sexta-feira, 6 de julho de 2012

"MALDITA 3.0": O RADIALISMO ROCK EM DEBATE


Felizmente, vivemos em tempos diferentes. Uma rádio de rock ganha exposição e ciclo de debates, uma iniciativa que não era imaginável há duas décadas atrás.

Nessa época, discutir o radialismo rock era um grande tabu. Não só de parte de quem não curte rock, mas justamente porque qualquer rádio que usava o rótulo "rock" era praticamente endeusada. E foi muito difícil chegarmos ao estágio atual.

Não havia discernimento. Qualquer rádio comercial que, sem mexer na sua estrutura nem na sua filosofia de trabalho, empregasse apenas uns três produtores que entendiam de rock (geralmente de forma superficial) e tocasse repertório previamente bolado pelo que as gravadoras consideram "rock", era claramente endeusada, pela imprensa e pela opinião pública.

Pouco importava se a rádio havia tocado Fábio Jr. e Wando na véspera, e o mesmo locutor que os elogiava passava, no dia seguinte, a "babar o ovo" nos Ramones e em Ozzy Osbourne. A imprensa especializada publicava a notícia da "guinada" e qualquer um que escrevesse uma carta dizendo que a programação da tal "rádio rock" era frouxa ia para o lixo.

Havia um protecionismo muito grande a essas rádios, que apenas pegavam macetes ou mesmo estereótipos do radialismo rock e trabalhavam da forma mais caricata possível. O modismo grunge (Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, Soundgarden) fez surgir uma infinidade de "rádios rock" que se apagaram na memória, de tão ruins.

Mas naquela época até jornais de surf, lojas de discos e promotores de rock faziam parceria com essas rádios comerciais, e quem criticasse também era espinafrado por editoras de jornais e lojistas. Havia a utopia de que essas rádios aperfeiçoassem seus formatos ao longo dos anos (geralmente, se o Ibope deixar). E, dependendo desse "ao longo dos anos", o moleque de 16 anos que ouvia a tal "rádio roque" só veria sua rádio ficar "melhorzinha" quando já se tornasse um pai de outro moleque de 16 anos.

Nos anos 90, o radialismo rock passou por uma fase trevosa. Os mais entendidos de rock, que poderiam estar num estúdio de rádio, tinham que se consolar nas oficinas de consertos de aparelhos de som e TV. Enquanto isso, as chamadas "rádios rock" eram povoadas de garotões que mais pareciam animadores de ginástica aeróbica, que entendiam tanto de rock quanto um carnavalesco normalmente entenderia de física nuclear.

Isso se deu porque as rádios pop que vieram antes geraram uma demanda tão grande de locutores do gênero que parte deles, sem mercado para trabalhar, foram invadir o radialismo rock, só porque tinham diploma e algum conhecimento de inglês. Mas não tinham entendimento algum com rock, esperavam que algum músico ou produtor de rock lhes dissessem o que era tendência no rock no momento.

Como as rádios acabaram se desgastando, com seu desempenho irregular, o mercado na época fez dizimar a primeira geração de rádios autenticamente rock, surgidas nos anos 80: de uma só tacada, as rádios Fluminense FM (Niterói), 97 FM (São Paulo), Estação Primeira (Curitiba), entre poucas outras, deram lugar a rádios de pop dançante ou a "Aemões" noticiosos.

Mas o pior estava por vir. Enquanto não havia mais substitutas reais das antigas rádios de rock dos anos 80, a diluição do radialismo rock se seguiu com outras rádios, desta vez com a rede da 89 FM, rádio paulista controlada por uma oligarquia conservadora paulista. A 89 FM durante muitos anos era uma espécie de "vaca sagrada" do radialismo rock por ter sido a primeira a prometer uma "programação alternativa" dentro de um suporte comercial impecável.

