terça-feira, 3 de julho de 2012

"FUNK CARIOCA" PERDE SUA RÁDIO EXCLUSIVA



Embora o episódio seja resultante de uma série de competições envolvendo seitas religiosas no Brasil, cada uma formando dissidências ou fazendo disputas e até trocas de acusações, a notícia em questão pegou de surpresa a chamada "nação funqueira" do Rio de Janeiro.

Pois a rádio Furacão 2000 FM, única rádio de grande porte dedicada ao ritmo brega-popularesco, decidiu não renovar o arrendamento da outorga dos 107,1 mhz, pertencentes a uma rádio de Petrópolis, e já está fora do ar.

No lugar, entrou a programação da Igreja Mundial Renovada, já com o nome mudado para Igreja da Fé Renovada em Cristo. A igreja foi fundada pelo "bispo" Roberto Damásio, dissidente da Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdemiro Santiago, que havia sido vítima de "denúncias" em programas da Rede Record, inclusive os próprios da Igreja Universal do Reino de Deus.

É sintomático, aliás, que Valdemiro Santiago tenha recebido ataques de Edir Macedo e também de outro líder evangélico, Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, por sua vez uma dissidência da Assembleia de Deus. Não bastasse isso, há a Igreja Internacional da Graça de Deus, de R. R. Soares. E tanto as seitas de R. R. e de Edir surgiram da antiga Nova Vida, fundada em 1960 no Brasil pelo "bispo" norte-americano Robert McAllister.

Ou seja, é uma verdadeira "torre de babel" essa onda de seitas neo-pentecostais. E a cada "nova igreja" que surge, surgem disputas e arrendamentos de rádios. Mas, disputas à parte, o conteúdo das rádios é praticamente o mesmo: canções evangélicas, orações e cultos.

Quanto ao "funk carioca", o fim da Furacão 2000 representa o começo do desgaste do gênero. Altamente ambicioso, o "funk carioca" tentou compensar sua natural mediocridade artística - onde apresenta sérias limitações de linguagem - com um discurso pseudo-etnográfico, moldado por um poderoso lobby de intelectuais, artistas e celebridades.

O ritmo também tornou-se conhecido por fazer um jogo duplo com a mídia, vendendo um discurso "socializante" que nada tinha de esquerdista. Mesmo assim, o caráter proselitista do "funk carioca" tentou seduzir partidos políticos e periódicos esquerdistas, sem muito sucesso. Por outro lado, os mesmos "militantes" funqueiros não mediam escrúpulos também em aparecerem em veículos conservadores, como a Rede Globo e a Folha de São Paulo.

Na verdade, o sucesso que essa campanha toda se deu foi apenas a reciclagem de modismos funqueiros que agora se tornaram "permanentes". O discurso "socializante" não transformou o "funk carioca" em fenômeno "socialista" até porque, nos bastidores, os funqueiros falavam muito mal das esquerdas.

O grosso do êxito se deu porque o discurso "socializante" foi propagado pela mídia comum, com a ajuda decisiva das Organizações Globo que, durante um bom tempo, enfiava o ritmo em tudo quanto era programa ou veículo associado, do Caldeirão do Huck (de onde surgiu a gíria "é o caldeirão") a seriados como Sob Nova Direção, passando por humorísticos e personagens de novelas e pelos canais pagos Multishow, Futura e GNT, além de periódicos como O Globo e as revistas Época e Quem Acontece.

A própria rádio Beat 98 FM, do Rio de Janeiro, que será agora o reduto dos órfãos da Furacão 2000 FM, sempre deu espaço ao gênero, ainda que de forma não exclusiva - já que a rádio, junto a isso, toca breganejo, sambrega e gangsta rap - , mesmo quando seus pregadores diziam que o ritmo "não aparecia" na grande mídia.

Ultimamente, o desgaste do "funk carioca" está claro pelos sucessos repetitivos, ultimamente limitados a uma colagem de sons de sirene, baixarias de MCs, balbuciações dos MCs de apoio (o tal do "tchuscudá" ou o "tchu, tchá" difundido pelos breganejos João Lucas & Marcelo) e scratches que imitam galope de cavalos.

Além disso, o aumento de incidentes criminais envolvendo funqueiros, inclusive uma onda de assassinatos de MCs na Baixada Santista contribui para o desgaste. A ligação de simpatizantes funqueiros com a mídia conservadora (com ramificações até no reacionário Instituto Millenium) também põe em xeque a "militância socializante" atribuída ao gênero.

Outro aspecto agravante é que mesmo os nomes mais populares do gênero, Mr. Catra e Gaiola das Popozudas, também são associados à baixaria midiática que anda causando muitos protestos na Internet. Mr. Catra havia se envolvido, como convidado em uma música de Alexandre Pires, num processo do Ministério Público que acusava o clipe da música "Kong" de incitar o racismo.

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