sexta-feira, 13 de julho de 2012

CELSO FONSECA PEDE AJUDA A MC LEOZINHO PARA ESTAR NA MÍDIA


A mediocridade musical que toma conta de rádios e TVs possui um forte esquema de blindagem, um poderoso lobby de intelectuais, artistas e celebridades, para os quais a ditabranda do mau gosto é uma "corajosa frente de resistência cultural" no país.

Por trás dessa defesa extremada ao brega-popularesco, que vai desde antropólogos e sociólogos a músicos de MPB e atores de novelas, há todo um jogo de interesses que nunca é declarado. Por exemplo, um crítico musical que elogia o brega ganha passaportes de graça para viajar pelo resto do Brasil e até no exterior. Um antropólogo que elogia o brega praticamente tem suas bolsas de pesquisas bancadas pela indústria do entretenimento.

Por sua vez, cantor de MPB defende o brega porque é o brega que, tendo um latifundiário por trás, vai colocar o cantor de MPB naquele festival de inverno do interior do país, num Estado onde o latifundiário exerce seu poder, apadrinha os ídolos bregas e patrocina os festivais "culturais" que ocorrem no lugar.

Depois que Kiko Zambianchi mostrou sua lucidez disparando seu desabafo contra a mediocrização cultural, um músico da mesma geração, Celso Fonseca, fez o extremamente oposto. Celso saiu em defesa de ídolos brega-popularescos como MC Leozinho, José Augusto e outros, e no jornal O Globo saiu uma reportagem com ele e Ana Carolina defendendo o "mau gosto" como se fosse uma "causa nobre".

Ana Carolina é um caso óbvio. Ela, que saiu em defesa até de Waldick Soriano, tem que defender o brega-popularesco, como o talentoso sambista Arlindo Cruz, por exemplo, porque precisa se apresentar nos mesmos locais onde se apresentam os ídolos brega-popularescos. É uma espécie de jabaculê. Caso contrário, Ana Carolina não vai para locais como o Vibe Show nem terá acesso em festas como Barretos ou outros festivais onde os bregas são as atrações principais.

MC LEOZINHO NÃO ESTÁ FORA DA MÍDIA; CELSO FONSECA, SIM

Celso Fonseca, que incluiu músicas de Claudinho & Buchecha e a intragável "Ela Só Pensa em Beijar" de MC Leozinho, declarou que desejaria que as pessoas se lembrassem do funqueiro daqui a 50 anos como as pessoas hoje se lembram de Tom Jobim. Disse que o brega-popularesco "tem grandes canções" e as pessoas "não ligam" para questões se tal música "é brega" ou não.

A impressão que se tem, nesse episódio, é que Celso Fonseca está no topo da mídia e que MC Leozinho, pobrezinho, é que está fora da mídia, que o expulsou feito vira-lata na entrada de um shopping center. Grande engano. Mais uma vez, não é o brega-popularesco que mendiga espaço na mídia e no mercado, quem mendiga espaço na mídia e no mercado é a MPB/Rock Brasil em busca de visibilidade e sucesso.

Junta-se a isso a uma carência de ídolos da MPB/Rock Brasil de verem algum novo gênio da canção popular. Querem, com isso, exercer seu paternalismo, apoiando o ídolo brega-popularesco que, mesmo fazendo sucesso e simbolizando o poder da mídia, é tido como o "pobre coitadinho" que não é levado a sério pelos "exigentes" especialistas em MPB e rock brasileiro.

O paternalismo, do contrário que se imagina, não traz contribuições reais para o reconhecimento real da música popular. Ele não resolve sérios problemas como o fato do ídolo brega-popularesco primeiro fazer sucesso gravando ruindades musicais, para depois ele, protegido por alguns "bacanas" da MPB/Rock Brasil, passa a fazer discos mais "cosméticos", dentro daquela onda de "MPB de mentirinha".

Tudo fica falso. E o ídolo brega-popularesco acaba fazendo as mesmas regras da "MPB burguesa", cheio de pompa, de luz, com o ídolo vestindo paletós de grife, com músicas arranjadas por outros músicos, com repertório cheio de covers de MPB. Isso é "verdadeira canção popular"?

Para a "ala burguesa" da MPB, tanto faz, tudo acaba sendo uma "colaboração coletiva", tudo "solidário", mas isso na prática anula o que mais interessa, que é ver se o tal ídolo tem valor artístico por si só, e não pelo socorro dado por gente mais esclarecida.

NINGUÉM NASCE SABENDO, MAS NÃO SE TRANSFORMA RUINDADE EM SUCESSO

Ninguém nasce sabendo, mas o real problema que se vê no brega-popularesco é a mediocridade transformada em milhões de cópias vendidas, plateias lotadas, sucesso na mídia etc. Há mais de 50 anos, tínhamos os verdadeiros artistas vindos das classes populares e que já mostravam, desde o começo e muito antes de aparecer no rádio e no disco, seu valor musical.

A cultura popular era associada à expressão do saber. Hoje ela é a expressão do não saber. E o que se nota nessa blindagem toda de intelectuais, artistas e celebridades é que, mesmo com o mais "apaixonado" apoio ao brega-popularesco, os louros no final acabam ficando sempre para as elites.

Neste sentido, a dicotomia "pobre X rico" faz com que o pobre seja visto como um coitadinho que não sabe, ou que "sabe sem saber", que, protegido pelas elites mais "esclarecidas", é salvo de seu pecado original e alçado ao posto de "grande artista", sem méritos reais. O brega é seu "pecado original" e o ídolo brega, premiado com seu sucesso comercial, é tratado como se fosse uma "mascote" dos "bacanas" culturais, vistos como "heróis" no seu evidente paternalismo cultural.

Se a onda pega, veremos depois um figurão da MPB performática achar que os sucessos da Gaiola das Popozudas devem ser lembrados, daqui a alguns anos, como os clássicos da Bossa Nova. Ou algum intelectualoide de plantão querer que o MC Créu seja reconhecido como um "poeta concretista das ruas". Joga-se a mediocridade cultural no cartório para que ele se legitime pelo apoio dos "bacanas".

Pelo mesmo Kiko Zambianchi não aderiu a essa onda paternalista que toma conta de gente como Patrícia Pillar, Celso Fonseca, Nando Reis, Zeca Baleiro, Regina Casé, para não dizer os já manjados Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches.

O cantor e compositor de "Primeiros Erros" deixou, ao rejeitar a mediocridade dominante, de cometer novos erros. E, talvez, Kiko Zambianchi tenha consciência de seu talento para que não precise apoiar um João Lucas & Marcelo que lhe possam arrumar algum lugar entre as atrações de algum festival ou evento comemorativo no interior do país.

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