Só que a 89 sucumbiu a muitas contradições, que a princípio era tabu questionar. "Vamos apoiar a 89, ela vai tomar um jeito", muitos acreditavam. Enquanto isso, a Fluminense FM era vista como derrotada, o que era verdade, mas a má reputação atingia até mesmo sua fase áurea, dos anos 80. Os erros da Fluminense eram superestimados. Os da 89, que não eram poucos nem menos graves, subestimados.

Com isso, a 89 - protegida da Folha de São Paulo e do Grupo Abril - , que nunca engoliu o fim de sua afiliada de Recife, criou sua rede tomando como foco inicial o Sul e Sudeste. Sua principal parceria foi com a Rádio Cidade, emissora pop que nunca teve qualquer vocação real para ser "rádio de rock" e que hoje se encontra numa situação insólita, tendo de mudar de nome para honrar o formato original, porque, se usasse o nome original, teria que adotar a fórmula "roqueira" de lamentável lembrança.

E aí, deu no que deu. Enquanto qualquer defeito da Rádio Cidade era visto por alguns como "qualidade" - havia até críticos musicais que não suportavam a pressão dos leitores contra a rádio - , qualquer qualidade da Fluminense FM era visto como "defeito mortal".

Chegou-se ao ponto de superestimar o conflito entre a corrente tradicionalista do produtor Alex Mariano e a modernização eclética de Maurício Valladares. Como se Mal Val, depois tocando seu "Ronca Ronca" num horário da Rádio Cidade, não fosse capaz de brigar com os "farofeiros" desta, como Rhoodes Dantas e outros.

Foi difícil. Até eu recebi ameaças e ofensas violentas por ter questionado o totem "roqueiro" da Rádio Cidade. Mas felizmente o resultado está aí, e hoje se discute o radialismo rock e, graças ao esforço meu na Internet, a Fluminense FM é relembrada pelas gerações mais recentes, o que estimula aos mais velhos recuperar sua memória, mesmo com os 94,9 mhz hoje ocupados pela insossa Band News FM.

E no dia 11 próximo, será iniciado o evento "Maldita 3.0", uma exposição com ciclo de debates que estimulará até mesmo quem nunca pôde ouvir a emissora na sua fase áurea a analisar o radialismo rock. Ainda bem que a memória curta não prevaleceu e hoje há uma disposição maior dos mais jovens em entender o que foi uma rádio de rock como a Fluminense e por que ela foi um diferencial que não foi superado sequer pelas mais festejadas rádios pseudo-roqueiras que depois vieram.

Vale lembrar que, hoje em dia, o jornal O Fluminense disponibiliza web radios derivadas da Fluminense, mas são apenas vitrolões roqueiros que nem sempre acertam no repertório.

Aqui vai a agenda do evento, produção do Coletivo Digital e com curadoria do ex-produtor da Fluminense, Alessandro ALR. O evento será realizado no Centro Cultura dos Correios, no Centro do Rio de Janeiro (do começo da Av. Pres. Vargas, depois da Praça 15, sentido Zona Portuária), curiosamente na Rua Visconde de Itaboraí, homônima ao da antiga sede da "Maldita". Alguns detalhes:

. Mostra de Fotografia
    Alguns dos momentos que ficaram eternizados na história da Rádio Fluminense Fm, estarão reunidos na mostra de fotografia envolvendo diversos anos e equipes.
    . Acervo
    Pela primeira vez serão reunidos os itens do acervo da rádio e acervos particulares, que alguns colaboradores gentilmente aceitaram compartilhar.
    . Estúdio
    O visitante da exposição poderá ver de perto uma remontagem do primeiro estúdio da rádio com equipamentos originais da época.
    . Cine
    No local da exposição será montado um cinema que exibirá vídeos exclusivos sobre a Fluminense FM, entrevistas, depoimentos e o curta "A Maldita", que fala sobre a origem da rádio nos anos 80.
    . Painéis
    Os painéis serão debates realizados com ex-integrantes, produtores culturais e jornalistas da época, falando como era fazer a rádio, detalhes da cena cultural e episódios curiosos.
    Realizados no próprio Centro Cultural dos Correios, a entrada nos painéis também será gratuita, bastando a retirada de uma senha uma hora antes do início de cada painel. Os mesmos serão realizados as quartas-feiras, às 19 horas, dias 18 e 25 de Julho e 1º de agosto.

