segunda-feira, 16 de julho de 2012

HOMENS COM MAIS DE 45 ANOS PODEM USAR TÊNIS O TEMPO INTEIRO


Quem tem mais de 45 anos, sobretudo quem nasceu na década de 1950 no Brasil precisa rever imediatamente seus padrões de elegância.

Aquela obsessão de usar sapatos de verniz ou tratar como casual o mesmo conjunto de terno e gravata apenas sem a gravata e o paletó, em vez de significar uma preocupação constante com o bem vestir, acaba se tornando um modo preguiçoso de vestir.

Diz a piada que, para o homem que não sabe ser elegante, basta usar terno e gravata o tempo inteiro ou, quando muito, tirar apenas o paletó e a gravata, apenas usando camisa de colarinho, ou então tirar a camisa de colarinho e usar uma camisa polo qualquer.

Tudo fica preguiçoso, cômodo demais, e o que poderia ser um zelo maior com a elegância se torna, por causa do contexto, uma deselegância no sentido linguístico do termo. Pois a elegância é acima de tudo situação, e a elegância excessiva, fora do contexto, torna-se essencialmente uma falta de elegância, pela preguiça com que se adota um vestuário tido como "elegante".

Isso é muito trabalhoso para quem, nascido nos anos 50 e se tornando profissionais liberais, empresários e executivos, acreditou tanto num paradigma de "coroas" que eles tanto vislumbraram pelos anúncios publicitários das revistas e pelos programas de televisão, no começo da década de 1950.

Sonhar com aqueles senhores engravatados e grisalhos de 47 anos, dançando com donzelas trintonas ao som de "Cheek to Cheek", era o máximo para aquela turminha de cerca de 17 a 22 anos que, lá pelos idos de 1972, se preparava para a vida profissional e para os cursos universitários.

Apegados demais aos conselhos dos mais velhos, essa turminha se tornou os "yuppies" dos anos 80, que no entanto deixaram de se divertir na vida porque estavam muito ocupados em seus trabalhos de empresários, médicos, advogados, engenheiros, publicitários etc, ou então estavam preparando suas teses de mestrado. A essas alturas, eles eram trintões e encaravam seus primeiros casamentos e filhos.

Sem saber que seus caminhos os separavam seriamente de seus próprios colegas de geração - aqueles que se tornaram surfistas, roqueiros, agitadores culturais, artistas performáticos etc - , os yuppies dos anos 80, ingênuos garotos setentistas que sonharam com o glamour da época, se tornaram coroas ascendentes nos anos 90, já desfeitos de casamentos fracassados e com namoradas e esposas mais novas.

Aí eles, vendo seus primeiros fios brancos nos cabelos, eles passaram a imitar o tipo de "coroas" que aprenderam de seus pais ou de padrões vigentes nos anos 70. Passaram a brincar de serem velhos, apesar da boa aparência de suas jovens esposas. E passaram a forçar a barra, atribuindo para si referências mais antigas adotadas não por uma identificação pessoal com o passado não vivido, mas de uma forma pedante para impressionar seus antigos mestres e outros entes mais velhos.

Nascidos nos anos 50, passaram a sonhar com valores dos anos 40 que, em boa parte, já caducaram. Tentam dar a impressão que, em vez de rock e MPB, ouviam na adolescência os standards de Hollywood. Sempre citam algum referencial mais antigo que eles em seus livros, palestras e depoimentos.

Criam até alguns clichês do que apreciam: pintura impressionista do século XIX, velhos chalés da Europa, centros antigos de Roma, os tais standards, a literatura norte-americana dos anos 30-40 e por aí vai. E, evidentemente, evitam visitar Londres, já que na capital inglesa a geração nascida entre 1950 e 1955 é conhecida por ser a maior parte da primeira geração do punk rock que varreu a Grã-Bretanha em 1976.

Precisam provar que são "antigos", na esperança de serem vistos como "maduros". Não conseguem. Com os avanços do chamado "poder jovem", o comportamento que esses "coroas" adotaram deixou de expressar alguma autoridade. Já nem é mais considerado o modelo de sucesso e nem as colunas sociais, já recheadas de linguagens pop, os veem com a prioridade de antes.

Aí as coisas mudam e até mesmo aquele hábito de andar de sapatos de verniz o tempo todo, um paradigma de "ser adulto" que vigorou soberano até 1982, acaba perdendo o sentido. E, o que é pior, vemos homens mais idosos que os born in the 50s mais susudos andando de tênis até mesmo quando usam paletós. Vergonha para os empresários, executivos e profissionais liberais que, nascidos entre 1950 e 1955, usam sapatos de verniz até para comprar pão na esquina.

Os sapatos de verniz, que eram o "diferencial" do homem "sério", passaram a significar não sinônimo de elegância social, mas um incômodo de alguém que não sabe se vestir conforme a ocasião e usa velhos padrões de elegância por preguiça. Hoje os tempos são outros e uma pessoa pode usar tênis o tempo todo, em vez dos tais sapatos de verniz, sem ser considerada "infantil" ou "deselegante".

Os sapatos de verniz e outros similares, com aquele design sem graça com o salto duro, a cada dia deixam de ser "calçados sociais" para serem apenas usados em ocasiões extremamente formais. Já deixaram de reinar nas caminhadas e passeios nas praias, por recomendações de ortopedistas. Deixaram de ser calçados ideais para se ir ao cinema ou ao teatro, ou se passear num centro comercial.

A cada dia aqueles sapatos bicudos de saltos duros e bem engraxados estabelecem sua aposentadoria no lazer dos homens, sendo mais associado a formalidades extremas, aquelas em que o rigor formal é evidente. Mas um homem de cerca de 45 ou 55 anos passear de sapatos de verniz sem qualquer motivo, em vez de ser um homem elegante, está sendo apenas antiquado e "careta" demais. E, por incrível que pareça, antiquado até mesmo para as exigências de sua geração.

Já não se pode mais ser "coroa" como há 40 anos atrás...

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