terça-feira, 17 de julho de 2012

MORRISSEY E A APOSENTADORIA DA MÚSICA


Pode parecer um texto tardio, mas só resolvi escrever a respeito agora. Há algumas semanas, o cantor inglês Morrissey, um de meus ídolos desde a adolescência, afirmou em uma entrevista que estava se sentindo velho e que pretendia se aposentar em 2014, apesar da grande popularidade que tem e pelas apresentações sempre lotadas de fãs entusiasmados.

Eu tentei até ver a apresentação ao vivo no computador pelo Terra Live, a apresentação em São Paulo cujos ingressos se esgotaram bem antes. Mas não consegui, o Terra reprisava sempre o programa Terra Live com Pitty e Cachorro Grande, e, em que pese sempre ser bom ver a beleza e o talento de Lorena Calábria, o meu propósito, naquele fim de noite de domingo, era ver o Morrissey.

Sobre a aposentadoria de Morrissey, algo comparável ao fim do R. E. M., que já havia sido anunciado muito antes - é bom deixar claro que, nos discos da IRS, Michael Stipe e seus então parceiros numeravam seus discos sugerindo uma hipotética contagem regressiva de sua carreira - , a gente fica a pensar sobre as questões da música mundial, e a da música brasileira em particular.

Afinal, Morrissey e R. E. M. são artistas autênticos, que primam não só pela qualidade musical, mas também pela integridade artística, pela sinceridade. Artista sincero não é aquele que mostra escancaradamente as casas onde viveu na sua infância nem seus familiares e parentes em programas de TV. Sinceridade é muito menos uma questão de ostentação do que uma questão de honestidade.

E o que vemos no brega-popularesco de hoje? Não seria melhor seus "artistas" se aposentarem o mais rápido possível? A geração de neo-bregas dos anos 90 (Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Belo, Banda Calypso, Chiclete Com Banana, Latino, Daniel, Leonardo e Alexandre Pires, entre outros) só estão fazendo CDs e DVDs ao vivo, um atrás do outro, sugerindo uma fase "revisionista" não assumida.

Eles acabam sendo saudosistas de si mesmos, apesar de vender uma imagem falsa de "artistas atuais e em plena atividade". Sentem saudade dos sucessos dos anos 90, e hoje estão mais em evidência como celebridades - no sentido de "celebridade" que vemos nos ex-integrantes do Big Brother Brasil - do que como artistas. Se antes eles, como "novidade", já eram medíocres, hoje eles precisam fazer outros artifícios para esconder o evidente esgotamento artístico.

Aí gravam com orquestras, falam bobagens de "efeito" na imprensa, fazem piruetas, arremesso de chapéu para a plateia, convidam Neymar para fazer embaixadinha, fazem choradeira ao lado de intelectuais. Esses ídolos não gravam uma música que preste, e, depois de uns poucos sucessos, tornam-se ainda mais cansativos musicalmente.

Só que, em vez de se aposentarem, talvez investindo em um outro negócio e, quando muito, fazer apresentações esporádicas, eles forçam a barra. Aparecem nos programas de TV a qualquer pretexto. Dão qualquer entrevista e, em certos casos, forjam até crises conjugais com seus cônjuges para fazer notícia. Se chegam ao ponto de plantar factoides para estarem em evidência, é sinal de que algo está errado.

Mas, fora da música, há até o caso de "popozudas" balzaquianas, que, em sua boa parte, em outros tempos haviam integrado a "Banheira do Gugu" (primeiro "celeiro" de musas vulgares da TV brasileira), e que tentam insistir "mostrando-se demais" na mídia. As "musas" dessa época, surgidas nos anos 90, estão hoje "encalhadas" e desesperadas em se manterem na mídia a qualquer custo, até às custas do seu pavio curto.

Não que uma trintona tenha que virar uma velha depois de 35 anos. Bem longe disso. Só que existe uma grande diferença entre uma mulher que se mantém jovial se evoluindo com inteligência e experiência e uma mulher que envelhece querendo se passar por "gostosa" à força e da maneira mais fútil e inútil.

No âmbito da vulgaridade feminina, "musas" sem qualquer importância se estagnam na mesmice de suas exibições corporais, tentam forjar notícia por nada, por coisas tolas que só fazem vender revistas "sensuais" e jornais "populares". E ainda não aguentam serem criticadas, se irritam, se enfurecem.

A mediocridade é assim. Ela quer se perdurar, porque seus envolvidos não têm outra coisa a fazer. Têm o apoio da grande mídia, tentam prolongar suas carreiras por nada, em atos em boa parte orientados por seus agentes e pelos executivos da grande mídia. Tentam transformar o inútil em eterno. Até o dia em que mesmo os seus fãs mais fanáticos se entediem com eles.

Enquanto isso, artistas e personalidades de verdade seguem suas carreiras, independente de suas noções de quando devem ou não se aposentarem. Esses, sim, são figuras humanas de verdade.

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