> Relação de alguns dos itens expositivos:
. Guitarras autografadas exclusivamente para a rádio por bandas como: Oasis, Echo and The
Bunnymen, Legião Urbana, Plebe Rude
. Bateria autografada Foo Fighters
. Violão autografado pela cantora Cássia Eller
. Skate do Beastie Boys autografado pelos seus integrantes, incluindo o falecido MCA
. Cartazes de shows da época
. Discos de Platina da rádio de bandas como: Metallica, Linkin Park, Pink Floyd, U2,...
. Discos promocionais
> Programação Painéis:
Os painéis serão debates realizados com ex-integrantes, produtores culturais e jornalistas da época, falando como era fazer a rádio, detalhes da cena cultural e episódios curiosos. Realizados no próprio Centro Cultural dos Correios, a entrada nos painéis será gratuita, bastando a retirada de uma senha uma hora antes do início de cada painel.
Os mesmos serão realizados todas as quartas, às 19 horas.
Painel "Primeiras Emissões"
18/Jul
No primeiro, serão abordados temas como detalhes do cenário da época, as primeiras emissões da rádio, os eventos iniciais, além de uma análise sobre quanto a rádio contribuiu para o desenvolvimento da vida cultural a partir dos shows e festas.
1) Jussara Simões (Produtora Circo Voador)
2) Maria Estrella (Autora do livro "Rádio Fluminense FM - A Porte de Entrada do Rock Brasileiro nos anos 80")
3) Eulina Rego (Locutora)
4) Sérgio Vasconcellos (Um dos fundadores, 1º produtor e criador do programa "Revolution")
5) Amaury Santos (Editor e programador de música brasileira da rádio)
6) Luiz Tiribas (projeto "TV Maldita")
Painel "Nas ondas da surf music"
25/Jul
No segundo painel será mostrada como foi a trajetória campeã que levou a rádio a ganhar, por três vezes consecutivas, o título de melhor rádio surf do planeta. Além de um bate-papo com a diretora do primeiro curta produzido sobre a Maldita.
1) Roberto Basílio (Coordenador)
2) Raquel Ricardo (Locutora)
3) Sérgio Pitta (Programa)
4) Lia Easter (Locutora)
5) Cláudio Salles (Coordenador)
6) Tetê Mattos (Diretora do curta "A Maldita".)
Painel "Manifesto Digital"
01/Agost
Ainda na AM, em 2001, e depois na sua volta ao dial FM, em 2002, a Rádio Fluminense começava a se deparar pela primeira vez com os desafios e mudanças que vieram com a difusão da internet no Brasil. Mesmo que ainda timidamente, o uso da web começava a modificar parte da produção de conteúdo da rádio.
1) José Roberto Mahr (Coordenador)
2) Leandro Souto Maior (Programador)
3) Paulo Lopez (Coordenador Promoção)
4) Keli (Locutora)
5) Selma Boiron (Locutora)
6) A confirmar (Locutora)
Mais informações:
www.maldita30.com
http://www.facebook.com/malditaweb
https://twitter.com/MLDTA30
Produção e Curadoria
Alessandro ALR
Serviço:
Exposição: de 11/julho/2012 a 12/agosto/2012
Ter/Dom, das 12h às 19h
Centro Cultural Correios (ao lado do CCBB-RJ)
Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro - Corredor Cultural
CEP: 20010-976 - Rio de Janeiro - RJ Telefone: 0XX 21 2253-1580
E-mail: centroculturalrj@correios.com.br




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