido como "muito bom" - , é sinal que o país está socialmente fraco. É preciso dar uma mexida nessa situação.

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