segunda-feira, 23 de julho de 2012

MALDITA 3.0 E A MEMÓRIA DO RADIALISMO ROCK


É bacana ver o amigo Marcelo Delfino, autor do Blogue do Delfino e do Tributo ao Rádio do RJ na reportagem e numa das fotos de ontem/hoje da revista OFlu, do jornal niteroiense O Fluminense. "Ontem/hoje", porque o periódico não sai nas segundas-feiras, e a edição dominical fica valendo também para o dia seguinte (só na Internet é que há atualização).

O evento Maldita 3.0 é uma excelente homenagem à trajetória da Rádio Fluminense FM, rádio que eu ouvi muito nos anos 80, e mesmo a fase inicial, apesar dos meus onze anos de idade (já em 1982), eu acompanhei por intermédio de um vizinho. E com 13 anos (1984) eu passei a sintonizar a Flu por conta própria.

Marcelo Delfino não acompanhou a fase inicial da Flu, mas a conheceu no final dos anos 80, quando Luiz Antônio Mello, numa segunda experiência na rádio, interviu e acabou com os focos de "ecletismo" que ele identificou na rádio.

Mas Marcelo Delfino, como pesquisador de rádio, sempre fica por dentro até de coisas que não vivenciou, e ele, incansável, não teme encarar polêmicas nos fóruns sobre rádio, quando questiona o conformismo e o comodismo de outros radiófilos, que encaram de forma subserviente muitas "novidades" do rádio impostas pelo mercado.

Ele, da mesma forma que eu, é um dos poucos preocupados com a crise do rádio AM, por exemplo, e também dos que não engolem essa farsa de "gagá contemporâneo", que Delfino chama as rádios adultas que, na prática, ressuscitaram aquele formato apático de FMs "só sucesso" do começo dos anos 70, com direito a locutor "leitor de bula" e tudo.

Quanto ao "Aemão de FM", espécie de "AM sem alma" que insiste em irradiar na Frequência Modulada, eu e Delfino somos poucos mas coerentes críticos desse embuste que anda sendo surrado, no Ibope, até por TVs por assinatura (embora a chamada "propriedade cruzada" dos grupos midiáticos, por razões óbvias, pouco se importa se uma "Rádio Globo AM" FM é surrada no Ibope pelo canal Sportv, por serem ambos do mesmo dono).

Enquanto muitos, iludidos, acham que o "Aemão em FM" vai trazer cidadania, prestação de serviço e informações esclarecedoras, nós, mais céticos, vimos que o embuste apenas transforma o rádio FM numa televisão sem imagem, maçante, popularesca, pedante.

E o "Aemão em FM" vitimou a antiga frequência da Flu FM. É irônico que o desempenho, em audiência, da Band News Fluminense FM é hoje comparável ao que a Fluminense, em fase decadente, tinha entre 1990 e 1994, apesar dos astros oriundos da TV Bandeirantes ou da Folha de São Paulo. A Band News já teve, pelo menos, duas "ondas" de demissões coletivas, uma delas já em 2006.

Isso porque o "Aemão em FM" tornou-se uma fórmula muito antiquada. É muito fácil jogar um rádio AM velho para as ondas de FM do que reformular a Amplitude Modulada. Em ato falho, vários países estão extinguindo a sintonia AM, em vez de modernizá-la. E isso cria um colapso enorme no rádio como um todo, já que sua história, na prática, sofre rupturas violentas que, em vez de renovar o rádio, o abatem violentamente. E, sabemos, o rádio FM nunca vai reescrever a história do AM.

Além disso, a blogosfera e o trânsito de informações nas redes sociais faz com que, hoje, as chamadas "rádios allnews", que prometiam "carregar o mundo" com suas antenas, mais pareçam versões extended mix do antigo "gilette press" (como eram conhecidos pejorativamente os boletins noticiosos de FM), apenas temperados por um opinionismo não raro pedante e tendencioso.

Nem mesmo a instantaneidade, considerada a "moeda de ouro" do "Aemão de FM", é mais valorizada como a "salvação da lavoura" que se via antes. O que é a instantaneidade hoje, se uma informação se propaga em dois minutos? Que graça tem alguém lançar uma notícia em primeira mão se em dois minutos ela já foi não só difundida, mas ampliada e atualizada por outras fontes?

MALDITA QUASE CAIU NO ESQUECIMENTO

Quanto ao radialismo rock, a Internet também permitiu que certas fraudes historiográficas fossem feitas. Até mesmo os primeiros anos da Internet no Brasil foram marcados por um obscurantismo e uma distorção de valores que chegou a condenar a Fluminense FM ao limbo, em que pese toda a trabalheira de Luiz Antônio Mello e sua equipe.

Isso porque, enquanto a Fluminense passava por fases decadentes, sem ter que propagar seu estilo e linguagem para outras rádios, o radialismo rock, às custas de certos modismos (Rock In Rio, grunge etc), foi invadido por emissoras sem qualquer competência para o ramo, dotadas, quando muito, de uns dois ou três produtores de rock que apenas seguiam, quase que "por automático", o que as gravadoras indicavam sob o rótulo de "rock".

Elas queriam fazer "mais história" que a Fluminense, enquanto certos internautas - que confundiam rebeldia com irritabilidade fácil - falavam mal até das virtudes da rádio. O mesmo era feito com os fanáticos do Charlie Brown Jr., que chegaram a desmoralizar a Legião Urbana sob o pretexto de que Renato Russo havia gravado canções italianas.

O esforço de retomar a memória da Fluminense FM partiu de várias pessoas. Mas eu havia contribuído lançando muitos textos sobre radialismo rock, reforçando as ideias de Luiz Antônio Mello ou me baseando de exemplos como Kid Vinil, Leopoldo Rey, José Roberto Mahr e outros. E cheguei a ser espinafrado porque divulgava e interpretava ideias e conceitos usados por esses admiráveis batalhadores!...

Nessa época, "radialista rock" era gente como um Rhoodes Dantas que afirmava odiar rock e um Zé Luís que fica melhor como garoto-propaganda das Casas Bahia. Entre 1990 e 2006, quem entendia de rock que arrumasse bico consertando equipamentos de som em pequenas oficinas, que era o que os possíveis herdeiros de Luiz Antônio Mello e Leopoldo Rey faziam em várias cidades, nos anos 90.

Até hoje, muitas capitais brasileiras nunca puderam ouvir uma rádio como a Fluminense FM. Que, mais como uma rádio de rock, era uma emissora com personalidade rock. Afinal, não basta tocar rock, é preciso ter também o estado de espírito necessário, a vocação e a emoção. Virou até clichê muitas rádios pop enrustidas, só para dizer que são "rádios rock", fazem aquelas vinhetas tolas com o sintetizador imitando acorde de guitarra e um cara falando "rock" como se estivesse arrotando.

Portanto, nada de "Jovem Pan 2 com guitarras", "SBT com guitarras" ou coisa e tal. O tempo mostrou também que muitos desses "roqueirões" posudos hoje trabalham com tudo aquilo que diziam condenar, alojados na Beat 98 ou na Nativa FM (paulista) com breganejos, menudos e funqueiros, ou então como locutor esportivo, como o baiano Thiago Mastrioanni, da antiga pseudo-roqueira 96 FM (depois entregue a Edir Macedo).

O radialismo rock foi melhor representado pela Fluminense FM. E fico feliz porque sua memória é revalorizada. Eu contribui muito com isso, mas até hoje ninguém me procurou. Tudo bem, não quero me envaidecer com isso, minha contribuição apenas é um fato. Fui colunista no portal da Rocknet, de Luiz Antônio Mello e tenho mais de dez anos de textos informativos sobre diversos assuntos.

Mas isso é um trabalho. Não quero me promover com isso. Apenas quero dizer que fiz, que ajudei um pouco nessa revalorização da Fluminense FM. E fico feliz com a exposição, que se dará até agosto, incluindo debates e exposições sobre essa brilhante rádio. E minha maior felicidade é que as gerações recentes, que não vivenciaram a Fluminense, podem conhecer de fato o que significou a rádio.

E, sem dúvida alguma, esse legado da Fluminense serve de subsídios para a nova experiência que a Kiss FM terá no Rio de Janeiro. E vale a pena aproveitar.

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